O liberalismo radical de Deirdre McCloskey

Marcelo Hailer Sanchez
Jornalista, Doutor em Ciências Sociais (PUC-SP) e Mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP). Pesquisador em Inanna (NIP-PUC-SP). Trabalhei nas redações do Mix Brasil, Revista Junior, Revista A Capa e Revista Fórum. Também tenho trabalhos publicados no Observatório da Imprensa e revista Caros Amigos. Sou co-autor do livro "O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente" (AnnaBlume).

Populismo e teses reacionárias são qualquer coisa, menos liberais. Essa é uma afirmativa recorrente nas palestras de Deirdre McCloskey. Ph. D em Economia pela Universidade Harvard, foi professora, junto com Milton Friedman (Nobel, 1976), na Escola de Chicago entre 1968 e 1980, nos departamentos de economia e história. Na semana passada esteve no Brasil para participar de um evento/fórum de debates organizado pelo banco Credit Suisse, na cidade de São Paulo.

Fiel seguidora das teses de Adam Smith, Deirdre McCloskey carrega uma multidão de fãs nos EUA, seu país natal, lotando palestras e cursos com um público que une gerações distintas. Mas porque as suas ideias têm atraído tanta atenção? São vários motivos e teses responsáveis pelas suas turnês dentro e fora do Ocidente, mas duas ganham destaque: o liberalismo não é um conjunto de ideias conservadoras e o Estado deve desregular não apenas o mercado, mas também a vida das pessoas.

“O verdadeiro liberalismo deseja que todas as pessoas sejam tratadas com dignidade. A minha identidade (de gênero e sexual) e a sua deve devem trabalhar juntas para a construção de um mundo melhor para todos nós sem o uso da violência e do Estado. Grupos que se colocam contra a exibição de artes LGBT e se autodefinem liberais… isso não é liberalismo, essas pessoas não são liberais”, crítica a economista e historiadora que ganhou fama internacional com a sua trilogia sobre a Ética e o Valor na sociedade burguesa (ainda sem tradução para o Brasil).

McCloskey é uma estudiosa e propagadora das teses de Adam Smith, o qual alcançou, segundo a pesquisadora, o grau máximo de sucesso teórico com o seu livro A Riqueza das Nações, publicado em 1776. Com a obra, Smith iniciou a economia moderna e lançou a tese do livre mercado, porém, destaca Deirdre McCloskey: a liberdade não apenas para as negociações, mas também à vida das pessoas: livres para negociar e criar. É aqui que, também emerge uma das teses mais polêmicas da autora: o liberalismo é o regime da liberdade e da criatividade e, justamente por incentivar a criação é que promove riquezas.

Para McCloskey uma das causas do enriquecimento é a inovação, pois, segundo a economista e seguindo o rastro do pensamento de Keynes e Smith, sem inovação não há riqueza, pois, os objetos – quando não movimentados e recriados – perdem o valor e se tornam artefatos acumulados que não valem nada. A inovação é um valor inerente aos ideais de igualdade, liberdade e justiça. Para ela, estes valores consolidam o mundo moderno. “O que tornou possível que as massas começassem a inovar, somente após o século 19, foi o liberalismo”, enfatiza.

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Outra questão de fundamental importância e que também gera muita controversa é o fato de que, para Deirdre a hierarquia é a antítese do liberalismo.

“O fim das hierarquias – a hierarquia é o oposto do liberalismo. A hierarquia de homens acima das mulheres, de mestres acima dos escravos (nossos países, EUA e Brasil, têm experiências semelhantes com a escravidão). Ou até mesmo de chefes sobre trabalhadores. De oficiais do governo sobre meros cidadãos. Essas hierarquias deixam as pessoas estagnadas. O que o liberalismo fez, e eu estou falando especificamente de uma ideia do século 18, foi liberar as pessoas para criarem”, declarou Deirdre McCloskey no Fronteiras do Pensamento, em 2019.

Os pecados da economia

Em 2017, a polêmica economista lançou o manifesto/ensaio “Os pecados secretos da economia”, publicado no Brasil pela editora UBU, onde ela trava uma discussão profunda sobre o distanciamento da economia da vida cotidiana – e como os economistas contribuíram para isso -, mas também critica os cientistas políticos e sociais que se afastaram da estudo econômico por considera-lo “frio e desumano”. Neste sentido, escreve McCloskey, ambos os campos de pesquisa cometeram pecados.

Como trazer a economia para o dia a dia? No manifesto, a autora relaciona a compra do pão com ações na bolsa para mostra como uma atividade banal possui extensas relações de liberdade e de mercado. “Quando vocês compram pão de forma no supermercado, tanto vocês quanto o supermercado (e seus acionistas, seus empregados, seus fornecedores de pão) saem ganhando em alguma medida. Como eu sei disso? Porque o supermercado oferece voluntariamente o pão, e vocês aceitam a oferta também voluntariamente. E isso deve ter melhorado alguma coisa para os dois, seja pouco ou muito – pois de outro modo vocês não teriam concluído a transação”, analisa a autora.

Mas, o que não é pecado econômico para a autora? A devoção a liberdade e ao livre mercado, porém, Deirdre McCloskey critica diariamente o falso liberalismo defendido por grupos e governos ao redor do mundo, especificamente no Ocidente. Para ela, nem a vida e nem os pequenos comércios devem ser controlados pelo Estado, ou seja, a autora defende o Estado mínimo em várias camadas: não apenas aquele que prevê a desregulamentação total do mercado, mas também das escolhas feitas pelos cidadãos. Um governo liberal jamais, segundo Deirdre, vai dizer o que as pessoas podem ou não fazer. Para alguns trata-se de uma “utopia liberal”, para a professora, trata-se de liberdade.

No seu manifesto, a pesquisadora traz uma discussão de como os estudos econômicos se tornaram obsessivos com as estatísticas e tudo aquilo que tivesse relação com análises qualitativas, perder-se-ia o valor. Nem o céu, nem a terra, para Deirdre, qualquer estudo ou pesquisa, seja na política ou na economia, se não tiver o mínimo de contato com as pessoas e suas vidas, não serve para nada.

Outro pecado que a autora aborda em seu manifesto é insistência de “seus colegas economistas de esquerda” na economia centralizada (ou planificada). E para refutar as teses socialista, Deirdre afirma que o liberalismo combate a miséria e é o responsável por, nos últimos séculos, ter diminuído “drasticamente a pobreza” no comparativo histórico.

“Mesmo depois do comunismo, mesmo depois de tantas experiências desastrosas de planejamento central […] ainda acreditam que o Socialismo mereça uma oportunidade. É óbvio, acham elas, que no fim das contas o socialismo é mais justo que um capitalismo irrestrito. É óbvio que é preciso adotar uma regulação para restringir o monopólio. Mas elas não percebem que o livre mercado já acabou com parte da miséria”, provoca Deirdre.

Com inimizades à direita e à esquerda, Deirdre McCloskey é uma polêmica teórica do liberalismo e ativista da liberdade das mulheres e da comunidade LGBT que vale à pena ser lida e estudada. Infelizmente, as suas principais obras ainda não estão traduzidas no Brasil, mas podem ser encontradas em algumas livrarias.