O caos da última primária democrata, em Wisconsin, antes da desistência de Sanders

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor

Crédito: Kamil Krzaczynski / AFP

As primárias do Partido Democrata para escolher o candidato que vai enfrentar o atual presidente Donald Trump na eleições de novembro deste ano, chegaram ao fim. Joe Biden deve ser nomeado, após o senador Bernie Sander ter suspendido sua candidatura na manhã dessa quarta-feira (8). Mas, no dia anterior, Wisconsin realizou seu pleito, em meio à pandemia do novo coronavírus, e o que se viu foi algo bem perto do caos.

Com mais de 410 mil infectados e 14 mil mortos em decorrência do Covid-19 em todo o país, os eleitores do Wisconsin tiveram que ir presencialmente às urnas nessa terça-feira (7).

Quando eles chegaram aos locais de votação, o que encontravam eram filas enormes, com cidadãos vestidos máscaras e trabalhadores dos locais de votação apreensivos, e as tropas da Guarda Nacional tentando impor uma certa áurea de segurança, mesmo o inimigo sendo invisível.

O estado agora virou centro e exemplo do que os norte-americanos não pretendem presenciar nas eleições gerais de novembro. E, pior, virou uma disputa política sobre a forma que os eleitores podem votar. Democratas e Republicanos brigam nos bastidores sobre a matéria.

Governador tenta adiar votação e o caos

“O prelúdio para as primárias de Wisconsin na terça-feira foi um caos total”, escreveram Jeff Zeleny e Dan Merica, em longo artigo para a CNN local.

“Duas decisões legais no final da noite – uma da Suprema Corte de Wisconsin e outra da Suprema Corte dos Estados Unidos – deram a luz verde final para a votação poucas horas antes do pleito começar no estado”, contaram.

Os republicanos também aplaudiram a decisão. O governador democrata Tony Evers tentou adiar a eleição e suspender a decisão do tribunal de primeira instância, pedindo que os eleitores tivessem seis dias para devolver suas cédulas por correio. Os republicanos argumentaram que os democratas estavam procurando reescrever as leis de votação e oportunisticamente usando o surto mortal para fazer isso.

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O estado tinha, até o dia da primária, 2.578 casos confirmados e 92 mortes. Os números crescem alarmantemente todos os dias.

No Twitter, o governador escreveu: “embora eu permaneça profundamente preocupado com as implicações para a saúde pública de votar pessoalmente hoje (ontem), estou impressionado com a bravura, resistência e heroísmo daqueles que estão defendendo nossa democracia, comparecendo ao voto, trabalhando nas pesquisas de opinião e informando sobre essa eleição”.

“Obrigado por dar ao nosso estado algo para se orgulhar hoje. Por favor, fique o mais seguro possível, cidadão de Wisconsin”, completou.

Mudança na maneira de votar

Enquanto democratas e defensores do direito ao voto tiveram que se resignar com a desordem que levou Wisconsin a manter sua primária, muitos veem o fato como uma prova de que o partido e seus aliados devem fazer mais, antes de novembro, para impedir que o estado, no meio do caos, se torne um sinal agourento sobre as eleições do final do ano.

“As fotos que chegam de Wisconsin são preocupantes. Isso é desnecessário e prejudicial”, disse Eric Holder, ex-procurador geral da administração Obama, que agora dirige uma organização de direitos de voto. “Se não aprovarmos procedimentos eleitorais sensíveis à saúde, colocaremos em risco o bem-estar de todos os americanos – independentemente de sua preferência política”.

O surto do novo coronavírus já mudou as primárias de costa a costa, mas também ameaça mudar fundamentalmente a maneira como os americanos vão votar nas eleições gerais, com a segurança nos locais de votação nos bairros se tornando repentinamente uma preocupação.

Vale lembrar que não se sabe quando a pandemia de fato vai acabar e quando a crise será considerada “controlada”. Espera-se que em novembro esteja tudo bem, mas não há uma garantia concreta.

Má fama para Wisconsin

Muito antes dos temores do Covid-19, os dois partidos estavam se preparando para um confronto épico sobre os direitos ao voto, provavelmente a luta mais extensa desde a que levou à Lei dos Direitos de Voto, mais de meio século atrás.

A lei (Voting Rights Act, em inglês) é um marco na legislação federal dos Estados Unidos, por ter estabelecido o fim das práticas eleitorais discriminatórias, decorrentes da segregação racial nos Estados Unidos. Foi sancionada pelo Presidente Lyndon Johnson, em 6 de agosto de 1965, seguindo-se à Lei de Direitos Civis, de 1964.

Mesmo agora, seis meses antes do dia das eleições em novembro, pelo menos 20 ações judiciais estão se desenrolando em 14 estados em todo o país.

“O que a Covid-19 fez foi despejar gasolina em um amontoado de brasas”, disse Marc Elias, o principal advogado eleitoral do Partido Democrata. “Passamos de uma queima pequena para um incêndio muito maior”.

Um capítulo inicial da luta aconteceu ontem em Wisconsin, que, depois do caos da primária, estará entre os estados mais vigiados até novembro.

Os eleitores não estavam apenas votando na disputa democrata entre o ex-vice-presidente Joe Biden e o senador Bernie Sanders, de Vermont, mas também em uma disputa crítica pela Suprema Corte de Wisconsin, que deve ouvir casos de direitos de voto este ano.

O estado, ao não adiar a eleição, agora ganhou uma reputação infame: Wisconsin era o único estado com uma eleição agendada para abril, sem permitir o voto por correspondência, em meio ao gravíssimo surto de coronavírus.

A má fama conquistada agora pode se juntar à de pé-frio em novembro, caso Biden sucumba a Trump.

Voto por correio

Ao contrário do Brasil, onde a lei de votação é federal e os estados cumprem o que é determinado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), nos Estados Unidos, cada estado é responsável pela sua eleição.

Enquanto o voto por correio gradualmente se tornou rotina em várias partes do país, outros estados resistiram aos esforços para simplificar a votação. Wisconsin é um deles.

Os republicanos trabalharam para limitar as restrições aos ausentes e à votação antecipada em vários estados, com legislaturas controladas pelo Partido Republicano, argumentando que as regras de identificação de eleitores devem ser fortalecidas para evitar abusos ou fraudes.

Forçar o eleitor a ir às urnas em meio a uma pandemia pode parecer criminoso, mas é visto como uma jogada política importante, num país onde o voto não é obrigatório e esvaziar o comparecimento do adversário é uma estratégia.

Um exemplo importante é justamente o de Wisconsin, que tem adotado constantemente requisitos mais rígidos de identificação de eleitores. Donald Trump ganhou no estado em 2016, embora hoje seja governado por um democrata.

“A eleição de Wisconsin oferece uma visão de pesadelo do que todo o país poderia ver em novembro”, disse Ben Wikler, presidente do Partido Democrata de Wisconsin. “Uma batalha na qual os democratas lutam para equilibrar a democracia com a saúde pública, e o Partido Republicano arma implacavelmente tribunais, leis eleitorais e o próprio coronavírus para privar os eleitores que se interpõem no seu caminho”.

Trump repetidamente, sem apresentar provas, a exemplo de Jair Bolsonaro no Brasil, sugeriu que a fraude desenfreada o impediu de bater Hillary Clinton no número geral de votos, há quatro anos. Trump ganhou no colégio eleitoral, que é o que de fato abre as portas da Casa Branca.

Ele agora assumiu a luta contra a expansão do voto por correio na era do coronavírus, que era uma contrapartida ao pacote de ajuda que o Congresso aprovou no final de março, no valor de US$ 2 trilhões.

A lei assinada pelo presidente inclui US$ 400 milhões para ajudar a pagar as eleições, muito aquém dos US$ 2 bilhões que os democratas dizem ser necessários para preparar os estados para expandir o voto por correio e trazer outras facilidade para ajudar os cidadãos a votar em novembro.

Acusações de Trump

“As cédulas por correio são coisas muito perigosas para este país”, disse Trump, não oferecendo provas de sua afirmação contra rivais democratas. “Os eleitores são fraudulentos em muitos casos. Você tem que votar. É preciso identificar o eleitor, se você quiser fazer o que é certo”, sem se preocupar em quebrar o sigilo do voto.

O presidente promoveu repetidamente o argumento conspiratório de que o aumento da votação por correio daria ao Partido Democrata uma vantagem injusta nas urnas, já que minorias e eleitores mais jovens tendem a favorecer os candidatos democratas.

“Se você concordasse com isso, nunca teria um republicano eleito neste país novamente”, disse Trump em uma entrevista no final de março, na Fox News.

Trump, no início deste mês e mais uma vez sem provas, disse acreditar que “muitas pessoas trapaceiam na votação por correio”.

As alegações não comprovadas do presidente, antes relegadas a teóricos da conspiração, tornaram-se um argumento central entre os líderes do partido, incluindo a presidente do Comitê Nacional Republicano, Ronna McDaniel, que sugeriu que os democratas “já planejavam sua próxima tentativa de usar a pandemia para obter ganhos políticos”.

“A proposta de voto por correio dos democratas é um ardil para legalizar a colheita de votos em todo o país”, escreveu McDaniel em artigo de opinião para a Fox News. Para ela, por correio, qualquer pessoa poderia votar pelos ausentes, aqueles que por opção simplesmente não desejaram comparecer às urnas.

Segunda onda no outono

Há ainda uma enorme preocupação com uma segunda onda do vírus começando no outono do Hemisfério Norte e que atinja o país durante as eleições.

Não se sabe se ela de fato vai acontecer, mas é melhor se prevenir para evitar o caos nacional.

Segundo Michael Waldman, advogado de diretos de voto, disse à CNN, “a menos que desejemos operar sob a suposição de que tudo isso vai acabar, temos que nos preparar. Se nós, como país, não agirmos, poderão haver 50 Wisconsins em novembro. O que Wisconsin mostra é que, se não agirmos, será muito difícil ter uma eleição na qual todos possam participar em novembro”.

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