Novo na bolsa de valores? Veja como pessoas físicas impactam o mercado

Natalia Gómez
Editora, é jornalista especializada no mercado de investimentos há 17 anos. Formada pela PUC-SP, teve experiências em veículos como Agência Estado, Valor Econômico e Revista Você SA; e na área de comunicação corporativa e relações públicas para instituições financeiras.
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Se um dia a bolsa de valores foi algo restrito a um pequeno grupo de brasileiros, hoje isso está mudando. Nos últimos meses, um grande número de pessoas físicas estreou na B3 para investir em ações.

Essa transformação já é sentida no mercado e tem efeitos até na formação de preços das ações. De acordo com especialistas do mercado, a pessoa física tende a ser mais impulsiva nas suas decisões.

Além disso, costuma preferir investir em empresas que conhece no mundo real, como marcas de consumo.

Confira neste post todos os efeitos do avanço da pessoa física no mercado de ações. Se você é uma delas, fique atento para as dicas de como investir de forma segura.

Aumento expressivo

Entre o final de 2019 e julho de 2020, o número de pessoas físicas na bolsa quase dobrou. Passou de 1,6 milhão para 2,8 milhões, segundo dados da B3.

Comparando com anos anteriores, o volume atual parece ainda mais expressivo. Para ter ideia, o número de pessoas físicas ficou perto dos 500 mil nos dez anos entre 2007 e 2017.

Além disso, as pessoas estão investindo em mais empresas, diversificando seus portfólios de ações. Se em 2016 apenas 26% da base tinha 5 ou mais empresas em carteira, esse número subiu para quase metade da base em 2020 (48%), de acordo com a B3.

Vários motivos explicam essa mudança. Os principais são a queda da taxa de juros (Selic) e o maior acesso à informação sobre o mercado financeiro via internet.

No caso da Selic, o problema foi que a queda da taxa reduziu o retorno de várias aplicações de renda fixa. Com isso, os investidores têm sido forçados a aceitar mais riscos para obter melhores retornos. No momento, a Selic está na sua mínima histórica, a 2% ao ano.

Mas o que realmente interessa é: como esta onda de novos investidores pode impactar o mercado?

Marcas de consumo chamam mais atenção

De acordo com os especialistas, as pessoas físicas tendem a se comportar de uma forma mais emocional do que os investidores profissionais.

Isso significa que muitos destes investidores podem preferir investir em empresas que conhecem no mundo físico. Por exemplo, varejistas ou empresas de e-commerce.

“As pessoas buscam a sensação de pertencimento, mesmo que isso seja inconsciente. Por isso, muitas vezes preferem investir nas empresas que conhecem e às quais têm acesso”, explica o assessor de investimentos da EQI, Elias Wiggers.

O inverso também é verdadeiro, segundo ele. Ou seja, uma pessoa que têm ações da Magazine Luiza tende a preferir fazer compras nesta empresa.

Por essa razão, vários analistas afirmam que o rali das empresas de e-commerce na bolsa brasileira neste ano foi impulsionado – entre outros fatores – pela maior participação da pessoa física na bolsa.

Nos Estados Unidos, mercado com ampla presença da pessoa física na bolsa, algumas ações de destaque são justamente empresas ligadas a consumo. Um exemplo emblemático é a Apple.

Impacto nos preços

As decisões das pessoas físicas podem influenciar os preços desses papéis, a depender da magnitude dos movimentos de manada, segundo Luiz Nazareth, diretor de Investimentos e Produtos da Consulenza.

No entanto, a tendência é que o mercado passe por um ajuste de preços, liderado pelos fundos de investimentos. “Quando os investidores institucionais entendem que os ativos ficaram caros, começam um movimento de venda e ajuste de preços”, destaca.

No longo prazo, caso os juros continuem baixos e o fluxo de pessoas físicas na B3 siga crescendo, é possível que uma quantidade maior de empresas brasileiras acessem o mercado de capitais.

Neste cenário, empresas conhecidas pelo grande público podem ser um destaque.

Pessoa física é mais impulsiva

Outro comportamento comum das pessoas físicas é a impulsividade, segundo os especialistas. Isso ocorre porque muitas não têm experiência no mercado nem tempo suficiente para estudar o assunto.

Dessa forma, ficam mais suscetíveis a dicas e orientações que encontram na internet, nem sempre focadas no longo prazo, segundo Luiz Sedrani CIO da BV Asset.

O lado negativo é que essa impulsividade traz riscos para os investidores novatos.

Vale destacar que os jovens têm uma participação crescente neste tipo de investimento. Segundo estudo divulgado pela B3 sobre o perfil do investidor, a faixa etária de 25 a 39 anos teve uma evolução de 21 pontos percentuais de 2017 para cá.

A faixa, que antes representava 28% de todas as pessoas físicas, hoje representa 49%.

Outro dado que chama a atenção: dos 223 mil investidores que entraram na renda variável em março de 2020, 30% fez o primeiro investimento com menos de R$ 500.

Apesar da impulsividade destacada pelos especialistas, as pessoas físicas surpreenderam o mercado durante o início da crise do coronavírus. Isso porque elas mantiveram suas posições na bolsa mesmo no auge da volatilidade dos mercados.

Investimento ou jogo?

Os efeitos da impulsividade do investidor já são sentidos no mercado. Segundo a sócia da Gap Asset, Lia Liserra, grande parte do giro durante o dia das pessoas físicas é alavancado.

Além disso, grande parte da posição adquirida durante o dia é vendida antes do fechamento do mercado, de acordo com a Gap.

“Seguindo este padrão, as pessoas físicas buscam empresas com maior potencial de valorização em vez de focar nas empresas de eficiência já reconhecida, esperando retornos mais rápidos”, explica.

Segundo ela, isso é um comportamento clássico em momentos de bolsa. Ou seja, as pessoas compram as ações que mais subiram (casos de Via Varejo e Tesla), sem focar em conhecer a companhia em si.

Consumidor também é investidor

Caso o mercado de ações continue a atrair as pessoas físicas, a relação entre as empresas abertas e seus consumidores pode mudar. Afinal, além de consumidor, o cliente está se tornando acionista das empresas.

“Cada vez mais as empresas precisarão cuidar da sua imagem corporativa e colocar o consumidor no centro, pois ele é cliente e dono do negócio”, explica o porta voz da BV Asset. Em sua visão, isso é um dos efeitos positivos do cenário atual.

Cuidados a tomar na bolsa

Para quem está começando a investir na B3 agora, os especialistas recomendam cautela. Segundo o porta-voz da Consulenza, muitos investidores não estão preparados para o risco de investir em ações.

“Tudo tem que ser feito na medida certa. Ninguém deve se expor a ponto de não dormir à noite com medo da volatilidade”, orienta o porta-voz da Consulenza.

Ele reforça que o foco do investimento em ações deve ser no longo prazo. Isso significa conhecer a empresa antes de decidir virar sócio, analisando o setor e a companhia em profundidade.

“Também é fundamental procurar assessoramento e montar uma carteira de investimentos equilibrada e compatível com o perfil”, destaca.

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