Nova queda de mercados reforça risco de recessão global

Marcello Sigwalt
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Crédito: crédito: site Correio do Povo

Nova queda de mercados reforça risco de recessão global. Isso porque o avassalador sobe e desce das últimas horas torna o segmento tempestuoso e imprevisível.

A oscilação foi tanta que o dólar alcançou R$ 4,66 na abertura dos pregões. Já no início da tarde o Ibovespa recuava 6,6%, acompanhando o Dow Jones (-4%) e a Nasdaq (-3%). A estimativa do PIB para 2020 recuou.

Segundo analistas financeiros, uma das razões está ligada à frustração gerada após anúncio do pacote de medidas do presidente norte-americano.

Acontece que as medidas de Trump ficaram aquém do que o mercado esperava. Se nada for feito, existe a possibilidade de uma recessão global em breve, estimam economistas consultados pela reportagem.

De acordo com os especialistas, não há recessão hoje, mas as condições estão postas, muito por conta das perdas que o coronavírus poderá gerar.

Reação pífia

O esforço de governos e bancos em aprovar medidas anticrise não está surtindo efeito. No Brasil, a turbulência externa tem servido para expor a fragilidade da economia nacional.

Prova disso é o desentendimento recorrente entre Executivo e Legislativo que, por conta de rusgas até pessoais, tem impedido a tramitação e aprovação mais célere das reformas.

Recentemente o ministro da Economia Paulo Guedes pediu que o Congresso acelerasse as reformas fiscais e estruturais para dar novo ânimo ao mercado.

Lá fora

Coordenadora de graduação em Economia do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa), a professora Juliana Inhasz lembra que nas últimas 24 horas houve piora da situação do coronavírus na Itália.

“Cresceu a o índice de mortalidade naquele país, enquanto que na China parece haver relativo controle da epidemia”, diz. Ela concedeu entrevista exclusiva ao EuQueroInvestir.com.

Para a coordenadora, há risco de desabastecimento na cadeia de suprimentos. “A apreensão com essa possibilidade é real, principalmente por conta da falta de componentes para equipamentos eletroeletrônicos”, frisa.

Para ela, esse segmento deverá se adaptar a essa nova conjuntura de maneira mais lenta, impactando principalmente Estados Unidos e China.

China

O petróleo

Segundo a professora, há, ainda, a “crise dentro da crise”. Trata-se da queda vertiginosa dos preços do petróleo, com a Arábia Saudita empanturrando o mercado com esse commodity.

Isso porque o valor de grande parte das empresas americanas, vinculadas ao setor de petróleo, é muito sensível a qualquer variação na sua cotação internacional.

“Companhias de distribuição, transmissão ou refino, essas empresas têm participação importante nesse mercado. Com a cotação do petróleo em queda livre, comprime-se a margem de lucro face aos custos elevados, precipitando a quebra de algumas delas”, ressalta.

Ela reforça que nem mesmo o fato de os EUA serem autossuficientes em petróleo neutraliza os efeitos da baixa internacional nas suas cotações.

“O mercado americano terá que se alinhar aos preços internacionais, até porque também acabará importando o petróleo saudita barato que circula hoje no mundo”, explica.

China petroleo

Efeito manada

De acordo com Juliana, a aversão ao risco se materializa no chamado “movimento de manada”, marcado pela venda alucinada de papéis pelos investidores.

“No caso do Brasil, o tombo do Ibovespa mostrou que estamos muito mais expostos aos fatores externos do que imaginávamos”, diz.

A coordenadora cita a Petrobras como exemplo. “Vista como ativo seguro, a petroleira foi estremecida com o cenário internacional. Isso porque a estatal já não é mais a galinha dos ovos de ouro do mercado.”

Repeteco de 2019

A professora classifica de utopia a previsão, feita em janeiro, de que o país cresceria  2,5% em 2020. “Uma taxa certamente superestimada”, diz.

Ela diz acreditar que se o país chegar ao final do ano com uma taxa de crescimento em torno de 1% – a mesma de 2019 – os brasileiros não deverão se sentir derrotados.

“De igual forma, as previsões para a economia chinesa derreteram e agora as estimativas giram em torno de um resultado não superior a 3%, ainda dependendo do comportamento da enfermidade naquele país e mundo afora”, frisa.

http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2019-11/banco-central-vendera-mais-us-75-bilhoes-das-reservas-em-dezembro

Queimando reservas

A coordenadora destaca que as intervenções do Banco Central, com o objetivo de deter a disparada do dólar, a partir de leilões de swaps cambiais e venda de dólares no mercado spot, têm sido inócuas.

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“A intervenção recente de US$ 3 bilhões [num único dia] não alterou a trajetória da taxa de câmbio, que continuou elevada. Na prática, apenas queimamos reservas”, avalia.

Para ela, é difícil saber se a volatilidade cambial decorre somente de fatores externos ou também de ações especulativas pontuais.

“Mesmo assim, é preciso reconhecer a importância da presença da autoridade monetária num momento turbulento como o atual”, ameniza.

Segundo a especialista, o BC não tem arsenal para conter o avanço da moeda norte-americana. “A instituição pode fazer intervenções pontuais, mas não mais, restando à autarquia o papel de expectador dos desdobramentos do choque externo”, declara.

Dependência chinesa

Segundo a especialista, o mundo não pode mais ficar dependente da economia chinesa, hoje em descenso. “Se tropeçar, todos caem juntos”, comenta.

Já no caso brasileiro, diz, a lição é de que se deve repensar a importância da indústria, que enfrentará dificuldades para completar sua produção, por falta de componentes importados.

“É hora de as economias, de modo geral, repensarem suas relações comerciais”, observa, acrescentando que, no campo doméstico, a lição é de que “as reformas são mais urgentes do que se imagina.”

Desafio logo à frente

A coordenadora enfatiza que o Brasil hoje cresce muito pouco, possui graves problemas internos, agora reforçados pelo choque externo, fatores que, reunidos, “tornam mais difícil nossa tentativa de voltar a crescer.”

Para ela, se as reformas já tivessem sido aprovadas, o governo poderia adotar, nesse momento, uma política de incentivos fiscais favorável ao crescimento do país.

“Não podemos mais ficar inteiramente dependentes de determinados parceiros comerciais, pois faltou estratégia para se antecipar a essas crises externas. Ou seja, está mais do que na hora de nos tornarmos protagonistas e não coadjuvantes”, ressalta.

De acordo com a professora, não se pode admitir que o mundo está à beira de uma recessão, mas, “ela está mais próxima de ocorrer do que antes da epidemia global. No entanto, o mercado ainda não precificou a recessão”, frisa.


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