Natura (NTCO3): “Não há modelo de negócios sem sustentabilidade”

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor
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Crédito: Reprodução / The Climate Group

Este ano, a Natura (NTCO3), lançou seu “Compromisso com a vida”, a visão de sustentabilidade da empresa até 2030.

No programa, a empresa estabelece compromissos e ações para “abordar algumas das questões mais urgentes do mundo: enfrentar a crise climática e proteger a Amazônia, garantir igualdade e inclusão”, entre outras ações.

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“Nossa abordagem exige um modelo de negócios abrangente que devolva mais do que consome”, diz o documento divulgado à imprensa.

A CNBC citou esse movimento da Natura como exemplo de práticas que serão determinantes no pós-pandemia.

A crise mais grave de saúde que a humanidade enfrenta em mais de um século criou novas formas significativas de fazer negócios que devem beneficiar a economia e o meio ambiente, de acordo com líderes empresariais com quem a reportagem falou.

Para eles, não há outra opção a não ser mover em direção à sustentabilidade.

Compromisso da Natura

O compromisso da gigante brasileira de cosméticos inclui “enfrentar a crise climática e proteger a Amazônia”.

Inclui também “defender os direitos humanos” e ser “mais humano”.

E “abraçar a circularidade e a regeneração”.

“(Isso) é ainda mais relevante pelo momento em que vivemos e pela importância de realmente pensar em como queremos o mundo que após a crise”, disse à CNBC, por telefone, o CEO da Natura, Roberto Marques.

A Natura é dona da marca britânica The Body Shop, da australiana Aesop, e em janeiro fechou acordo para a compra da empresa americana Avon, criando um grupo de 200 milhões de clientes.

“Para a Natura, o crescimento financeiro e a sustentabilidade andam de mãos dadas”, diz a matéria, “e a remuneração dos executivos tem sido parcialmente baseada em metas verdes”, disse Marques.

Sem vidas, é um planeta morto

Não é só marketing. Pelo contrário. A sustentabilidade é a garantia de que o negócio se perdure.

É do interesse da Natura focar na sustentabilidade em um esforço para garantir, por exemplo, que as matérias-primas estejam disponíveis no longo prazo.

“Não podemos dirigir um negócio em um planeta morto… Não há outra opção para empresas e líderes”, disse Marques.

Questionado sobre o que gostaria do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que foi criticado por seu ceticismo em relação às questões verdes, Marques foi evasivo: “acreditamos fortemente que a resposta é o diálogo, incluindo os principais interessados”.

Descaso brasileiro com a natureza

Ao contrário do CEO da Natura, que vê a natureza preservada como um ativo importante, o atual governo brasileiro pouco se importa.

Em 10 de agosto de 2019, aconteceu o hoje conhecido como “dia do fogo”.

Naquele dia, segundo reportagem da Folha de S.Paulo, uma investigação da ONG Greenpeace conseguiu identificar 478 propriedades onde ocorreram queimadas propositais. Delas, 207 registraram queimadas em área de floresta nos dias 10 e 11 de agosto – e somente 5,7% receberam autuações.

Outro dado alarmante: 71% das queimadas em imóveis rurais neste ano na Amazônia ocorreram para manejo agropecuário, afirma o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).

O Pantanal mato-grossense teve um aumento de 530% nos registros de queimadas no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado.

Na fatídica reunião ministerial do dia 22 de abril, alvo do inquérito envolvendo o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública e ex-juiz Sérgio Moro (sem partido), sobre interferência de Jair Bolsonaro na Polícia Federal, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles (DEM-SP), disse que o país tinha que aproveitar a pandemia da Covid-19 para “passar a boiada” nas regulações ambientais.

Jair Bolsonaro não tem uma visão muito amistosa mundo afora, especialmente na Europa, quando se trata de meio ambiente.

O presidente nunca foi defensor não só da Amazônia, mas de nenhum ecossistema nacional.

Mudança pós-pandemia

A CNBC falou com Richard Mattison, CEO da Trucost, empresa da S&P Global que estima os riscos climáticos para os negócios.

Para ele, a pandemia criou oportunidades que são boas para a economia e o planeta.

Mattison sugeriu que havia três coisas que as empresas podem fazer: cortar viagens de negócios, instigar uma política de trabalho em casa e tornar as cadeias de suprimentos mais locais.

“Por exemplo, se o setor de serviços profissionais definir uma política de trabalho em casa por três dias por semana, isso (colocará) todo o sistema de transporte de passageiros em alinhamento com as metas climáticas”, disse.

Reduzir as viagens de negócios em 40% e depender mais de chamadas de vídeo significaria que a indústria da aviação estaria no caminho certo para cumprir as metas climáticas prometidas como parte do Acordo de Paris de 2015.

IPOs e viagens

As viagens são algo que as empresas sinalizam que podem cortar.

Até as ofertas públicas iniciais (IPOs, na sigla em inglês) mudaram.

Pelo menos por enquanto.

Muitos IPOs estão indo muito bem durante a pandemia do novo coronavírus. Os executivos não podem fazer reuniões, não podem ir a jantares, congressos, apertar mãos e dar tapinhas nas costas e mesmo assim estão conseguindo elevar as ofertas públicas iniciais de suas empresas.

Por exemplo, Martin Sorrell, presidente executivo do grupo de publicidade S4 Capital, disse que voará menos.

“Vou viajar menos. Vou assistir a menos conferências. Estarei mais consciente de usar meu tempo de uma forma muito mais eficaz”, assegurou.

Medidas verdes

Governos em todo o mundo estão liberando fundos para impulsionar a economia durante a pandemia.

Há várias contrapartidas, entre elas algumas verdes.

“Em maio, a Comissão Europeia anunciou um novo pacote de estímulo relacionado ao coronavírus, com € 150 bilhões alocados para iniciativas verdes”, lembra a CNBC.

Para Helen Clarkson, CEO da organização sem fins lucrativos The Climate Group, os gastos pós-pandemia são “uma oportunidade crítica para investir em maneiras de obter emissões líquidas de gases de efeito estufa zero”.

Depois da grande crise e recessão de 2008, as questões de sustentabilidade um tanto que foram ignoradas, disse ela à CNBC por telefone.

Mas agora, as coisas são diferentes, em parte devido à pressão das gerações mais jovens e também porque as empresas estão tendo que se reinventar, acrescentou Clarkson.

“A pandemia é quase o maior choque psicológico que todos já tivemos… Cada empresa está olhando para seu modelo de negócios e seus orçamentos e seus planos anuais e dizendo, bem, isso está à disposição”, afirmou Clarkson.

Mundo interligado

A pandemia também deu outra certeza: o mundo está tão interligado que bastou um surto em um lugar do mundo e sete meses depois tínhamos 20 milhões de infectados e 740 mil mortos.

Isso quer dizer que a sensação de que as queimadas na Amazônia podem afetar o mundo todo não é um exagero.

James Omisakin e Abbie Morris são jovens empresários que criaram o Compare Ethics, um site que permite que os clientes comparem o compromisso das marcas de roupas com questões como o pagamento de um salário mínimo ou o uso de materiais reciclados.

“Os consumidores e funcionários agora estão perfeitamente cientes de como suas vidas podem mudar da noite para o dia e como as cadeias de suprimentos os afetam diretamente”, disse Morris à CNBC por e-mail.

Omisakin espera que o mundo dos negócios continue a pensar nas questões verdes.

“Não há escolha agora a não ser colocar o planeta em primeiro lugar. Os líderes sabem que sem sinergia, a natureza acabará por interromper e desarmar os esforços nos negócios” disse.

O grupo do clima

The Climate Group pressionou os governos para criar um quadro político para acelerar a forma como a energia verde é comprada pelas empresas e, em junho, enviou uma carta à União Europeia pedindo, entre outras medidas, a priorização do financiamento da infraestrutura elétrica.

Os signatários incluem AB InBev, Google e Visa.

A Europa lidera o caminho quando se trata de iniciativas verdes, disse Clarkson.

“Onde a Europa lidera, outros o seguirão”, disse.

Cabe também a empresários como o da Natura pressionar governos como o de Bolsonaro e Donald Trump, outro que nega o aquecimento global, a dar mais atenção à questão.

Um planeta mais verde e preservado é simplesmente bom para os negócios.