Na posse de Teich, Bolsonaro diz que assume risco por reabrir comércio

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.

Crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O novo ministro da Saúde, Nelson Teich, tomou posse nesta sexta-feira (17).

A cerimônia foi marcada pela declaração do presidente Jair Bolsonaro, que voltou a defender a reabertura do comércio e da atividade econômica no país com a flexibilização do distanciamento social.

A estratégia do isolamento é adotada por governadores e prefeitos, e recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), para frear o avanço da pandemia do Covid-19

A defesa pelo presidente da retomada da economia foi o motivo de sua divergência com o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, demitido nesta quinta (16) e presente à cerimônia de posse.

Bolsonaro fala de novo sobre demissão de Mandetta

“Tenho certeza que o ex-ministro sai com a consciência tranquila. Por que substituí-lo? Porque o ministro estava focado em seu trabalho no ministério. Eu tenho que ter uma visão mais ampla. A visão do Mandetta é da saúde e da vida. Na minha entra o (ministro) Paulo Guedes, entra a economia, o emprego”, justificou.

“Desde o início, eu tinha e ainda tenho uma visão de que tem que ‘abrir o emprego’. Abrir o comércio é um risco que eu corro. Se agravar, cai no meu colo”, afirmou.

Críticas a STF, prefeitos e governadores

O presidente voltou a criticar prefeitos e governadores pelas políticas de isolamento social adotadas. Também criticou o Supremo Tribunal Federal pela decisão de autorizar estados e municípios a definirem suas próprias políticas de enfrentamento ao coronavírus.

O presidente  enfatizou ainda que a história julgará a ambos, Bolsonaro e Mandetta, e que ele pede que “ambos estejam certos” em seus posicionamentos.

Fez uma analogia com o futebol: “Às vezes, os jogadores são substituídos. Às vezes, por cansaço. Às vezes, porque a gente precisa modificar o placar. Não existe demérito algum aqui. Todos torcem pelo time chamado Brasil”.

O presidente encerrou desejando sorte ao novo ministro Teich e recomendou que ele “junte Bolsonaro e Mandetta e divida por dois” para achar a fórmula certa de encarar o desafio que se apresenta. “O seu sucesso poupa vidas e poupa empregos”, disse.

Mandetta: economia será a questão “pós-Covid-19”

O primeiro a discursar durante a cerimônia foi o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta que, visivelmente emocionado, fez questão de cumprimentar a todos os presentes individualmente, com muitos elogios à equipe da qual fez parte desde janeiro de 2018.

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Ele resumiu sua trajetória no Ministério da Saúde, destacando que encontrou um Sistema Único de Saúde (SUS) que havia perdido o certificado de área livre de sarampo, com índices baixos de vacinação.

Também salientou a criação da Secretaria de Atenção Primária à Saúde, a ampliação do horário noturno do programa Saúde na Hora, e a implantação do programa Médicos pelo Brasil.

“O Médicos pelo Brasil une vínculo qualificado de trabalho com métricas de desempenho. Se saúde é investimento, todo investimento precisa ser medido para saber o retorno à sociedade”, enfatizou.

Mandetta também destacou o início do projeto de genética Genômica Brasil. Salientou ainda que, pela primeira vez, em seu mandato, um ministro da Saúde foi convidado a ir ao Fórum Econômico Mundial de Davos apresentar um sistema universal de saúde.

Pediu atenção dos brasileiros à Fiocruz, que, na sua opinião, é fundamental à própria soberania brasileira.

“Daqui tiramos nossos kits de testes, que muitos dizem que são poucos, e são mesmo, mas isso quando o mundo todo travava uma corrida por eles. Vamos precisar fazer vacina e ela tem que ser feita por quem tem capacidade. A Fiocruz é um celeiro de pessoas que lutam pela saúde pública brasileira”, disse.

Mandetta fez questão de citar e elogiar por diversas vezes durante seu discurso o ministro Paulo Guedes, afirmando que passou o ano de 2019 sem pedir qualquer recurso ao ministro.

Finalizou afirmando que o século 21 será dividido em “antes e depois do coronavírus”. “Muito nos preocupa a segunda onda, o pós-covid. E a economia será o grande desafio, ministro Guedes”, disse. “Mas tenho muita confiança na vossa condução e nas inúmeras ferramentas de gestão que temos para fazer esse enfrentamento”, completou.

Mandetta encerrou o discurso cumprimentando o presidente e os demais ministros com o cotovelo – um lembrete de que aperto de mãos está, por ora, proibido.

Teich: informação para conter a doença e o pânico

Nelson Teich iniciou seu discurso de posse afirmando que ali recebia “o maior desafio” de sua vida. Reafirmou também que não deve haver divisão entre saúde e economia, como já havia adiantado em entrevistas ontem (16). “Não importa o que você fala, se fala de economia, no final o assunto é sempre gente”.

Para ele, a solução para a Covid-19 no Brasil será a obtenção de informações mais precisas sobre a doença.

“Uma das características da Covid-19 é a pobreza de informação e isso leva a um estado de ansiedade e de medo que é enorme. Temos que cuidar da doença e administrar o comportamento de uma sociedade que está com muito medo”, disse. “Você anda nas ruas e parece filme, mas essa é a nossa realidade”.

Além de buscar o detalhamento do cenário, ele afirmou que pretende trazer a equipe certa para solucionar o problema. “Às vezes, você mapeia o problema e não tem o time certo”, disse, ressaltando que irá fazer as informações e o pessoal circularem entre os ministérios.

Em linha com o discurso de Bolsonaro, afirmou que, se o desemprego aumentar, até quem tem plano de saúde irá para o SUS, o que irá sobrecarregar o sistema.

Quem é Nelson Teich?

O novo ministro da Saúde, Nelson Teich, é carioca e tem 62 anos. Ele é formado em medicina pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), com especialização em oncologia no Instituto Nacional do Câncer (Inca), e Gestão de Negócios na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Em 2018, deu início a um doutorado de Ciências e Economia da Saúde na Universidade de York, no Reino Unido, ainda não finalizado. É fundador e consultor sênior da Teich Health Care, empresa de consultoria em projetos de saúde.