Na batalha contra a Huawei, China ameaça alemães no “local que mais dói”, as indústrias automobilísticas

Victor Meira
Com formação em Ciências Sociais e Jornalismo, experiência em redação nas editorias de esportes, empregos, concursos, economia e política.

Crédito: Créditos: Getty Images

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e o primeiro-ministro da China, Li Keqiang, sentaram-se no banco traseiro de uma van da Volkswagen, apertaram os cintos e deram uma volta pela pista de aterrissagem do aeroporto de Berlim em um veículo autônomo, sem motorista.

“Não há nada ver com os próprios olhos aquilo que só ouvimos falar” afirma Merkel após realizar o passeio na van da VW.

Isso foi realizado em julho de 2018, na época foi celebrado o acordo de corporação econômica que até então parecia ilimitada – combinando a indústria automotiva alemão com gigante tecnológica Huawei.

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Um ano e meio depois, a Alemanha está debatendo intensamente sobre a possibilidade de ajudar em desenvolver a sua rede móvel 5G, a próxima geração, junto com a Huawei. Mas com as montadoras Audi e Daimler, que já trabalham em colaboração com a Huawei, pode-se dizer que a China está no controle do acordo.

O que quer que a Alemanha decida moldará suas relações com a China durante vários anos e terá repercussão em todo o continente. Isto é poderoso sinal político de como uma Europa unida ou rachada se comportará na rivalidade comercial entre Washington e Pequim.

A Alemanha, assim como toda a Europa, está sendo pressionada para se afastar da Huawei pelo governo americano, que teme que a empresa chinesa seja uma espécie de cavalo de Tróia do governo da China para espionar ou controlar as redes de comunicação européia e norte-americana. A pressão se mantém mesmo após o acordo comercial assinado pelo presidente dos EUA Donald Trump e a China na ultima quarta-feira (15).

“O Ocidente deve ter uma solução em conjunto para 0 5G porque nós vemos o mundo da mesma maneira” afirma Richard Grenell embaixador dos EUA na Alemanha por e-mail.

No entanto, para Alemanha essa decisão é especialmente difícil. As relações com  governo Trump estão complicadas neste momento com ameaças de impor tarifas para as montadoras alemãs e uma crescente desconfiança que os europeus tem que podem remodelar permanentemente, se romper, uma aliança transatlântica que já foi de ferro.

A China, por outro lado, está empenhada em abrir um caminho para o cenário europeu como um novo ator estratégico e econômico para o continente. Sendo o maior mercado do mundo, os chineses tornaram-se grandes consumidores dos automóveis alemães, principalmente, para carros de luxo.

Esta é uma posição de que a China não tem vergonha nenhuma de esconder.

“Se a Alemanha decidir de expulsar a Huawei do mercado alemão, terá consequências” declarou Wu Ken, embaixador da China na Alemanha no mês passado. “O governo chinês não ficará à toa”.

De acordo com Konstantin von Notz, parlamentar e membro do comitê de assuntos digitais no Parlamento alemão, “os chineses deixaram claro que vão retaliar a Alemanha onde mais dói: a indústria automobilística”.

Durante meses, os parlamentares alemães discutem arduamente sobre excluir a Huawei do processo de licitação. Conforme vai se aproximando o dia da decisão, Merkel se viu presa entre a preocupação das montadoras alemãs, que acompanharam para discutir em Pequim sobre a questão, e a inteligência alemã sobre possíveis espionagens chinesas.

Merkel se reuniu com parlamentares do seu Partido Democrata Cristão com o intuito de debater e encontrar uma saída sobre esta questão. A chanceler alemã é contra a medida de banir Huawei da China.

“Não se trata apenas de empresas individuais, mas de padrões de segurança”, disse a chanceler em novembro. “É sobre a certificação que vamos realizar. Essa deve ser a nossa referência orientadora”.

Mas uma rebelião está se formando na política externa alemã e na comunidade de inteligência – com medo das ameaças americanas em limitar o compartilhamento de informações – e até mesmo entre alguns parlamentares que desejam enviar uma proposta ao Parlamento com critérios de segurança mais rígidos, que de fato, manteriam a Huawei mais longe.

Os críticos de Merkel argumentam que o atual processo de certificação, que exige que as empresas assinem uma promessa de não espionagem, é ineficaz pois depende apenas na confiança.

Na conferência anual do Partido Democrata Cristão, em novembro de 2019, os membros do partido retiraram a Huawei como patrocinadora corporativa e aprovaram uma moção exigindo que somente empresas “que demonstram cumprir claramente os requisitos de segurança” devam licitar. Um requisito essencial seria descartar a interferência do estado.

A moção não disse que era Huawei ou China, mas a indireta era clara.

“De acordo com a lei chinesa, as empresas são obrigadas a cooperar com o Serviço Secreto Chinês”, afirma Norbert Röttgen, legislador conservador que co-escreveu a moção contra a política de Merkel na Huawei. “Quando você lida com a Huawei, também precisa aceitar que pode estar lidando com o Partido Comunista Chinês”.

“As empresas automobilísticas colhem uma grande quantidade de dados pessoais dos motoristas dos seus veículos, e elas enfrentam o risco do público ficar indignado ao encontrar seus dados usados ​​pelo Partido Comunista Chinês”, afirma Grenell, embaixador dos Estados Unidos.

Além dos temores de espionagem e sabotagem, os parlamentares alemães alertam que, se a Alemanha permitir que a Huawei participe do processo de licitação, ela não apenas se alienará a Washington, mas também arriscará uma europeia unida e necessária.

“Nossa única esperança é permanecer como europeus”, disse Röttgen. Este argumento também foi utilizado para  conceder o contrato 5G a empresas europeias como a Nokia ou a Ericsson.

Analistas relatam que a Nokia e a Ericsson, que ganharam contratos em licitação do 5G na Dinamarca e em outros lugares, têm competência em construir a rede 5G, mas isso levaria mais tempo, além de um custo maior – até porque a Huawei tem grande parte participação nas redes existentes na Alemanha. A troca será confusa e cara.

Além disso, dada a escala da nova oferta, se for para a Huawei, a Europa corre o risco de ficar para trás permanentemente segundo o Röttgen.

“Se você deixar a Huawei construir uma grande parte da rede 5G depois de um tempo, não entenderá seu próprio sistema”, relata Röttgen. “Seria uma perda máxima de controle e soberania.”.

“Estrategicamente, é um caso claro”, disse Röttgen.

Para outros, no entanto, dizem que dar a oferta à Huawei pode não ser uma má ideia.

“Se proibirmos a Huawei, a indústria automobilística alemã será expulsa do mercado chinês – e isso em uma situação em que Trump ameaça punir as montadoras alemãs”, afirma Sigmar Gabriel, ex-ministro das Relações Exteriores e vice-chanceler alemão.

“Só porque temos um presidente americano que não gosta de alianças, desistimos de tudo isso”, continua Gabriel. “Por que gostaríamos? Especialmente porque ele faz exatamente o que os chineses fazem e ameaça a indústria automobilística alemã”.

“Veja bem, no ano passado, 28 milhões de carros foram vendidos na China, sendo 7 milhões deles alemães”, acrescentou Wu, embaixador da China na Alemanha, em suas declarações em dezembro, que para os alemães soou como uma ameaça velada.

Assim como as montadoras da Alemanha se tornaram mais dependentes da China, logo elas também se tornaram mais dependentes do governo chinês. As preferências dos consumidores chineses e as políticas do governo chinês determinam quais modelos as montadoras constroem e que tipo de tecnologia elas desenvolver.

A China também se tornou o lugar em que as montadoras alemãs desenvolvem e testam novas tecnologias para os seus veículos, geralmente com a Huawei.

A Audi, unidade de carros de luxo da Volkswagen, anunciou uma “cooperação estratégica” com a Huawei no desenvolvimento de tecnologia de direção autônoma durante a visita de Li a Berlim no ano passado. A Daimler, com 9,9% de ações do investidor chinês Li Shufu, usa a computação de alto desempenho da Huawei. A BMW e outras empresas fazem parceria com a Huawei em pesquisa e desenvolvimento.

Nenhuma empresa de automóveis está mais intimamente ligada à China do que a Volkswagen. A empresa atua na China desde o início dos anos 80, quando o governo comunista começou a se abrir para o Ocidente.

Hoje, a Volkswagen ganha quase metade de sua receita de vendas na China e possui 14% do mercado chinês de automóveis.

“Se nós nos afastássemos da China, um dia depois, 10 mil de nossos 20 mil engenheiros de desenvolvimento na Alemanha estariam sem trabalho” declara Herbert Diess, executivo-chefe da Volkswagen ao jornal Wolfsburger Nachrichten em dezembro.

As montadoras alemãs negam que sua dependência das vendas chinesas as transformou em defensoras dos interesses chineses.

“Não queremos que as negociações políticas se atrapalhem o desenvolvimento de produtos”, disse Bernhard Mattes, presidente da Associação Alemã da Indústria Automotiva, em entrevista em Berlim.

Mas Mattes admite: “Não estamos operando em um espaço livre de política, isso é claro”.

A Huawei entendeu este jogo. A sua sede alemã fica na Baviera, ao lado da BMW, Audi e muitas outras empresas ligadas profundamente com a China. A empresa tem sido uma patrocinadora generosa de todos os principais partidos, incluindo os conservadores que governam a Baviera.

Markus Söder, líder conservador da Baviera, defendeu publicamente o direito de oferta da Huawei, além de atacar os Estados Unidos.

“Dizer antecipadamente que eu descarto isso porque outro parceiro no mundo não gosta é um pouco problemático” afirma Söder.