Moro X Bolsonaro: caso da recriação do ministério não acabou, diz consultoria

Marco Antônio Lopes
Editor. Jornalista desde 1992, trabalhou na revista Playboy, abril.com, revista Homem Vogue, Grandes Guerras, Universo Masculino, jornal Meia Hora (SP e RJ) e no portal R7 (editor em Internacional, Home, Entretenimento, Esportes e Hora 7). Colaborador nas revistas Superinteressante, Nova, Placar e Quatro Rodas. Autor do livro Bruce Lee Definitivo (editora Conrad)

Crédito: Antonio Cruz/ Agência Brasil

A consultoria Traumann, conhecida por suas análises políticas precisas, divulgou nesta sexta (24) um documento que trata do assunto que movimentou o governo esta semana. A recriação do ministério da Segurança Pública, aventada nos últimos dias e depois descartada pelo presidente Jair Bolsonaro, poderia enfraquecer a influência do ministro Sergio Moro.

Os textos da consultoria são elaborados peloO jornalista Thomas Traumann, consultor independente e
autor do livro “O Pior Emprego do Mundo – 14 ministros da Fazenda revelam as decisões que mudaram o Brasil e
mexeram no seu bolso” (Editora Planeta). É colunista do site Poder360 e mantem o podcast Traumann Traduz na Veja.come Spotify.

O episódio da recriação do ministério, que sugere conflito entre o presidente e o ministro, foi analisado pela Traumann. O texto da consultoria explica o cenário: “Por trás das caneladas entre o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça, Sergio Moro, está um dos eixos da sustentação popular ao governo e o seu futuro nas eleições de 2022. Em dois dias, Bolsonaro saiu do anúncio da transferência da Polícia Federal da alçada de Moro para um novo ministério sob a guarda de um velho amigo à ameaça de um possível pedido de demissão do ministro e um recuo público. É ingenuidade achar que o episódio está encerrado.”

A Traumann continua: “Bolsonaro acredita que Moro é candidato a presidente em 2022. Isso significa que não importa o que o ministro ache, diga ou pretenda fazer. Ele será tratado como um eventual adversário. Bolsonaro é uma pessoa binária. Ou você está do lado dele ou você é um inimigo.”

Paranoia

E a consultoria lembra: “Ex-ministros como Gustavo Bebiano, Santos Cruz, o ex-senador Magno Malta, os deputados Joice Hasselmann e delegado Waldir, o senador Major Olímpio foram até meses atrás do núcleo central do bolsonarismo. Hoje são tratados como inimigos e vilipendiados pela milícia bolsonarista nas redes sociais.”

A Traumann dá outro exemplo: “Para ilustrar esse comportamento, a jornalista Thaís Oyama escreveu no livro Tormenta: ‘No tempo em que era deputado em Brasília, se deixava o carro estacionado na rua por muito tempo, ao
voltar se agachava para conferir o chassi do veículo com medo de ser surpreendido por uma bomba. Também receava ser envenenado. Quando chegava ao apartamento que mantinha no Setor Sudoeste, jamais bebia a água de jarras ou garrafas guardadas na geladeira. Por precaução, preferia matar a sede na torneira”.

A psiquiatria tem um nome para isso, paranoia, sentencia a consultoria: “Ou seja, aos ministros é dado o direito de concordância. Se Bolsonaro realmente recriasse o Ministério da Segurança Pública, Moro teria que aceitar ser rebaixado ou sair. Ele indicou que sairia. Como revelou o Estadão, Bolsonaro mudou de ideia depois de receber várias mensagens de apoiadores via WhastApp com a pergunta ‘Vai trocar o Moro pelo Fraga?’, em referência ao ex-deputado Alberto Fraga, seu antigo colega de paraquedismo e favorito para o novo ministério.

Escorregadio

“Lendo as mensagens, o presidente percebeu que, neste momento, a sua base ficaria dividida caso defenestrasse o ex-juiz”, aponta a Traumann. “É sintomático que na negativa que deu nesta sexta-feira (dia 24), na Índia, o presidente foi escorregadio: ‘A chance no momento é zero. Tá bom ou não? Tá bom, né? Não sei amanhã. Na política, tudo muda, mas não há essa intenção de dividir (o Ministério da Justiça)”.