Assessoria de Sergio Moro nega saída do governo, diz ministro Braga Netto

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor

Crédito: Reprodução/Facebook

O ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro, avaliou deixar o cargo ao ser comunicado pelo presidente Jair Bolsonaro que seria feita uma troca na diretoria-geral da Polícia Federal (PF). A mudança teria motivado o ministro, homem forte do governo, a cogitar deixar o governo.

Hoje o cargo da PF está nas mãos de Maurício Valeixo. Nem Moro, nem Valeixo deram qualquer comentário à imprensa.

O ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto, porém, disse, em entrevista coletiva concedida no Palácio do Planalto, que a assessoria de Sergio Moro desmentiu a demissão.

Segundo o jornal Valor Econômico, em post de sua edição online publicado no final de tarde desta quinta (23), Bolsonaro recuou, manteve Valeixo no cargo e Moro decidiu ficar no ministério.

Apesar de declaração de Braga Netto, o governo ainda não confirmou oficialmente se o ministro Moro está mantido no cargo.

Decisão pode ser revertida

A mudança no comando da PF pode ocorrer nos próximos dias, mas, diante do pedido de Moro, Bolsonaro tenta reverter a decisão.

Valeixo, indicado por Moro, não foi avisado oficialmente sobre a troca, informa a edição online do jornal Folha de São Paulo. Ele aguarda o anúncio definitivo do presidente.

De acordo com a Folha, Moro chegou a pedir demissão.

Segundo ao site da revista Veja, Valeixo vinha conversando com Moro sobre a sua saída. Ele sente que a relação com o presidente está desgastada.

Diante do avanço das investigações sobre seus filhos – alvos de investigações sobre corrupção – Bolsonaro quer controlar a PF.

Troca na Saúde e o isolamento social

A possível troca ocorre uma semana após a saída do ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, demitido por discordar de Bolsonaro sobre a estratégia do governo para tentar conter o avanço da pandemia do novo coronavírus.

Mandetta deixou o governo com popularidade em alta, defendendo o isolamento social, estratégia de combate contra  Covid-19 que a maioria da  população concorda em pesquisa publicada pelo Datafolha.

Moro também defende o distanciamento, assim como o ministro da Economia, Paulo Guedes, outro nome forte do governo.

Desgaste de Moro

Não é de hoje que Sergio Moro vem sendo escanteado na cúpula do governo. Tido como provável candidato em 2022 para as eleições presidenciais, e figura forte o suficiente para impedir a reeleição do chefe, Moro identificou grupos dentro da própria PF como responsáveis por tentar desgastá-lo junto ao Palácio do Planalto.

O mesmo vem acontecendo agora, com sondagens de delegados que poderiam tomar seu posto.

Sua popularidade ainda é alta, mas vem se deteriorando desde que abriu mão do papel de figura-chave da Lava-Jato para ser ministro.

Considerado dentro e fora do governo como “herói” no combate à corrupção, Moro aceitou o cargo com o discurso de que teria total autonomia e com status de superministro.

Entretanto, o governo não vem dando respaldo às suas propostas, como as “dez medidas anticorrupção”, já que nem base possui no Congresso Nacional.

O ministro ficou solitário na defesa da permanência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) no Ministério da Justiça. “Não só o órgão foi transferido para o Banco Central como foi demitido o seu presidente, Roberto Leonel, auditor fiscal de carreira que atuou na Lava Jato e foi indicado por Moro para a função”, noticiou o Congresso em Foco.

“Moro também ficou extremamente incomodado com a ida de Bolsonaro à manifestação do domingo passado e com a decisão do presidente de abrir as portas de seu gabinete aos líderes do Centrão”, escreveu Lauro Jardim, em seu blogue em O Globo.

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Bolsonaro quer nome próximo

Segundo as jornalistas Natuza Nery e Andréia Sadi, da GloboNews, “Moro e Bolsonaro conversaram hoje. Segundo relatos obtidos pelo blog, não foi apresentada uma justificativa clara para trocar a direção da Polícia Federal. Quem acompanha as investidas de Bolsonaro desde o ano passado diz que o problema para o presidente não é Valeixo, mas o próprio ministro. E que o presidente quer um diretor-geral próximo à família Bolsonaro”.

“Aliados de Moro avaliam que a saída de Valeixo enfraquece o ministro e significa uma intervenção do presidente na principal corporação de investigação do país”, informam.

A deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), ex-aliada do bolsonarismo, foi ao Twitter para ligar a troca do comando da PF com o avanço das investigações sobre os filhos de Bolsonaro: “Junte as pontas. @jairbolsonaro manda demitir Valeixo, escolhido por Moro depois que: 1- A PF chegou ao centro e aos financiadores das milícias digitais. 2- Bolsonaro negociou o governo com Bob Jefferson e Valdemar. 3 – a corda aperta o pescoço do filho Flávio no caso Queiroz”.

Ela refere-se a Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB e condenado no Mensalão do PT; e Valdemar da Costa Neto (PL-SP), também condenado no escândalo do Mensalão petista.

Moro no STF

Os boatos que circularam em Brasília desde a posse do ex-juiz no ministério é de que ele estaria a caminho do Supremo Tribunal Federal (STF) para a vaga do ministro Celso de Mello.

Sua nomeação sofreu abalos com o caso da Vaza Jato, série de reportagens que mostrou sua suposta parcialidade na Lava-Jato e piorou com as investigações em torno dos possíveis maus-feitos dos filhos do presidente.

Reações

O senador Alessandro Vieira (Cidadania-RS) disse, em sua rede social: “o governo prometido por Bolsonaro acabou. O plano liberal de Guedes e o plano de combate à corrupção de Moro foram derrotados pela pandemia, rachadinhas e pelo casamento com o Centrão. Resta a ignorância boçal de Weintraub e Ernesto. E alguns generais tentando evitar o desastre”.

O deputado federal Marcelo Freixo (Psol-RJ) escrevceu: “depois do silêncio sobre a relação do clã c/ as milícias, depois de fingir que não viu os ataques golpistas de Bolsonaro à democracia, depois de baixar a cabeça p/ as homenagens do chefe a criminosos, depois de tanto rastejar e ser humilhado, Moro resolveu pedir demissão”.

Já a deputadas federal Caroline De Toni (PSL-SC), vice-líder do governo da Câmara, se limitou a desmentir a notícia: “apesar da imprensa tentar desgastar o governo Bolsonaro, ventilando que o Ministro @SF_Moro teria pedido demissão, essa notícia é falsa”.

A deputada federal Bia Kicis (PSL-DF) tuitou não confirmando a demissão, mas aventando a possibilidade de que a troca na PF seja real: “Não há nenhuma confirmação de que o ministro @SF_Moro tenha pedido demissão. Aliás, a informação que tenho é de que isso não ocorreu. Se houver mudanças no comando da PF, o que é possível, esperemos o Presidente @jairbolsonaro e @SF_Moro encontrem um nome de consenso!”.

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