Moro e Bolsonaro usam Twitter para passar recados um ao outro

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor

Crédito: Marcelo Casal Jr. / Agência Brasil

A crise política impulsionada pela demissão do agora ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, saiu dos corredores do poder para ganhar capítulos no Twitter, rede social preferida do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Os dois aliados de outrora agora se acusam e movimentam aliados e desafetos.

Desde a demissão de Moro na sexta-feira (24), que saiu atirando e acusando o ex-chefe de interferência política na Polícia Federal (PF), os dois usam o Twitter para passar reecados um ao outro.

O centro da questão é a demissão do diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, exonerado na sexta-feira.

“O Diretor da PF Maurício Valeixo estava cansado de ser assediado desde agosto do ano passado pelo Presidente para ser substituído. Mas, ontem, não houve qualquer pedido de demissão, nem o decreto de exoneração passou por mim ou me foi informado”, escreveu em sua conta no Twitter o ex-ministro.

Apoio a Moro

No sábado (25), Bolsonaro foi ao Twitter para mostrar que apoiou Moro quando das acusações feitas pelo site The Intercept Brasil, com uma série de vazamentos conhecidos como VazaJato, mostrando que o ex-juiz pudesse ter agido com parcialidade, em conluio com o Ministério Público.

“A VazaJato começou em junho de 2019. Foram vazamentos sistemáticos de conversas de Sérgio Moro com membros do MPF. Buscavam anular processos e acabar com a reputação do ex-juiz. Em julho, PT e PDT pediram prisão dele. Em setembro, cobravam o STF (Supremo Tribunal Federal). Bolsonaro no desfile de 7 de setembro fez isso:”, tuitou, mostrando uma foto abraçando Moro, em apoio.

https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1254024936852766721/photo/1

Em sua defesa, de que não está interferindo na PF, Bolsonaro usou como argumento, na mesma sexta em que o ministro fez a acusação, a lei 13.047 de 2014 e tuitou “Art. 2º-C. O cargo de Diretor-Geral, NOMEADO PELO PRESIDENTE DA REPÚBLICA, é privativo de delegado de Polícia Federal integrante da classe especial”.

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Seus apoiadores passaram a subir a hashtag #MoroTraidor e #FechadoComBolsonaro.

Moro, então, usou o Twitter para se defender da acusação de “ingratidão”: “Sobre reclamação na rede social do Sr.Presidente quanto à suposta ingratidão: também apoiei o PR quando ele foi injustamente atacado. Mas preservar a PF de interferência política é uma questão institucional,de Estado de Direito, e não de relacionamento pessoal”.

Vaga no STF

Moro não só saiu atirando, como deu ao Jornal Nacional (JN), da Rede Globo, prints de conversas suas pelo aplicativo de mensagens Whatsapp, entre ele e o presidente, ocorridas na quinta-feira (23), onde Bolsonaro cobrou mudança no comando da Polícia Federal.

Segundo o portal G1, do Grupo Globo, “o contato é identificado por ‘presidente novíssimo’, indicando ser o número mais recente de Bolsonaro. A imagem mostra que o presidente enviou a Moro o link de uma reportagem do site ‘O Antagonista’ segundo a qual a PF está ‘na cola’ de dez a 12 deputados bolsonaristas”.

“O presidente, então, escreveu: ‘Mais um motivo para a troca’, se referindo à mudança na direção da Polícia Federal”, mostra a reportagem.

Então, surgiram informações de que Moro havia condicionado aceitar a troca de Valeixo caso fosse indicado ao STF.

“O ex-ministro mostrou ao JN a imagem de uma troca de mensagens com a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), aliada de primeira hora de Bolsonaro”, diz a reportagem.

“Na troca de mensagens, Carla Zambelli diz: ‘Por favor, ministro, aceite o Ramage’, numa referência a Alexandre Ramagem, diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Ramagem é um dos candidatos de Jair Bolsonaro para a Direção-Geral da Polícia Federal. E vá em setembro pro STF. Eu me comprometo a ajudar. ‘A fazer JB prometer’, completou”.

No Twitter, a deputada se disse traída por Moro, que foi seu padrinho de casamento e foi para uma rodada de entrevistas na Rádio Jovem Pan e na CNN Brasil, mostrando sua versão, com prints também, dizendo que não poderia influenciar ou indicar o padrinho para qualquer cargo.

Moro, então respondeu: “A permanência do Diretor Geral da PF, Maurício Valeixo, nunca foi utilizada como moeda de troca para minha nomeação para o STF. Aliás, se fosse esse o meu objetivo, teria concordado ontem com a substituição do Diretor Geral da PF”.

Troca de recados

Bolsonaro seguiu se defendendo via Twitter.

Nesse domingo (26), soltou uma mensagem com o vídeo da fala de Susanna Val Moore, presidente do Sindicato dos Policiais Federais em São Paulo, dizendo que “Lamentavelmente o ex-ministro mentiu sobre interferência na PF. Nenhum superintendente foi trocado por mim. Todos foram indicados pelo próprio ministro ou diretor geral. Para mim os bons Policiais estão em todo o Brasil e não apenas em Curitiba, onde trabalhava o então juiz”.

Gabinete do ódio

O ex-ministro Sergio Moro passou a ser alvo de ataques da massa bolsonarista. Foi ao Twitter dar seu recado, parafraseando o slogan do governo “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”: “Tenho visto uma campanha de fake News nas redes sociais e em grupos de whatsapp para me desqualificar. Não me preocupo; já passei por isso durante e depois da Lava Jato. Verdade acima de tudo. Fazer a coisa certa acima de todos”.

A deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), aliada de Bolsonaro de primeira hora, mas rompida com o governo, também alvo do chamado “gabinete do ódio” durante a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre as chamadas “fake news”, usou o Twitter para defender Moro:

“Verdade acima de tudo!!! A máquina de destruir reputações – agora palaciana/miliciana – tem sempre o mesmo modus operandi. Tentam jogar biografias na lama e atingir a família de quem considera desafeto. São convardes. Não conseguirão desta vez”.

O “gabinete do ódio”, como ficou conhecido o núcleo em volta do filho do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos), ficou incomodado com reportagem da Folha de São Paulo que reporta que Bolsonaro teria escolhido para a PF um amigo de Carlos.

“E daí?”, teria perguntado o presidente, enquanto uma foto de Alexandre Ramagem confraternizando com Carlos ilustra a matéria.

Carlos Bolsonaro também foi au Twitter para se explicar: “Já que dizem que uma foto diz muito, espero destes acusadores, que valha para todos:”, mostrando Moro com o agora deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG) e com Joice Hasselmann e Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados e um dos alvos principais da turba bolsonarista.

“Ter uma foto ao lado do Delegado chefe da Segurança do eleito presidente da República: crime, absurdo, influência… mostrar outras fotos: absurdo, fotos antigas, baixo nível, fora bozo, morre praga, mimimi…. tirem suas conclusões!”, escreveu ainda o filho do presidente.

Centrão com Bolsonaro

As peças se movimentaram rápido. Na semana passada, Jair Bolsonaro teve encontros com líderes do chamado Centrão para negociar apoio e cargos.

Esses partidos de direita no espectro ideológico reúne 221 dos 513 deputados federais. É mais do que o suficiente para, por exemplo, impedir um processo de impeachment ou até mesmo uma investigação criminal contra Bolsonaro.

Ao site Congresso em Foco, um líder do Centão, que não se identificou, resumiu como ficou agora a disposição de forças: “Bolsonaro a gente conhece. Quer se dar bem com a velha política debaixo da mesa e bate na velha política em cima da mesa. É o preço, a gente aceita. Do ponto de vista político, é muito melhor negociar com Bolsonaro do que com Mourão. A gente sabe como isso funciona. Ele é general, não chegou lá à toa, tem senso de estratégia, pode endurecer. Para que trocar? Alguém vai tomar mais cargo dele do que de Bolsonaro? Não vai funcionar”.

Fazem parte das conversas o PP, PL, PSD, MDB, Republicanos, PTB, Avante, Solidariedade e PSC.

Ao mesmo site, outra fonte declarou: “Hay gobierno soy a favor. Essa é a situação de hoje. Tirando o pessoal da bancada da segurança e um ou outro mais próximo ao Moro, neste momento parece que a maioria está com o Bolsonaro. Mas isso muda, né? Não sei como vai ser no futuro. Não faço a menor ideia. Semana passada, se colocassem em votação, o impeachment passava”.

O líder do PP, Ciro Nogueira, investigado na Lava Jato, já sinalizou a Rodrigo Maia, segundo o jornalista Lauro Jardim, que não irar trair, nem deixar Maia isolado, “mas avisou que o partido manterá contato direto com o Palácio do Planalto — em outras palavras, não precisa mais do presidente da Câmara para negociar com quem manda”.

Bancada da bala

A Valor Econômico, o deputado federal capitão Augusto Rosa (PL-SP), coordenador da chamada bancada da bala no Congresso, que, em tese, deveria estar alinhada com Sergio Moro, indicou que o grupo fica com Bolsonaro.

“Não houve consenso, permaneceremos da mesma forma. A bancada segue apoiando, mas mantemos a contrariedade pela demissão forçada de Moro”, disse Augusto ao jornal.

De olho em 2022

Enquanto o Centrão busca cargos e, quem sabe, a vaga de Maia, na eleição para presidência da Câmara em fevereiro de 2021, muita gente aposta que Moro sai na frente na disputa pelo cargo de Bolsonaro em 2022.

No turbilhão causado pela saída do ex-juiz da Lava Jato, pesquisa realizada mostra que 65% acreditam nas acusações que Moro fez, contra 35% que não acreditam; e 66% acham Moro um nome forte para o Planalto em 2022.

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