Stuhlberger e Xavier descartam mudanças bruscas, seja com Lula ou Bolsonaro

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução/Money Week

A quarta edição da Money Week teve início nesta segunda-feira (24) com o painel “Mesa dos Gestores: perspectivas para o investidor brasileiro”, que contou com dois nomes de peso do mundo dos investimentos: Luis Stuhlberger, sócio da Verde Asset, e Rogério Xavier, um dos sócios-fundadores da SPX Capital, considerados dois dos maiores gestores do país.

Mediando a conversa, estavam o CEO da EQI, Juliano Custodio, e a curadora do evento, Fabiana Panachão.

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O tema que norteou o debate foi a inflação, que vem preocupando os mercados em todo o mundo atualmente e não é diferente no Brasil.

Segundo Stuhlberger e Xavier, para onde vai a inflação é a “pergunta de 1 trilhão” para a qual todos querem a resposta, mas ela só será conhecida dentro de cerca de seis meses.

“Se o Federal Reserve (Fed, banco central americano) estiver errado, e só vamos saber isso no verão, toda a estrutura de taxa de juros estará errada. Isso vai ter uma consequência sobre os mercados do mundo todo muito significativa”, afirmou Stuhlberger.

Lula 2022 deve ser mais parecido ao de 2002

Outro ponto relevante do debate foi a análise dos gestores sobre a polarização política nas eleições presidenciais de 2022. Os dois gestores demonstraram considerar prejudicial a polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro. Mas que nenhum dos dois cenários seria “trágico”.

Segundo Xavier, o “mercado é cínico”. Para e Stuhlberger, na falta de uma terceira via, o mercado poderá se adaptar tanto ao discurso de que “Lula não foi tão ruim assim” – e que virá candidato em uma versão mais parecida a do primeiro mandato, em 2002 – ou ao discurso que “Bolsonaro será uma continuação do que já está aí”, ancorado em Paulo Guedes.

Luis Stuhlberger

Luis Stuhlberger. Reprodução/Money Week

Money Week: se Fed estiver errado, emergentes são prejudicados

Sobre a inflação, Luis Stuhlberger pondera que o mercado vem, até aqui, corroborando o posicionamento do Fed, que defende que a inflação é transitória e que o mercado de trabalho ainda está muito aquém do desejado na retomada norte-americana e, por isso mesmo, os estímulos ainda se fazem necessários, com juros zero até 2023. Mas, caso a inflação saia de controle, a subida dos juros será inevitável.

“A gente sabe que uma coisa é o banco central falar e a outra é a ação. Já vimos os bancos centrais do Canadá, do Chile, da Austrália, da Hungria e da República Tcheca falarem uma coisa e fazerem outra. Aqui também já aconteceu. Pode ser que a gente esteja diante de um cenário em que a inflação não seja tão transitória assim e isso terá consequências bem interessantes”, diz.

“Se for isso, então a estrutura de curva de juros estaria totalmente errada. E os EUA vão ter que elevar os juros, o que vai puxar a poupança do mundo todo para eles. Vai sobrar menos recurso para as economias emergentes”, explica.

Ainda assim, ele diz, o Brasil tem uma janela de tempo para aproveitar o estímulo monetário e fazer o “dever de casa”.

Xavier complementa que, até aqui, a inflação observada nos Estados Unidos tem sido muito concentrada nos preços dos bens, o que sugere que o tom do Fed pode não estar muito errado.

“Para analisar inflação nos Estados Unidos você tem que observar os preços dos aluguéis subindo. E há, de fato, um início de pressão, mas ainda em termos relativamente fracos”, diz. “O que o mercado está interpretando até aqui é que haverá inflação, depois ela cai e estaciona em um patamar não tão confortável assim para o Fed, mas dentro do previsto”, complementa.

Reprodução/Money Week

Reprodução/Money Week

Money Week: cenário no Brasil, apesar da crise, segue favorável

Já transferindo a análise para o Brasil, os dois gestores concordam que, apesar de toda a crise, o cenário é mais favorável do que desfavorável.

Isto porque a projeção de crescimento do PIB vem melhorando e a relação da dívida-PIB do país, que era de quase 100% no ano passado, agora deve fechar 2021 entre 84% e 85%. No entanto, eles alertam que é preciso dar continuidade à agenda de reformas.

“O Brasil tem um sério problema fiscal, mas tem também um problema estrutural. Se não fizermos nossa lição de casa, podemos ficar de fora da festa pós-pandemia”, afirma Xavier, referindo-se ao crescimento dos países que tende a acontecer com a vacinação e a reabertura.

“Há 8 anos que o PIB real não melhora, mas o mercado acionário e de renda fixa no Brasil têm dado excelentes resultados. Essa é uma equação que não pode ficar assim”, complementa.

Ele cita que o país tem feito muito pouco para melhorar a capacidade de crescimento de maneira sustentável. “Hoje o Brasil praticamente não investe nada. O setor privado fica com medo, ele olha para o estado e vê um gastador”, diz.

“O noticiário do fim de semana é que PIB vai crescer mais do que o esperado no país, graças ao bônus das commodities. Mas as pessoas já estão pensando e como gastar e não em como poupar para quitar as dívidas do país. A equação para o Brasil é muito difícil. As reformas são fundamentais, as privatizações também, mas vejo pouco avanço, apesar do discurso. Parece que as pessoas não têm a noção e o senso de urgência que o país necessita”, finaliza.

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