Money Week: Nobel de Economia, Paul Krugman analisa crise global

Ronaldo Araújo
Engenheiro e Agente Autônomo de Investimentos, hoje me dedico a divulgar ensinamentos sobre como funciona a Previdência Privada. Acredito que com mais conhecimento é possível fazer melhores escolhas para a formação do patrimônio de longo prazo. Para saber mais acesse www.ronaldoaraujo.com.br
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Crédito: Reprodução/Money Week

Paul Krugman nasceu em 1953, um período de relativa calma no cenário econômico – pelo menos nos países mais desenvolvidos.

Sua carreira começou como assistente de pesquisa, trabalhando para William Nordhaus, que mais tarde viria a se torar Nobel de Economia.

Logo em seguida, Krugman entrou para o MIT, Instituto de Tecnologia de Massachusetts, referência na área. Esse período (década de 1970) foi marcado por algumas crises, como a de energia em 1973 e o colapso do sistema de Bretton Woods.

Até então, ele pensava que nunca mais assistiria a uma crise dessa magnitude. Mas a realidade se mostrou diferente, com “o mundo ficando ainda mais louco”, segundo suas próprias palavras.

Paul Krugman é professor de economia da City University e colunista do The New York Times. Na Money Week, ele falou sobre as grandes crises da história, com enfoque sobre a crise vivida mais recentemente, decorrente da Covid-19.

Acompanhe os melhores momentos.

Krugman: tipos de crise que afetam a economia

Crises sempre foram presentes na história da humanidade e “há registros de crises no Egito registrados na Bíblia”, ele aponta.

Segundo Krugman, podemos identificar dois tipos de crise, basicamente. O primeiro deles é causado por eventos trágicos, como cataclismas ou guerras que afetam os meios de produção. Essas seriam as crises de oferta.

As outras são as crises de demanda. Elas ocorrem quando não há capacidade suficiente de absorver a produção existente. Essa é a principal razão pelas grandes retrações econômicas, mas não a única.

A crise mundial de 2008 foi uma crise de oferta, explica Krugman, enquanto que a pandemia foi uma crise de demanda.

Em relação às crises de demanda, existe uma corrente de pensamento que diz que elas não existem, pois sempre haverá alguém produzindo e conseguindo consumir, exatamente por conta desse trabalho executado. No entanto, as crises de demanda estão aí para provar o contrário, ele aponta.

“No final das contas, não existe garantias que existirá dinheiro circulante para consumir o que é produzido. Isso acontece por um simples fato: algumas pessoas retém parte daquilo que ganham e o recurso sai de circulação”, afirma.

Curiosamente, diz Krugman, a solução adotada no mundo moderno foi a de imprimir mais dinheiro. “Logicamente isso aumenta os níveis de inflação, pois com mais dinheiro circulando, menor seu valor e o poder de compra”, traduz.

“Podemos perceber isso por conta da crise imobiliária de 2008, quando os preços se elevaram apenas pela noção de que haveria um novo aumento. No entanto, isso encontrou um teto e sabemos o que houve em seguida”.

Ele diz que parece que muitas vezes esquece-se o que é um banco moderno, que não passa de uma função da sociedade com regulações modernas para modelar o conceito antigo de uma instituição bancária.

Ainda existe o agravante de empresas que atuam como bancos mas não o são, formalmente falando.

Isso pode causar uma grande crise, quando todos os clientes resolvem sacar dinheiro e as instituições não têm recursos suficientes para devolver a todos. E foi exatamente isso que aconteceu em 2008.

Armadilha de liquidez

“A primeira solução que traz a teoria econômica é imprimir mais dinheiro. Mas isso só resolve se for possível baixar as taxas de juros a um nível muito baixo. E nem sempre isso é possível”, ele aponta.

Até mesmo porque armazenar dinheiro tem um custo. É isso que Krugman chama de “armadilha de liquidez”. Existe muito dinheiro no mercado, mas ele está lá parado, sem utilidade.

Até mesmo por isso se esperava uma rápida recuperação da crise de 2008, como foi em 1982. Mas isso não ocorreu.

Na prática, as taxas de juros permaneceram baixas por muito tempo, próximas de zero. E a razão para isso foi porque o mundo desacelerou.

A situação de pleno emprego só foi conseguida graças ao avanço do capital privado com novos investimentos, consequência das baixas taxas de juros.

Foi isso que se chamou de “estagnação secular”. O conceito é antigo e foi apresentado em 1938 por Alton Hanson.

A crise decorrente da pandemia, na visão de Paul Krugman

Aconteceu algo muito parecido com a crise da pandemia. No início, não pensava-se que seria algo tão sério do ponto de vista econômico. Mas acabou sendo.

Houve uma grande interrupção das cadeias produtivas globais, com profundos impactos econômicos negativos. Tudo isso acabou se configurando como uma crise de abastecimento. Principalmente pela cessação de algumas atividades econômicas em particular.

Nesse caso, o que chama atenção foram os desdobramentos econômicos em torno do evento.

Um deles é que vários países conseguiram lidar bem de formas variadas com as complicações trazidas por essa crise.

Enquanto em 2008 as soluções se concentraram em novos marcos regulatórios dos sistemas financeiros dos países, dessa vez outras medidas foram tomadas para que as pessoas se mantivessem durante o período de lockdown.

Exemplos disso foram a expansão do seguro desemprego, com inclusão de pessoas que normalmente não teriam acesso ao benefício. Folgas do trabalho mantendo o recebimento de salário também foram implantadas.

“Comparativamente, foi como se um paciente estivesse sendo dopado para entrar em coma para evitar prejuízos maiores e iniciar sua recuperação”, ele analisa.

Outro ponto de sobressalto foi o rápido desenvolvimento da vacina, com níveis de eficácia consideráveis.

Tudo isso foi uma preparação para a retomada econômica, que já começou, segundo ele.

Ainda há o problema das cadeias de fornecimento a serem resolvidas, mas isso é questão de tempo. Nenhum problema é eterno.

“De fato, o sistema está sobrecarregado pela demanda. Há muitos contêineres sendo descarregados atualmente e os portos estão abarrotados”, afirma.

“Um fato curioso manteve a economia de pé durante a pandemia: se as pessoas não podiam ir para academias, compravam equipamentos. Se não podiam ir a restaurantes, compravam mais comida para casa. Isso manteve o ciclo econômico vivo”, resume.

Os bens duráveis, por exemplo, tiveram aumento de 34% nas vendas em comparação ao período pré-pandemia. Logicamente, a forma de entregar essas mercadorias também mudou, com incrível expansão dos meios digitais e as formas de entrega ao redor do globo.