Money Week: como montar uma carteira de investimentos em cenários de juros altos

Felipe Alves
Jornalista com experiência em reportagem e edição em política, economia, geral e cultura, com passagens pelos principais veículos impressos e online de Santa Catarina: Diário Catarinense, jornal Notícias do Dia (Grupo ND) e Grupo RBS (NSC).
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Crédito: Divulgação

Após anos de juros em queda no Brasil, as taxas voltaram a subir, deixando dúvidas para os investidores. Afinal, que caminho seguir agora? A montagem de uma carteira de investimentos em cenários de juros altos foi tema da Money Week nesta terça-feira (26).

Para debater o assunto foram convidados André Vainer e Renato Mimica, com mediação de Alexandre Assis, head de alocação e multi-ativos da EQI Asset.

André Vainer é bacharel em Economia pela St. John’s University (NY), iniciou sua carreira na área de renda variável da Salomon Smith Barney, na Filadélfia (EUA). Passou pela Gap Asset e XP Gestão de Recursos até fundar a Athena Capital, em 2013.

Renato Mimica é CEO da Exame e sócio do BTG Pactual, onde, ao longo dos últimos dez anos, passou pelas áreas de research (análise de ações) e liderança da equipe de analistas de investimentos do BTG Pactual. Antes do BTG Pactual, Mimica estava em Nova Iorque como analista de ações do Bank of America Merrill Lynch.

Oportunidades em todos os momentos

André Vainer lembrou que juros altos não são uma novidade no Brasil. Pelo contrário, os gestores e investidores foram acostumados a um mundo de juros altos. Mas a dúvida agora permanece: como o investidor deve se comportar diante da escalada da inflação e dos juros?

“Depende muito de como os investidores e gestores se comportaram quando os juros caíram. Quem tem a postura de moldar uma carteira porque os juros estão baixos obviamente tem que rever a carteira hoje. Quem não trabalhava com essa premissa, quem sempre quis trabalhar com premissas conservadoras macroeconômicas, tem muita oportunidade surgindo. A gente não acredita no conceito de comprar ações quando o juro está caindo e vender ações quando o juro está subindo. Há oportunidades em ambos os momentos”, destaca Vainer.

Como ter rendimentos acima da inflação?

O fundador da Athena Capital destaca que procura investir em ativos que são líderes em rentabilidade nos setores que atuam.

“Com a inflação, normalmente os players menos eficientes têm que repassar muito mais preço ao consumidor final para manter a mesma margem. E as empresas mais rentáveis tem que passar menos preço, o que faz com que essas empresas sejam mais protegidas pela inflação”, destaca Vainer.

Assim, se o investidor fundamentalista compra uma empresa em um preço justo, a rentabilidade do seu investimento tende a ser parecida com a capacidade dessa empresa de crescer em geração de caixa e lucro. “Ao longo dos anos é um caminho muitas vezes tortuoso, dependendo da ação, abre-se oportunidades maiores, como hoje. Mas lá na frente a ação vai refletir a capacidade de gerar resultado”, afirma.

Renato Mimica cita que empresas com melhor execução e com vantagem competitiva clara são as mais vantajosas nestes períodos.

Ele cita a Localiza, líder do setor de aluguel de carros que, historicamente, conseguiu repassar para preço em algumas categorias de aluguel questões de custo e, conforme foi tendo vantagens competitivas de escala, conseguiu fazer o contrário e, por meio de descontos, conseguiu crescer ainda mais e ganhar mais market share.

“No curto prazo dá pra gente fazer escolhas táticas, talvez mais cíclicas, mas players como os de commodities e de petróleo têm se beneficiado muito no momento”, destaca Mimica.

Precificação de ativos afetadas

André Vainer chama a atenção para o fato de os juros afetarem a precificação dos ativos. “Uma das variáveis do preço de um ativo é a taxa de desconto. E ela é influenciada pelos juros. Quanto maior os juros, maior sua taxa de desconto e menor o múltiplo justo da empresa”, afirma. Por isso, ele lembra que é importante olhar pela ótica do retorno.

“O que é mais seguro: investir em Cyrella a 2,5x o valor patrimonial dela quando os juros estão baixos ou investir abaixo do valor patrimonial quando os juros estão altos? Na nossa opinião é muito melhor o segundo caso, pois no primeiro você não tem espaço para os juros subirem, você tem que entregar crescimento”, afirma ele.

Valor justo das empresas e suas variáveis

Mimica lembra que o valor justo de uma empresa tem duas grandes variáveis: o fluxo de caixa que essa companhia vai gerar daqui para a frente e a taxa de desconto (que tem correlação direta com taxa de juros).

“Muitas empresas que são consolidadoras e com vantagens competitivas têm os fluxos de caixa pouco impactados pelo cenário de juros. Dado que cenário de juros no médio/longo prazo é volátil, é uma boa oportunidade para investidores de longo prazo se você adicionar os papéis cujos múltiplos estão razoavelmente baixos por uma questão de taxa de desconto. Mas, quando os juros voltarem a cair, esses múltiplos naturalmente vão ser expandidos e com dinâmica de fluxo de caixa saudável para essas empresas”, explica.

Assim, Mimica ressalta que é uma ótima estratégia comprar uma ação que está muito penalizada de um setor que é altamente exposto a juros, mas olhando o longo prazo, de 5-10 anos.

“No entanto, se você quer investimentos mais táticos, olhando para prazos mais curtos, você pode escolher setores que se beneficiam mais da alta de juros no mundo, como o setor de commodities. O setor de energia está batendo recordes. Os papéis no setor de petróleo tem valuations baratos, assim como o setor de bancos”, afirma.