Money Week: professor Gino Olivares analisa o novo ciclo econômico no país

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor

Crédito: Reprodução / Money Week

Gino Olivares é um economista peruano, doutor em economia, professor de macroeconomia no Insper e parceiro na SAGMO Capital. Ele é entrevistado no último dia da Money Week, rodada de entrevistas organizada pela Transformação Digital e pela EuQueroInvestir!, que começou dia 25 e se encerra hoje, dia 29 de novembro. Todo o conteúdo está disponível para apreciação gratuitamente neste link.

Olivares sabe que o passado nos ensina muito. Que é sempre bom saber da onde viemos para saber para onde vamos. Na economia, não é diferente. E o Brasil segue aprendendo com sua história.

Para ele, o país “finalmente tomou a decisão de abrir espaço para o setor privado”, já que, ainda segundo sua ótica, a sociedade brasileira, assim como todas as sociedades latino-americanas, faz, “desde sempre, essa tentativa de se aproximar do Estado – só que a brasileira levou isso quase ao extremo e isso gerou uma consequência econômica”.

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“Vou falar das últimas quatro décadas, mas poderia falar das últimas seis, sete décadas: todos os episódios de expansão estiveram calcados numa participação decisiva do Estado, seja com gasto público, seja com crédito de bancos públicos, subsídios”, ele diz.

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Enfim, a mudança

Entretanto, agora, o professor vê uma clara alteração de comportamento: “O que determina a mudança agora é um fato inegável, o Estado quebrou”. E como o Estado, nas três esferas administrativas, não tem mais dinheiro, “não há mais como continuar com essa forma de crescimento, esse motor não existe mais”.

“A economia, se você a deixa se ajustar, ela vai encontrar a sua forma. Existem duas maneiras de fazer isso: uma organizada, fazendo as reformas; e outra com uma crise, se você não faz as reformas”, ensina. Mas, segundo ele, o Estado iria encolher de qualquer maneira.

O problema é descobrir quando os efeitos da mudança vão ser sentidos no dia a dia. Olivares brinca com isso: “A teoria econômica é útil para dizer para onde vão as coisas, mas nós economistas somos péssimos de timing”.

Vício

O problema no Brasil e em outros países da América Latina é que sempre existiam demandas (“muitas delas legítimas”, segundo o professor) ao Estado. Essas demandas só aumentavam, o Estado ficava sobrecarregado e aumentava impostos, num ciclo de vício para atender a população – normalmente, de forma precária – e tentando tapar os buracos de gastos. O resultado foi uma explosão da dívida em relação ao PIB em cinco anos.

A economia brasileira era, até aqui, “um organismo viciado em gasto público”, diz.

Reinvenção

Agora, sem a presença tão forte do Estado, Olivares diz que “a economia precisa se reinventar”. “Essa reinvenção passa primeiro por desaprender essa condicionalidade de gasto público, e por aprender a crescer de outro forma. Essa forma tem um nome específico: crowd in, que é saída do setor público e entrada do setor privado”.

Inflação

O problema vem com um fato imediato: “A queda do gasto público é recessiva”, argumenta Olivares. “Mas trouxe um efeito colateral da maior importância: finalmente derrubou a inflação. Entendo que no Brasil se fala do Plano Real como uma vitória”, ele segue. “é uma vitória se comparada com a história anterior, mas se você olhar a inflação durante o período do regime de metas, é algo em torno de 6%. Se você olhar países comparáveis com o Brasil, nesse período, é 3%. O Brasil, em termos de inflação, estava melhor que em qualquer momento do passado, mas em comparação com seus pares (os emergentes de forma geral), ainda não tinha chegado”.

E foi a queda da inflação que possibilitou a queda dos juros que o país está experimentando nesse momento — e que está sendo tão comemorada pelo mercado financeiro. “Os juros (nesse novo patamar) são o combustível necessário para que o setor privado comece a funcionar”, lembra ele.

E, assim, o ciclo se fecha: Estado menor, seja por qual motivo, leva a uma inevitável recessão, que derruba a inflação, que derruba os juros e, estando os juros baixos dentro de um processo sustentável – e o professor acredita que seja o caso agora do Brasil – isso se traduz, em algum momento, em melhoria do investimento.

“E é essa melhoria do investimento esperada”, ele conclui, “é que estou chamando de motor novo, o setor privado puxando a economia”.

O professor afirma: “Esse Brasil que está sendo desenhado agora é um Brasil muito mais eficiente”.

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