Money Week: Felipe Miranda avalia que país está “mais barato do que ruim”

Ronaldo Araújo
Engenheiro e Agente Autônomo de Investimentos, hoje me dedico a divulgar ensinamentos sobre como funciona a Previdência Privada. Acredito que com mais conhecimento é possível fazer melhores escolhas para a formação do patrimônio de longo prazo. Para saber mais acesse www.ronaldoaraujo.com.br
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Crédito: Reprodução/Money Week

Felipe Miranda, CEO da Empiricus, participou nesta quarta-feira (12) da Money Week e falou sobre suas expectativas de cenários para 2022. Confira abaixo os principais trechos.

O Brasil é mais preocupante ou mais barato?

“A despeito de discussões políticas, vemos que o Brasil não está muito legal. A renda per capita vem caindo na década, bolsa caindo também, perdendo para a poupança. Enfim, o Brasil não parece estar muito bom”, iniciou o CEO da Empiricus.

Os pontos negativos da economia apontados por ele são: o baixo crescimento, a inflação de 10%, a Selic quase de volta aos dois dígitos, e as discussões sobre a responsabilidade fiscal do governo. Nesse cenário, a expectativa é difícil para o ano.

Já no cenário global, Miranda aponta que a subida iminente de juros nos EUA preocupa o Brasil e pode deixar o cenário ainda mais turvo.

“Em uma visão dual, vemos que o Brasil está barato. Mas não por ter um grande valor intrínseco, mas sim por estar ruim devido a todo esse cenário”, ele avalia.

Citando o ministro da Economia, Paulo Guedes, ele diz que o Brasil é uma espécie de “cercadinho”. Isso quer dizer que ele sempre está cercado de modo que não permita que ele vá para qualquer um dos lados de modo extremo, sempre convergindo para a média.

“Ou seja, se ele o país vai de mal a pior, o ‘cercadinho’ o traz de volta. Assim como, se está em uma boa trajetória, o mesmo cercadinho o traz a uma situação mediana”, acredita.

“Por essa razão, podemos ter um certo otimismo em relação a nosso país, pois se a situação está ruim agora, é sinal que o cercadinho pode entrar em ação”, pondera.

Prêmio de risco brasileiro

Apresentando gráficos, Miranda relembra que a renda per capita do Brasil cresceu até meados de 2010. Desde então, experimentou queda e vem assim até os dias atuais. Enquanto isso, os países desenvolvidos melhoraram, assim como os pares emergentes.

“Se observarmos a bolsa brasileira nesse período de 12 anos, constamos que seu principal índice, o Ibov, incrivelmente perdeu para a poupança (lembrando que esta é isenta de IR para aplicações até R$ 50 mil)”.

“Do ponto de vista da economia moderna, tudo aquilo que tem mais risco deve pagar mais. É o chamado prêmio de risco. No entanto, não é isso que constatamos no Brasil, pelo contrário. A renda fixa tem menos risco, deveria retornar menos. Isso pode ser considerado um dissonância muito grande, podendo ser chamado de ‘tragédia barata'”, complementa.

Ele destaca que o retorno esperado da bolsa brasileira apenas uma vez em toda sua história foi maior do que está atualmente, mesmo sendo um ativo de risco que tem essa característica natural.

No entanto, surge uma dicotomia nesse cenário: está sobrando lucro sobre os preços. Ou seja, os preços atuais deveriam refletir pouco lucro, mas não é o que acontece.

“Há muito lucro para os preços apresentados atualmente. Assim podemos dizer tranquilamente que a bolsa está barata!”, ele diz.

Por isso é preciso uma análise mais cuidadosa, porque ativos muito bons e com uma situação tranquila custam caro. Comprar barato é algo que só se faz quando existe um problema.

“A arte de analisar bem está em discernir se o problema está sub ou supervalorizado pelas manchetes e pelo próprio mercado”, orienta.

Será que é tão ruim assim?

Segundo Felipe Miranda, para acreditar em um cenário apocalíptico, precisaríamos crer que o Brasil não tem mais capacidade de gerir as finanças públicas, e isso não é verdade.

Prova disso, e da força econômica brasileira, é a reversão de um déficit de quase 10% em superávit no ano de 2021.

“Claro que isso não significa que todos os problemas estão resolvidos, mas não deveria também significar que somos o pior país”, ele diz.

A própria dívida pública do país que era de 110% do Produto Interno Bruto (PIB) agora já é de 80%. O gasto público sobre o PIB é o menor desde a redemocratização, além de diversos marcos reformistas, como a previdência, saneamento, gás e ferrovias.

Em termos de investimento, a taxa cresceu para 14% do PIB, e isso é “muito bom”, segundo ele.

“Se analisarmos o passado, os ativos de risco brasileiro sempre tiveram uma forte recuperação após crises profundas. Foi assim em 2008 e 2015. Será que agora será diferente? E os números apontam que o cenário atual não é tão ruim como esses anteriores”, avalia.

Felipe Miranda: não se trata de uma nova versão da economia Dilma

Para Miranda, o país assistiu a atos lamentáveis nos governos Dilma. “Um deles foi a definição do spread bancário na caneta”, relembra.

Outro ponto foi a MP 579 que praticamente destruiu o setor elétrico brasileiro, além da criação da política de preços da Petrobrás, que permanece até hoje.

“Não é isso que vemos hoje, pois o governo de transição e o início do governo atual melhoraram o ambiente de negócios. Ou seja, estamos no mesmo nível de preço das crises anteriores e com um cenário bem melhor”, defende.

Eleições 2022

Um ponto importante que o CEO da Empiricus frisou é que o mercado geralmente não tem medo da continuidade e sim de guinadas bruscas ao desconhecido.

Isso quer dizer que o próprio mercado lidaria com o presidente atual, já que conhece sua política.

Já o que muito se tem falado sobre “terceira via” pode ser um grande avanço para o mercado, segundo Miranda, pois há boa expectativa. O preço de hoje já precifica o “ruim”. Algo “bom” só melhoraria a agenda do mercado.

O risco representado pela figura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também, em sua opinião, não representaria exatamente uma ruptura, dado que já há um histórico como presidente que deu continuidade a uma linha liberal. Em sua opinião, a possibilidade de ter Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo, como vice, também é uma sinalização ao mercado.

Outro ponto favorável, avalia, é a independência do Banco Central, recentemente tornada lei. “Certamente, podemos considerar a independência do Banco Central como um grande destaque, pois já se sabe quem será o banqueiro dos próximos dois anos, independente do presidente eleito”, ele afirma.

Por fim, sempre existe o Congresso Nacional, que tem uma característica própria, que independe do chefe do executivo.

O que fazer em 2022?

Na perspectiva geral, o Brasil está mais barato do que ruim, para Miranda. Assim, a posição que faz sentido é de compra para bolsa nos níveis atuais e de juro real brasileiro longo.

Mas que ninguém se engane: haverá muito susto e volatilidade.

“A paciência e diversificação deve comandar o portfólio de um investimento equilibrado, com a montagem de bons hedges”, recomenda.

Juro longo, bolsa americana, dólar, Ásia, fundos imobiliários, reits e até mesmo um pouco de criptomoedas. Tudo isso deve fazer parte de uma carteira diversificada, de acordo com Miranda.

Em especial, é preciso prestar atenção aos ativos físicos, como ações de boas empresas e Fundos Imobiliários. “Títulos sem lastro real podem sofrer maior manipulação do mercado”, ele alerta.

Enfim, em sua visão, o Brasil não é tão ruim assim. Está com preços de rupturas passadas, mas não há rupturas à vista.

“Lembre-se, não é porque você não vê a saída que ela não existe: ausência de evidência não é evidência de ausência!”, ensina.

Pensando de uma forma mais robusta na formação de patrimônio, com sucessão patrimonial incluída, ele ressalta sua teoria de cinco caixas: imóveis, reserva de emergência (de 3 a 12 meses de gasto), previdência complementar para bancar o acesso ao patrimônio até resolver o inventário, alocação local e alocação internacional cada vez maior conforme a sofisticação.