Minério derrapa e vive “momento binário”, com mercado de olho no caso da Evergrande

José Azevedo
Jornalista especializado em economia.
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Crédito: CSN/Divulgação

O minério de ferro, recentemente, sofreu grandes baixas. Essa commodity foi impactada, principalmente, pela sinalização de desaceleração da economia chinesa e também pelo caso da Evergrande, a segunda maior companhia imobiliária do mesmo país asiático, que ameaça falir. 

“Embora o comércio de minério tenha estado sob pressão de venda e a China tenha emitido sinais preocupantes há meses, fomos surpreendidos com o nível de deterioração das expectativas nos últimos dias”, abrem os analistas Leonardo Correa e Caio Greiner do BTG Pactual em relatório. 

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Segundo eles, o desempenho dessa commodity, que impacta diretamente em ações como a da Vale (VALE3) e da CSN (CSNA3), está refém do desenrolar da trama da Evergrande. “Ficamos surpresos com o nível de inação dos legisladores chineses apresentado até agora, já que o segmento imobiliário parece ser ‘to big to fall’”, afirmam. 

O mercado imobiliário representa, eles lembram, cerca de 20% do produto interno bruto do país asiático, o que torna difícil, para eles, a não intervenção das autoridades do Partido Comunista. “Dados esses grandes números e o risco de transbordamento (sistêmico), é difícil imaginar que os formuladores de políticas vão esperar o pior… Mas o tempo está passando”, comentam. 

Nessa semana, porém, surgiram boatos de que o governo da China não pretende resgatar a companhia e que teria alertado autoridades locais para se prepararem para o colapso – nesta quinta-feira (23), a companhia deixou, inclusive, de honrar uma das suas dívidas. “Se a história serve de guia, as autoridades chinesas deveriam administrar as coisas para evitar uma crise total, mas ainda há várias dúvidas sobre o momento e a magnitude dessa interferência e se ela vai acontecer”, concluem.

Apesar do risco sistêmico para a construção civil chinesa, os analistas do BTG apontam que, até agora, nada de grave foi notado nos índices que têm correlação com a commodity no país. Os estoques de minério não aumentaram muito, estando em 130 mega toneladas, número apenas 3% maior do que o registrado no mesmo período do ano passado – o que sinaliza que a demanda no país ainda estaria aquecida. 

Os estoques de aço, derivados do minério, chegaram a, inclusive, recuar, com preços avançando levemente.

Índices da macroeconomia chinesa mantém o sinal amarelo aceso: a indústria e a infraestrutura ainda avançaram no último mês, mas o setor imobiliário e a venda de automóveis recuaram. 

Com tudo isso, o futuro do minério é muito incerto. “O momento é depressivo e binário”, afirmam os analistas do BTG Pactual. 

Daniel Sasson, do Itaú BBA, em entrevista ao jornal Valor Econômico, disse que há chances de que os preços das commodities metálicas sofram uma correção maior no futuro, justamente por conta da desaceleração da economia chinesa. “De maneira geral, o mercado pode revisar para baixo de algumas outras commodities”, disse.

A Moodys, em relatório, foi no mesmo caminho, mas, ao contrário de acreditar na depreciação, afirmou que o esperado é que o minério de ferro não recue tanto, mas sim fique próximo ao seus níveis históricos, no intervalo de US$ 70 a US$ 80. 

Não é apenas minério que é impactado pela desaceleração da China

A China é o principal importador de commodities do mundo. Além do minério, o gigante asiático também é um grande comprador de produtos agrícolas – que também ameaçam sangrar. 

“Esperamos que os preços das commodities agrícolas derrapem cerca de 25% em relação aos atuais níveis de preços até 2024. Só em 2022 a derrocada pode chegar a 20%”, enfatizam os especialistas Leandro Fontanesi, do Bradesco BBI, e Ricardo França, da Ágora Investimentos.

Além da desaceleração da China, o preço do petróleo, que vem subindo, é outro fator que pesa nas commodities agrícolas – pois gera problemas logísticos. 

O furacão Ida, que atingiu o Golfo do México, interrompeu a produção de petróleo no último mês e elevou o preço dessa commodity ao maior nível desde 2018. Além disso, a chegada do inverno hemisfério norte também tende a elevar o preço dos combustíveis fósseis, com o aumento do consumo de energia elétrica.

A OPEP ainda manteve, em sua última reunião, uma alta da produção que foi vista, por alguns, como “insuficiente” para abaixar os preços atuais. 

O petróleo, para analistas, tem então um cenário mais “limpo a sua frente” – com as perspectivas ficando, majoritariamente, em uma crença de tendência de estabilidade ou de alta. O minério, por outro lado, é uma incógnita – mas com uma visão mais negativa.

 

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