Microsoft está negociando a aquisição das operações do TikTok nos EUA

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor
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Crédito: Reprodução / TikTok

Enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está prestes a banir o aplicativo e rede social TikTok do país, a partir de um ato do executivo, o equivalente à nossa Medida Provisória, a Microsoft, segundo a Reuters e a CNBC, estaria se movimentando para comprar as operações do aplicativo apenas nos EUA.

O valor do negócio gira em torno de US$ 50 bilhões.

“No que diz respeito ao TikTok, estamos banindo-os dos Estados Unidos”, disse Trump, em conferência virtual de imprensa.

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“Eu tenho essa autoridade. Eu posso fazer isso com uma ordem executiva”, afirmou.

Trump alega que o aplicativo da chinesa ByteDance estaria sendo usado “para espionagem”.

No início deste mês, o secretário de Estado Mike Pompeo disse que os EUA estavam pensando em proibir o TikTok e outros aplicativos de mídia social chineses, citando preocupações de segurança nacional.

Pompeo acrescentou que o governo está avaliando empresas semelhantes de tecnologia chinesas, como Huawei e ZTE, que ele descreveu anteriormente como “cavalos de Tróia para a inteligência chinesa”.

Resposta da ByteDance

Primeiramente, um porta-voz do TikTok disse à NBC News que o aplicativo ajudou a criar empregos nos EUA e está comprometido com a privacidade do usuário.

Embora esse comprometimento seja meio como uma resposta-padrão, não é bem isso que a história recente das redes sociais tem mostrado.

“Contratamos quase mil pessoas apenas para nossa equipe nos EUA este ano e estamos orgulhosos de contratar outros 10 mil funcionários para grandes empregos nos EUA”, seguiu o porta-voz em comunicado. “Nosso fundo de criadores de US$ 1 bilhão apoia tiktokers americanos que estão criando meios de subsistência a partir de nossa plataforma”.

Entretanto, a resposta mais direta a Trump veio no ponto-chave da questão: “os dados do usuário norte-americano do TikTok são armazenados nos EUA, com controles rigorosos sobre o acesso dos funcionários”, afirma o comunicado.

Ou seja, não há, como alega Trump, envio de dados para a China.

“Os maiores investidores do TikTok vêm dos EUA”, segue o comunicado. “Temos o compromisso de proteger a privacidade e a segurança de nossos usuários, enquanto continuamos trabalhando para trazer alegria às famílias e carreiras significativas para aqueles que criam em nossa plataforma”.

O aplicativo tem 100 milhões de usuários nos Estados Unidos (pouco menos de um terço da população) e é também muito popular entre os jovens brasileiros.

Microsoft e TikTok

A movimentação da Microsoft de comprar a operação norte-americana da ByteDance “não faz muito sentido”, segundo a CNBC.

A empresa fundada por Bill Gates tem focado em plataformas corporativas e sua avaliação de mercado aumentou para mais de US$ 1,5 trilhão por causa disso.

Contudo, segundo analisa a própria CNBC, “a Microsoft deve absolutamente tentar adquirir o negócio TikTok nos EUA. Qualquer empresa com os meios para fazê-lo deve”.

Simplesmente porque é um ótimo negócio.

O TikTok está bem posicionado para explodir no ponto de vista de avaliação de mercado.

Está começando agora a monetizar seu grande público com anúncios em vídeo curtos (exatamente nos moldes do aplicativo, o que é uma tarefa bastante desafiadora para os publicitários), direcionados para um público mais jovem que pula ou paga para ignorar os comerciais de TV tradicionais.

Ou seja, o TikTok está prestes a decolar financeiramente.

Há evidências de que as redes sociais globais populares que podem monetizar a publicidade têm grandes possibilidades de crescimento.

O que está sendo discutido entre a Microsoft e o TikTok envolve a venda apenas das operações nos EUA.

O restante do TikTok ainda seria de propriedade da ByteDance.

“Embora não comentemos rumores ou especulações, estamos confiantes no sucesso a longo prazo do TikTok”, disse a empresa chinesa em comunicado na sexta-feira.

Mudança de foco

A análise é que se a Microsoft realmente comprar a operação nos Estados Unidos, haverá um pequeno desvio de foco da empresa.

Trump disse a repórteres que não apoiava o acordo.

Uma aquisição da TikTok poderia tornar a Microsoft, uma importante fornecedora de software de negócios, mais concentrada na tecnologia do consumidor, da qual a empresa se afastou um pouco nos últimos anos, saindo dos mercados de hardware para smartphone, fitness e e-book.

Amy Hood, diretora financeira da Microsoft, disse em 2018 que nos últimos anos a companhia havia sido consistente em sua estratégia de adquirir “ativos em rede” com muitos usuários, incluindo o LinkedIn.

Contudo, não há dúvidas de que a força da empresa está mesmo no mercado corporativo, onde não encontra concorrentes à altura.

Há um outro argumento, para o mercado, de que não seria um bom negócio pro TikTok: a Microsoft pode estragar o TikTok.

Ela tem um histórico de fracasso nas aquisições voltadas para o consumidor, como Skype e Mixer.

O TikTok

Talvez você não use o TikTok. Mas certamente seus filhos usam. E os amigos deles. E os amigos dos amigos deles.

A ByteDance lançou o TikTok em 2017, mas o aplicativo surgiu um ano antes, com o nome de Douyin.

O TikTok se tornou mais popular durante a pandemia de coronavírus, com 2 bilhões de downloads em abril.

Os concorrentes diretos incluem o Facebook e o Snap, além do Twitter, com a recém criada ferramenta Fleet, e do Instagram, com o Reels.

Entretanto, pela agilidade e ferramentas para expor criatividade, nada é como o TikTok, uma plataforma para vídeos curtos, com muitas opções de edição.

Hoje é a quarta maior rede social em termos de usuários, com 1,5 bilhão de usuários mensais. No brasil, ainda são apenas 7 milhões, o que mostra o tremendo potencial de crescimento.

Guerra comercial e eleições

Em 2018, o Pentágono interrompeu as vendas de telefones e modems Huawei e ZTE em bases militares em todo o mundo, citando novamente questões de segurança nacional.

Segundo a lógica trumpista, os aplicativos e aparelhos com tecnologia chinesa roubariam dados e informações sigilosas do usuário, seja individual, corporativo, estatal ou militar.

As autoridades dos EUA reclamam há muito tempo que o roubo chinês de propriedade intelectual custou à economia bilhões de dólares em receita e milhares de empregos e ameaça a segurança nacional.

Entretanto, Pequim sustenta que não se envolve em roubo de propriedade intelectual.

A decisão do governo Trump representa outro passo na deterioração das relações entre Washington e Pequim e ocorre uma semana após os EUA fecharem o consulado chinês em Houston, levando a China a fechar o consulado americano em Chengdu.

O Pentágono tomou medidas concretas para desencorajar os membros dos serviços americanos e suas famílias a usarem a tecnologia apoiada pela China.

Alguns analistas dizem que a preocupação do governo Trump é compreensível, mas não se explica só na questão de “segurança de dados”.

Há ainda o fator “eleição”.

Em novembro, Trump disputa a manutenção no cargo com o democrata Joe Biden, que até aqui vem consolidando a liderança nas pesquisas.

Trump, na guerra comercial, política e ideológica com a China, pode estar apelando pro nacionalismo do norte-americano médio. Isso rende votos num país onde a auto-estima da classe média está sempre abalada.

É exatamente o que acontece no Brasil sob o domínio de Jair Bolsonaro.

Teria Trump coragem de bater de frente com a Microsoft, uma gigante norte-americana na essência, se ela comrpasse o TikTok?