Meta de inflação: entenda a importância para a economia

Cristiane Donini
Socióloga, pesquisadora na área de Economia Comportamental e Psicologia Econômica.
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Crédito: Reprodução / Canva

A alta da inflação tem sido tema recorrente. Consequentemente, a meta de inflação tem causado debates acalorados. Isso porque o descolamento do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) do teto da meta (5,25%) começou em março. Desde então, não houve recuo.

O Boletim Focus, divulgado no dia 20 de setembro pelo Banco Central, elevou as projeções de inflação para 8,35% e Selic para 8,25% em 2021.

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Para o mercado, não há perspectivas de que a inflação retorne aos patamares próximos da meta ainda em 2021.

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Meta de inflação

Importância da meta de inflação na política monetária

Manter a inflação baixa é fundamental para garantir estabilidade econômica. Quando há previsibilidade, as famílias e as empresas podem planejar melhor seus gastos e investimentos e a confiança na economia aumenta. Desta forma, o sistema financeiro torna-se mais competitivo, fomentando o desenvolvimento sustentável do país.

O regime de metas também garante maior transparência e responsabilidade aos agentes econômicos. A divulgação das atas do Copom e o Relatório de Inflação elucidam quanto à visão do Banco Central e as medidas tomadas para o controle da inflação.

Inflação fora da meta: quais os riscos?

Como se sabe, a inflação é o aumento generalizado de preços. No entanto, ela é considerada normal se estiver dentro da meta estabelecida.

Quando isso acontece, significa que a inflação está controlada e o dinheiro está circulando, garantindo crescimento econômico sustentável, sem corroer o poder de compra da população.

Se a inflação ultrapassar os patamares definidos para a meta, ocorre um descompasso entre o aumento de preços e o poder de compra.

Neste caso, um dos instrumentos da política monetária do Banco Central para reduzir a inflação, é a elevação da taxa Selic (taxa básica de juros da economia).

Com isso, empréstimos e financiamentos ficam mais caros, tanto para pessoas físicas quanto jurídicas, desestimulando o consumo.

O efeito da medida é a queda da inflação, possibilitando que esta volte gradativamente a convergir para a meta. Contudo, trata-se de um remédio amargo. A redução do consumo causa estagnação da economia e queda nos níveis de produção e emprego.

Essa queda, entretanto, também precisa ser controlada. Se a inflação ficar muito abaixo da meta por um período prolongado, há o risco de deflação, que também é ruim para a economia do país.

Meta de inflação: como funciona?

Desde 1999, o Banco Central utiliza o regime de metas. Trata-se de um conjunto de procedimentos que visam garantir a estabilidade dos preços e o poder de compra da população.

Além de manter a inflação no nível desejado, promovendo equilíbrio das expectativas do mercado, o regime traz mais transparência quanto à política monetária.

A meta é o balizador do que seria a inflação considerada normal, com o IPCA variando dentro de uma faixa aceitável, de acordo com o cenário nacional e mundial.

Quem define a meta de inflação

O Conselho Monetário Nacional (CMN) é responsável pela definição da meta nos próximos três anos-calendário. Esse tempo visa dar melhor capacidade de planejamento, tanto para empresas quanto para governo e consumidores.

A meta refere-se à inflação acumulada do ano. Há um intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima (teto da meta) e para baixo (piso). Em 2021, por exemplo, o centro da meta é de 3,75%. O intervalo pode variar entre 2,25% (piso) e 5,25% (teto).

O papel do Banco Central

Cabe ao Banco Central (BC) executar as políticas monetárias e adotar as medidas necessárias para que a meta seja alcançada.

Para isso, o BC utiliza mecanismos de controle da taxa de juros (SELIC), da base monetária (soma do dinheiro em circulação mais as reservas que os bancos comerciais mantêm no Banco Central) e da taxa de câmbio.

Se, mesmo adotando todas as medidas de controle, ao final do ano a inflação ficar fora da meta, cabe ao presidente do Banco Central detalhar, ao Ministro da Fazenda e ao presidente do CMN, as causas do descumprimento da meta, e respectivas providências e prazos para que estas surtam efeito.

Histórico da meta x IPCA

Desde 1999, quando o governo adotou o regime de metas, a inflação tem ficado dentro do intervalo de tolerância na maioria dos anos.

O teto da meta de inflação foi ultrapassado quatro vezes: em 2001, 2002, 2003 e 2015. Em 2017 foi a única vez desde o início do sistema, em que a inflação furou o piso da meta, ficando abaixo do esperado.

Meta de inflação

Projeções 2021 e 2022

Os esforços do Banco Central para conter a inflação resultou em cinco altas consecutivas da taxa Selic. A última foi divulgada nesta semana, quando o Copom elevou a taxa de 5,25% para 6,25%, num movimento que já era previsto pelo mercado.

Fatores como alta do dólar, preços das commodities no mercado internacional e a crise hídrica brasileira (a maior dos últimos 91 anos) tem ocasionado sucessivos aumentos nos preços dos alimentos, combustíveis e, principalmente, energia elétrica, pressionando a inflação.

O IPCA dos últimos 12 meses, acumula, até agosto, alta de 9,68% e de acordo com o último Boletim Focus, a previsão é de que o índice fique em torno de 8,35% em 2021. Número bem superior ao centro da meta, que é de 3,75%.

O relatório também subiu mais uma vez a projeção da taxa Selic para 8,25%. A previsão da semana anterior era de 8,00%.

Para 2022, os analistas estão projetando inflação de 4,10% e taxa Selic de 8,50% ao ano. Há um mês atrás, a projeção era de 8,00%.

De forma geral, a percepção é de que o BC está focado em conter o avanço de preços. A partir daí, orienta suas ações à manutenção da meta de inflação de 2022. Esta ficou em 3,5%.

Como há um gap entre a decisão do Copom e seus reflexos na economia, o consenso de mercado é de que as medidas tomadas agora só surtirão efeito a partir do próximo ano.

As consequências de tudo isso incidem sobre o Produto Interno Bruto (PIB). A previsão para 2021 foi mantida em 5,04%. Mas, para 2022 foi revisada para baixo, de 1,72% para 1,63%.