Marcel Telles e Beto Sicupira: como eles ficaram bilionários

Vitória Greve
Colaborador do Torcedores
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Crédito: Reprodução

Beto Sicupira e Marcel Telles construíram, ao lado de Jorge Paulo Lemann, uma das sociedades mais bem-sucedidas do País e do mundo. Os três começaram a trabalhar juntos no Banco Garantia, comprado por Lemann na década de 70. E hoje figuram lado a lado entre os maiores bilionários brasileiros. 

Marcel Telles, aos 70 anos, é quarto brasileiro mais rico do país. Seu patrimônio é avaliado em US$ 6,5 bilhões segundo o ranking da revista Forbes atualizado em  julho de 2020 .

Na sequência, está Já Beto Sicupira, de 72 anos, com uma fortuna de US$ 4,8 bilhões. 

Telles e Sicupira são sócios de empresas globais como a AB Inbev, a Kraft-Heinz e o Burger King, que juntas valem mais de US$ 150 bilhões.

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Beto Sicupira

O carioca Carlos Alberto Sicupira é formado em administração pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Seu pai era funcionário do Banco do Brasil e sua mãe dona de casa. 

Na adolescência, vendia carros usados com um amigo e depois calças jeans que comprava nos Estados Unidos. Aos 17 anos, pediu emancipação para adquirir uma corretora de valores.

Na faculdade, largou o negócio e foi se dedicar ao serviço público, mas não chegou a ficar dois anos. “Era muita burocracia”, segundo ele. 

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Sicupira também trabalhou no Marine Midland Bank, em Londres. 

Apaixonado pelo mar, é um praticante de pesca submarina. Ganhou quatro recordes mundiais e seis brasileiros na caça debaixo d’água. Seu sonho, quando pequeno, era trabalhar na marinha, o que nunca se concretizou. 

Foi a pesca submarina que o aproximou de Jorge Paulo Lemann,  também adepto da modalidade.  

Ao voltar da Inglaterra, em 1973, Sicupira foi chamado por Lemann para trabalhar no Banco Garantia.  Sem nem saber quanto ia ganhar de salário, aceitou a proposta. 

Beto Sicupira pratica a pesca submarina. Foto: Confederação Brasileira de Caça Submarina (CBCS)

Marcel Telles

Marcel Herrmann Telles também nasceu no Rio de Janeiro. Estudou economia na UFRJ, e é filho de um piloto de avião e de uma dona de casa. 

Ele começou a vida profissional de baixo. Conferia boletos, da meia noite às seis, na corretora Marcelo Leite Barbosa – na época, a maior do país. Foi contratado para trabalhar no Garantia aos 22 anos. Sua função era levar de um lado para o outro os papéis negociados.

Poucas semanas depois, no entanto, Telles já estava na área técnica da corretora.

Banco Garantia 

Jorge Paulo Lemann comprou o Banco Garantia em 1971. Ele queria ter sua própria corretora, para tocá-la do seu jeito, fazendo com que todos se sentissem donos do negócio. 

Os salários eram baixos, mas os funcionários podiam ganhar bônus se batessem as metas. Os melhores tinham a chance de se tornarem sócios. Foi exatamente isso o que aconteceu com Beto Sicupira e Marcel Telles.

Eles ganharam a confiança de Lemann, subiram rapidamente de cargo, viraram amigos, e sócios inseparáveis.

No escritório do Garantia, todos trabalhavam juntos, em um grande salão, e se vestiam de forma despojada – o que não era comum no mercado financeiro na década de 70. 

Marcel Telles era o boa praça, já Sicupira não tem fama de ser um sujeito amigável no trabalho. É descrito pelos colegas como trator, dono da verdade, rolo compressor. 

A cultura meritocrática (e competitiva) do Garantia virou a marca registrada de Lemann, Telles e Sicupira nos outros empreendimentos que foram adquirindo. 

A venda do banco

Em 1994, o Garantia registrou lucro recorde, e chegou a ser o maior banco de investimentos do Brasil. Três anos depois, no entanto, quase quebrou. Com a crise asiática, perderam US$ 110 milhões e a credibilidade.

A solução que o trio encontrou foi vender o Banco por US$ 675 milhões para o Credit Suisse em junho de 1998.

Nessa época, Sicupira estava tocando a gestão das Lojas Americanas, Telles estava na Brahma e Lemann estava se recuperando de um infarto.

Dizem que se Marcel Telles estivesse no comando da mesa de operações isso não teria acontecido. 

Lojas Americanas 

As Lojas Americanas foram fundadas em 1929, em Niterói, por um grupo de americanos. Mas nos anos 80 os fundadores já não estavam de olho na empresa, e Lemann ficou interessado. 

O Garantia começou a comprar papéis da companhia e em 1981 já tinha participação suficiente para indicar um conselheiro. Beto Sicupira foi incumbido de tocar o negócio. 

Ele já começou cancelando a construção de uma nova sede na Barra da Tijuca que teria até quadra de tênis. Cortou custos, e demitiu boa parte do time – ficando apenas com os melhores. Cerca de 6,5 mil pessoas foram mandadas embora.

Também implementou um novo sistema de remuneração variável. Até então, os bônus eram distribuídos mesmo quando o desempenho piorava.  

Sicupira assumiu as Lojas Americanas ganhando 10% do salário que recebia no Banco, mas tinha a missão de virar o jogo. E conseguiu. Em um semestre, a empresa valia mais do que na data da aquisição pelo Garantia. 

O trio comprou 70% das Lojas Americanas por US$ 24 milhões. Seis meses depois, investidores fizeram uma oferta de US$ 20 milhões por 20% da companhia.

GP Investimentos

Em 1993 Beto Sicupira deixou a Americanas e voltou para o Garantia já com uma outra missão: criar o primeiro fundo de private equity do País. Batizado de GP Investimentos, o novo negócio consistia em comprar empresas em dificuldade, reestruturá-las e vendê-las com lucro. 

Um dos casos de sucesso do GP foi a concessão da Rede Ferroviária Federal, que viria a se tornar ALL. Em dez anos, a ALL se tornou a maior operadora logística de trens da América Latina.

Compraram também a Artex, empresa têxtil de Santa Catarina, mas nesse caso o negócio azedou. Houve um desentendimento com a Coteminas, sócia na Artex, a briga foi parar na Justiça e o trio acabou perdendo dinheiro.

O fundo comprava empresas de diversos setores e isso passou a incomodar Lemann, que preferia manter um foco.  

Mais tarde, os três decidiram deixar o GP nas mãos dos sócios mais jovens para concentrar esforços em negócios mais promissores.

Brahma 

Foi também ideia de Lemann de comprar a Brahma, em 1989. “País tropical, clima quente, marca boa, população jovem e má administração… Pô, tem tudo pra gente transformar numa coisa grande”, dizia.  

Naquela época, Marcel Telles estava há 18 anos no Garantia e havia concluído um curso em Harvard (Owner / President Management Program). Ele foi nomeado executivo-chefe da cervejaria. 

Ao assumir a empresa, abriu mão do bônus que recebia no banco. Assim como Sicupira havia feito nas Lojas Americanas, Telles revirou a Brahma de cabeça pra baixo.

Cortou os carros cedidos aos diretores, acabou com o restaurante executivo, com as secretárias particulares e com as vagas exclusivas no estacionamento. Em três meses, 2,5 mil, dos 20 mil funcionários, deixaram a companhia. Inspirado na General Eletric, dizia que todo ano era preciso demitir 10% da equipe.

Logo no primeiro ano criou o programa de trainee da cervejaria – hoje um dos mais disputados do país. 

Dois anos depois da aquisição, a Brahma foi eleita pela revista Exame como a Empresa do Ano. E dez anos depois a companhia, que havia custado US$ 60 milhões ao banco, valia R$ 3,7 bilhões. 

Ambev

Em 1999, um anó após a sensação de fracasso com a venda do Garantia, Lemann, Sicupira e Telles, fecharam a compra da cervejaria Antarctica. A aquisição deu origem à American Beverage Company (Ambev). A cultura da Brahma prevaleceu na nova empresa.

Nos anos seguintes, a Ambev seguiu fazendo aquisições. Comprou a paraguaia Cerveceria Nacional, em 2001, e a argentina Quilmes, em 2002.

Em 2004, a Ambev anunciou a fusão com a belga Interbrew, fabricante da Stella Artois. Quatro anos se passaram, e a então InBev comprou a americana Anheuser-Busch, dona da marca Budweiser.

A última aquisição do grupo se deu em 2015, com a compra da concorrente sul-africana SABMiller. Esta última aquisição, no entanto, fez dobrar a dívida da gigante global de cervejas.

Marcel Telles, bilionário brasileiro

Marcel Telles revolucionou a Brahma Foto: Reprodução / Youtube

Todos os três são conhecidos por entrarem de cabeça no trabalho. Marcel Telles, por exemplo, se tornava quase um fanático pelas marcas que controlava. Beber Coca-Cola? Nem pensar. 

No ano passado, Telles deixou o conselho de administração da Ambev, mas segue como conselheiro da AB Inbev e da Kraft Heinz

3G Capital 

Em 2004, os sócios venderam a sua participação na GP para os sócios mais jovens e iniciaram uma nova empreitada. Criaram a 3G Capital, uma empresa de investimentos que tinha como objetivo aplicar parte do patrimônio em companhias norte americanas.

O fundo comprou o Burger King, a fabricante de condimentos Heinz, e em 2015, em sociedade com o megainvestidor Warren Buffett, os brasileiros compraram a Kraft.

No momento, os brasileiros têm sido alvo de críticas por não terem conseguido a mesma eficiência na Kraft-Heinz e pela lentidão em adaptar as empresas do grupo aos novos hábitos dos consumidores. 

Filhos

Os três instituíram uma regra desde o início de que os filhos não poderiam trabalhar como executivos nas empresas da família. Teriam direito, se quisessem, à experiência como trainees.

Marcel Telles tem dois filhos, Max e Christian. Max é trainee na AB Inbev. Christian já foi trainee da Ambev, também já passou uns meses no 3G, e agora se dedica a suas startups.

Beto Sicupira tem três filhas, Cecília, Heloísa e Helena. Cecília assumiu o lugar de Sicupira no conselho de administração da Ambev. Ela também é conselheira na AB Inbev. Heloísa está no conselho da São Carlos. A única que não se interessou pelos negócios foi Helena Sicupira, que é estilista e dona da marca Etoiles.

Filantropia

Desde 1999, Telles mantém uma ONG, a Ismart. A organização fornece bolsas de estudo para estudantes de baixa renda em escolas particulares.

Beto Sicupira também destina parte de sua fortuna a iniciativas sociais. Ele trouxe para o Brasil a Endeavor, uma organização que apoia o empreendedorismo. Também está por trás da Fundação Brava, uma ONG que apoia projetos de gestão no setor público. 

Beto Sicupira trouxe para o Brasil a Endeavor, uma organização que apoia o empreendedorismo.

(Edição de Naiana Oscar)