Após conflito com Bolsonaro, Mandetta é demitido e deixa o ministério da Saúde

Paulo Amaral
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Crédito: Divulgação/PR

Luiz Henrique Mandetta não é mais o Ministro da Saúde. A entrevista dada ao Fantástico, da Rede Globo, no último domingo (12), foi a gota d’água na já abalada relação com o presidente Jair Bolsonaro e, nesta quinta-feira, sua exoneração do cargo foi confirmada.

O oncologista Nelson Teich vai substituir Mandetta na pasta da Saúde. Ele aceitou o convite feito pelo presidente Bolsonaro.

Mandetta confirmou, via Twitter, após se reunir com Bolsonaro no Palácio do Planalto, sua exoneração do cargo.

 

“Acabo de ouvir do presidente Jair Bolsonaro o aviso da minha demissão do Ministério da Saúde. Quero agradecer a oportunidade que me foi dada, de ser gerente do nosso SUS, de por de pé o projeto de melhoria da saúde dos brasileiros e de planejar o enfrentamento da pandemia do coronavírus, o grande desafio que o nosso sistema de saúde está por enfrentar”, tuitou.

“Agradeço à toda a equipe que esteve comigo no MS e desejo êxito ao meu sucessor no cargo de ministro da Saúde. Rogo a Deus e a Nossa Senhora Aparecida que abençoem muito o nosso País”, concluiu o agora ex-Ministro.

Demissão desenhada

Pela manhã, em seu tradicional encontro com apoiadores na porta do Palácio do Planalto, Bolsonaro já deu o tom do que viria a seguir ao afirmar que “estava fazendo a parte dele” e que “resolveria a questão da Saúde no Brasil para tocar o barco”.

À tarde, após Wanderson Kleber de Oliveira, secretário de Vigilância do Ministério da Saúde, anunciar sua saída do cargo e afirmar que “a gestão do Mandetta acabou”, veio a confirmação da queda.

A demissão de Mandetta já era para ter acontecido há uma semana, mas o Ministro da Saúde ganhou apoio dos militares, do Senado e do STF, que acabaram pressionando o presidente a voltar atrás.

Na ocasião, Bolsonaro chegou até a sondar os nomes de três possíveis substitutos para a pasta: Osmar Terra, Nice Yamaguchi e Antônio Barra Torres, mas não chegou a convidar ninguém.

O escolhido foi o oncologista Nelson Teich. Fundador do grupo COI (Clinicas Oncológicas Integradas), teve participação também no MDI Instituto de Educação e Pesquisa, no qual foi sócio de Denizar Viana, secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos de Mandetta.

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Quem é Nelson Teich

Teich contava com a simpatia de Jair Bolsonaro há tempos, tanto que o presidente chegou a cogitá-lo para o cargo antes de definir pela nomeação de Luiz Henrique Mandetta.

O novo ministro defende a criação de uma estratégia que “permita estruturar e coordenar a retomada das atividades normais do dia a dia e da economia” e reclama de “polarização” entre a saúde e a economia.

Mas já defendeu o isolamento social como forma de frear a disseminação do Covid-19.

“Esse tipo de problema é desastroso porque trata estratégias complementares e sinérgicas como se fossem antagônicas. A situação foi conduzida de uma forma inadequada, como se tivéssemos que fazer escolhas entre pessoas e dinheiro, entre pacientes e empresas, entre o bem e o mal“, escreveu, à Poder 360.

“Qualquer escolha e ação, seja ela da saúde, econômica ou social, tem que ter na mortalidade o seu desfecho final, por mais difícil que seja chegar a esses números. É a única forma de comparar as ações e escolhas que são feitas de uma forma técnica, justa e equilibrada.”

Os rounds da briga Bolsonaro x Mandetta

Mandetta e Bolsonaro não falavam a mesma língua desde que o agora ex-Ministro da Saúde assumiu papel de protagonista na pandemia de coronavírus.

A insistência de Mandetta em seguir as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e pregar a necessidade do isolamento social acabou desgastando sua imagem junto a Bolsonaro, que há tempos queria desligá-lo do cargo.

Bolsonaro já havia ameaçado Mandetta publicamente algumas vezes. Em entrevista ao programa Os Pingos nos Is, da Jovem Pan, o presidente afirmou “estar faltando humildade” ao então Ministro da Saúde.

Em um domingo pela manhã, ao conversar com apoiadores no Palácio da Alvorada, voltou a cutucar o médico ao afirmar que “alguns ministros estavam se achando demais” e que “de repente viraram estrelas”.

Quem eram outros candidatos a “herdeiros” de Mandetta

Antes da confirmação de Nelson Teich, o presidente Jair Bolsonaro cogitou outros nomes para assumir a pasta.

Osmar Terra, deputado federal e ex-Ministro da Cidadania, chegou a ser o grande favorito da presidência da República para assumir a pasta.

Outros nomes cogitados com linhas semelhantes foram os de Nice Yamaguchi, oncologista e imunologista, e Antônio Barra Torres, presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Todos os três seguiam Bolsonaro no que se refere à pandemia, e são defensores do isolamento vertical – apenas para pessoas idosas ou com doenças pré-existentes.

Os “novatos” do grupo, João Gabbardo e Claudio Lottenberg tinham a favor o fato de não contarem, neste momento, com a rejeição popular, o que tornaria a mudança menos traumática.

Quem é João Gabardo

João Gabbardo dos Reis ocupa, no momento, o cargo de secretário-executivo do Ministério da Saúde e era, na visão dos governistas, a opção “menos traumática” para ocupar a vaga de Mandetta em meio à pandemia.

Gabbardo chegou a ser secretário da Saúde de Osmar Terra na década de 1990, em Santa Rosa, município do Rio Grande do Sul.

Ele tinha a seu favor o bom relacionamento com Onyx Lorenzoni, Ministro da Cidadania e fiel escudeiro de Jair Bolsonaro, além de ter diálogo aberto com o próprio presidente da República.

Resta saber se Gabbardo aceitaria ocupar a vaga de Mandetta, seu amigo pessoal, e responsável pela indicação para o cargo que ocupa.

Questionado a respeito do assunto em entrevista coletiva na quarta-feira, Gabbardo pregou fidelidade à Mandetta, mas afirmou que “não abandonaria o barco” se o País precisasse dele.

Quem é Claudio Lottenberg

Presidente do Conselho do Hospital Israelita Albert Einstein, Lottenberg tem 60 anos e contava com o apoio da comunidade judaica para ocupar a vaga de Mandetta no Ministério da Saúde.

Em vídeo gravado recentemente no YouTube, o médico defendeu “equilíbrio, bom senso e solidariedade” como armas principais no combate à pandemia de coronavírus.

Filiado ao DEM, mesmo partido de Mandetta, Lottenberg era cotado para ser vice de Bruno Covas nas eleições municipais, mas já deixou claro que, se Bolsonaro o convidasse para assumir o Ministério da Saúde, aceitaria a missão.

Quem é Antônio Barra Torres

Antônio Barra Torres é médico, contra-almirante, e trabalhou para barrar o processo de plantio de Cannabis medicinal dentro da Anvisa.

Ele assumiu o cargo na Agência Nacional de Vigilância Sanitária em janeiro deste ano, no lugar de William Dib, mas estava interinamente no cargo desde julho.

Antônio Barra Torres sempre defendeu que medidas drásticas para conter a propagação do coronavírus tinham que ser evitadas para não criar um clima de pânico no Brasil.

Dias antes de a Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmar que a propagação do coronavírus atingiu o estado de pandemia, Barra Torres minimizou os efeitos da Covid-19.

Alinhado com Bolsonaro, que dizia se tratar de “uma gripezinha”, o candidato ao cargo de Ministro da Saúde afirmava que a hora era de manter a tranquilidade para não permitir a “disseminação do pânico”.

Quem é Nice Yamaguchi

Nise Yamaguchi é médica oncologista e imunologista. A doutora tem pensamento similar ao do presidente Jair Bolsonaro e da ala “olavista” do Governo no que diz respeito à pandemia de coronavírus.

Em entrevista recente ao portal Brasil Sem Medo, Nise Yamaguchi chegou a falar abertamente sobre quais medidas considera fundamentais no combate à Covid-19. E defendeu o uso da cloroquina.

“É importante construir UTIs, aumentar os leitos hospitalares, promover o isolamento vertical e adotar medidas de prevenção ― mas não podemos nos limitar a isso. O tratamento precoce com hidroxicloroquina pode ser feito em larga escala, como fizemos com o Tamiflu durante a epidemia de H1N1”, argumentou.

Segundo Yamaguchi, o uso prematuro da cloroquina será tratado como “ovo de Colombo” quando passar a ser adotado em larga escala.

“Quando se aplica o método precoce com a hidroxicloroquina, as pessoas percebem que é como um ovo de Colombo. Como não havíamos pensado nisso antes? Por que tantos tiveram de morrer? Agora precisamos desenhar padrões que possam ser replicados e beneficiar o maior número de pessoas. Ao final, podemos mudar o curso da epidemia. Esse é o meu sonho para o Brasil”.

A utilização do medicamento no combate ao coronavírus sempre foi um dos pontos de discórdia entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Enquanto Bolsonaro cita, sem comprovação científica, a eficácia da cloroquina, Mandetta defende que a população não deve se auto-medicar para não prejudicar os doentes que já necessitam do composto, usado, por exemplo, para o combate à malária.

Quem é Osmar Terra

Osmar Terra foi demitido do cargo de Ministro da Cidadania pelo presidente Jair Bolsonaro há pouco mais de um mês, no dia 13 de março.

Apesar de ter ficado fora da cúpula durante a pandemia, Terra, na verdade, jamais se distanciou realmente de Bolsonaro.

Não foram poucas as entrevistas em que o deputado federal rasgou elogios ao presidente e disse, entre outras coisas, que “Bolsonaro é a possibilidade de mudança que tem no País”.

Visão diferente (e equivocada?) sobre o coronavírus

Osmar Terra tem uma visão diferente do que deve ser feito em relação ao controle da pandemia de coronavírus do que a que era defendida por seu antecessor.

O deputado federal chegou a tuitar um gráfico mostrando o número de novos casos da Covid-19, na Itália antes e depois do país instituir medidas de quarentena.

Segundo ele, isso provaria a ineficiência da medida.

“Insisto que a quarentena aumenta os casos do coronavírus. A curva da epidemia nos países que a adotaram mostra isso. Isso porque o contágio se transfere da rua para dentro de casa e fica mais fácil”, argumentou.

De acordo com reportagem da Agência Lupa, no entanto, o argumento de Osmar Terra não tem qualquer embasamento científico.

A matéria publicada no site da agência mostra que, embora os números citados pelo sucessor de Mandetta estejam corretos, eles não indicam a ineficiência da quarentena.

Na verdade, o que ocorre é exatamente o contrário: a manutenção da tendência de crescimento no número de casos nos dias imediatamente depois da instituição da medida é esperada.

Segundo as pesquisas mais recentes sobre o assunto, o efeito da quarentena só começa a ser sentido entre oito e 11 dias depois de seu início. A tese do ex-ministro é falha por dois motivos: primeiro, ignora o tempo de incubação da doença. Segundo, ignora o fato de que o registro do resultado dos testes não é imediato.

A data marcada em verde no gráfico publicado pelo deputado é o dia 9 de março. Neste dia, o governo italiano estendeu para todo o território do país medidas de restrição (quarentena).

Até então, elas eram exclusivas para partes do norte do país, região na qual a crise era mais severa, incluindo a Lombardia, a região de Veneza, o norte da Emília-Romanha e o leste de Piemonte.

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