Manda quem pode, obedece quem tem juízo

Filipe Teixeira
Colaborador do Torcedores
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Crédito: Reprodução Kevin Lamarque/Reuters

Hoje inicio aqui no portal euqueroinvestir o desafio de fechar a régua nos eventos que marcaram o mercado financeiro na semana. Obviamente, o caminho mais fácil seria comentar as máximas históricas que se sucederam ao longo da semana, fazendo o Ibovespa romper a casa dos 111.000 pontos, ou quem sabe destacar as novas projeções que apontam para um PIB com grandes chances de vir acima de 1%.

No país apaixonado por futebol e populismo, a retomada do crescimento econômico virá antes do hexa. Quem diria!

E as boas notícias não param por aí: o dólar que há poucos dias obrigava Campos Neto a arregaçar as mangas e queimar reservas “na bucha” para manter a cotação abaixo dos R$4,30, fechou a sexta-feira na casa dos R$4,14.

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E nem adianta procurar explicações lá no Posto Ipiranga, já que o ministro, em entrevista (também há não muitos dias), estufou o peito para dizer ao mercado que era melhor “Jair” se acostumando com o dólar acima dos R$4,30.

Os brutos também amam, e os especialistas, às vezes se enganam. Uns mais que outros, é verdade.

É claro, nem tudo são boas notícias, afinal, sempre tem alguém querendo comprar. E é sobre elas (as más) que nos aprofundaremos a partir de agora.

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Amigos, amigos, negócios à parte

Seja pela ordem cronológica ou pela ordem de importância, dificilmente passamos uma semana imunes ao protagonismo de Donald Trump: Já na abertura da semana, o presidente americano surpreendeu até mesmo o mais ingênuo dos Bolsonaros (escolha seu predileto) ao anunciar a incrédula sobretaxa ao aço e alumínio, brasileiro e argentino.

Mais estapafúrdia que a decisão, só mesmo a justificativa: “O Brasil e a Argentina estão liderando uma desvalorização maciça das suas moedas, o que não é bom para os nossos agricultores. Portanto, com efeito imediato, vou restaurar as tarifas sobre todo o aço e alumínio enviados aos Estados Unidos a partir desses países”.

Conto eu, ou vocês contam? Conto eu.

Declaração sem sentido

Embora seja verdade que o real brasileiro e o peso argentino enfraqueceram contra o dólar este ano, a declaração de Trump não faz o menor sentido: O que os governos de Brasil e Argentina têm feito, sistematicamente, vai justamente na direção oposta.

O banco central do Brasil reduziu sua taxa de juros para o nível mais baixo de sua história este ano. Isso tende a enfraquecer a moeda, corroendo o apelo do carry trade, pelo qual os investidores tomam empréstimos em dólares e compram ativos em moedas que oferecem rendimentos mais altos.

Os cortes nas taxas são exatamente o que você esperaria de um banco central diante de um crescimento fraco e aumentos de preços ao consumidor abaixo da meta.

E não há razão para pensar que o Banco Central do Brasil estava fazendo outra coisa senão cumprir seu plano de metas de inflação da maneira normal.

Déficit no nível mais alto

O déficit em conta corrente do Brasil, a medida mais ampla do comércio de bens e serviços, aumentou este ano para o nível mais alto desde o final de 2015.

As exportações caíram, então a ideia de que um real mais fraco está permitindo que o Brasil inunde os EUA com produtos baratos é difícil de sustentar.

O presidente do banco, Roberto Campos Neto, disse repetidamente que a moeda está flutuando e que não há uma meta específica. Ainda assim, as ações do Banco Central indicaram uma preocupação extrema em não permitir que a moeda americana ultrapassasse R$ 4,30, o que colocaria em risco nossa política monetária, que passaria a sofrer pressões inflacionárias.

Quase no fechamento de seu primeiro ano de mandato, Bolsonaro pôde enfim aprender a mais importante e óbvia lição sobre Trump: America First.

Unilateridade

O episódio tornou patente o que já sabíamos: o “canal aberto com Trump”, defendido por Bolsonaro, tem a mesma intenção de todos os demais abertos por Trump contra qualquer nação: a unilateralidade vinda sempre, é claro, de cima para baixo.

Neste cenário de desaceleração generalizada, que eleva a competição pelo comércio internacional a níveis jamais vistos, o interesse brasileiro não pode ser outro, que não seja ganhar o máximo em cada negociação, seja com americanos, franceses, argentinos ou chineses.

O compromisso do governo, antes de mais nada, é com a retomada do crescimento econômico e a ideologia precisa ficar em segundo plano – do contrário, apenas confirmaremos o velho ensinamento, passado de geração para geração: manda quem pode, obedece quem tem juízo, dizem os antigos.

Novo desafeto

Trump ainda encontrou tempo de “trocar tiros” com seu mais novo desafeto: o presidente Francês, Emmanuel Macron, a quem também ameaçou com sobretaxas, na ordem de 100% para queijos, vinhos e “todo o resto”. Ao contrário do que foi noticiado na mídia aberta, a retaliação de Trump tem menos a ver com imposto digital criado por Macron e muito mais com a postura do francês, que, nos bastidores, articula por um rompimento da Otan, da qual sempre se questionou sua eficácia em casos de extrema urgência (o que, inclusive, fez com que a própria França deixasse a organização por 30 anos).

Macron tenta seguir os passos do lendário Charles de Gaulle, que no passado tentou o mesmo movimento: o de ser a voz de união entre os países europeus, questionando o apoio militar americano, em troca de compra da dívida americana.

Ruptura em forma de arte

Acontece que De Gaulle jamais conseguiu concretizar tal feito, e olha que estamos falando de notório presidente, que transformou a ruptura diplomática em uma forma de arte.

Macron não chegará a lugar algum sem o apoio de Angela Merkel, que se preocupa com o fato de seus comentários estarem apenas aumentando as pressões sobre o relacionamento transatlântico.

É irônico que os franceses acusem com tanta frequência os americanos de falta de sutileza diplomática, dada a maneira pela qual as declarações de Macron certamente lembraram a muitos europeus quão pouco eles gostariam de viver em um continente liderado pela França.

Atualmente, a Otan é bancada, em 75% de seu orçamento, pelo governo americano, de modo que ao francês também cabe a velha máxima já utilizada nesta coluna:

Manda quem pode, obedece quem tem juízo.