“Risco fiscal está menor e já reflete no mercado”, diz CEO da Mauá Capital

Naiana Oscar
Colaborador do Torcedores
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Na semana em que o IBGE divulgou uma queda de 9,7% no PIB do segundo trimestre, uma série de outros eventos trouxe otimismo para os investidores: o teto de gastos foi mantido no Orçamento do ano que vem, a Câmara aprovou a liberação do mercado de gás e o governo encaminhou ao Congresso o projeto de Reforma Administrativa. “O risco fiscal percebido está um pouco menor e o mercado está refletindo isso”, diz Luiz Fernando Figueiredo, CEO e sócio-fundador da gestora da Mauá Capital. 

Ex-presidente do Banco Central, Figueiredo conversou com a Eu Quero Investir sobre perspectivas para a bolsa nos próximos meses e política monetária. Confira os principais trechos:    

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No 2º trimestre, o PIB caiu 9,75%. A economia não vai bem, mas a bolsa seguiu em alta. O que explica esse descolamento? 

O PIB divulgado foi o do segundo trimestre. Todo mundo sabia que seria  negativo. É olhar para o retrovisor. Por isso não teve tanto impacto. Foi pior do que o mercado esperava, mas dentro de uma volatilidade muito grande, que tende a se reduzir bastante daqui para frente.

Ao mesmo tempo, o risco fiscal percebido está um pouco menor, uma vez que foi reafirmado o teto de gastos para o ano que vem, a reforma administrativa voltou para pauta, e passou na câmara  a liberação do mercado de gás.

Ou seja, os mercados estão refletindo mais essa redução de incerteza fiscal do que outra coisa. Do ponto de vista de atividade, ela tem mostrado mais força do que se imaginava. 

Você espaço para a bolsa avançar mais nos próximos meses? 

Acho que sim. Temos uma economia em recuperação. Um risco fiscal ainda presente, mas que é cadente. Um custo de capital baixíssimo por muito tempo. Esses três ingredientes somados vão levar os ativos de risco, incluindo a bolsa, para um nível mais alto. 

Em relação à situação fiscal, que pontos ainda continuam sensíveis? 

O Brasil já deveria ter superado a questão fiscal há muito tempo. Quando eu estava no Banco Central, em 2000, achamos que esse assunto tinha ficado para trás. Tínhamos um superávit primário acima de 3% do PIB. E olha onde estamos hoje.

Toda vez que o Brasil tem que discutir esse assunto, a gente não avança. Se você vai discutir se está doente ou não está doente, como é que você vai treinar para uma maratona? Primeiro precisa estar com saúde para depois treinar para uma maratona.

Dito isso, é natural, num ambiente tão adverso (a economia parou aqui e no mundo) que haja uma discussão sobre o processo emergencial. O governo e o Congresso já deixaram claro que vamos acabar o processo emergencial, com um coronavaucher menor estendido até o fim do ano.

Depois a gente vira a chave para uma agenda de reformas e consolidação fiscal.

Com essas coisas definidas, o ambiente tende a ficar melhor. Como ainda teremos várias disputas em relação ao orçamento, o receito ainda domina o ambiente. 

Você vê risco de uma saída do ministro Paulo Guedes? 

São naturais embates entre área econômica e outras áreas do governo. O gasto discricionário é mínimo, existe um engessamento gigante e um gasto gigante. O Estado brasileiro se tornou completamente caótico. Não é uma discussão de linha, sobre querer um estado menor.

Nosso Estado é duas vezes maior do que deveria ser em qualquer circunstância. Portanto, é normal essa discussão. O Estado se tornou grande demais, até para caber no nosso PIB. Isso está tão distante de risco de saída do Paulo Guedes.

A linha na área econômica não mudou. O que existe é que muita gente não gosta desse governo e adora colocar uma pimenta nos olhos de todo mundo. A percepção sobre essas disputas foi muito pior do que a realidade. 

Sobre taxa de juros, até quando o Banco Central deve manter a Selic neste patamar de 2%?

O Brasil antes da pandemia já tinha uma ociosidade na economia. Com a pandemia, essa ociosidade cresceu barbaramente. A recuperação é gradual. No início do ano, se imaginava inflação de 3,5% em 2020.  Agora as projeções estão mais em 1,5%. Para o ano que vem as projeções estão em 3%,que é bem abaixo da meta do Banco Central.

Como não se prevê um crescimento mais forte, essa ociosidade deve fechar no fim de 2021, início de 2022. Tem muito chão pela frente. Do ponto de vista de política monetária isso quer dizer o que?

Primeiro, o Banco Central entende que está perto de um piso de juros, então é pouco provável que flexibilize um pouco mais. Mas deve ficar bastante tempo neste patamar, porque essa ociosidade ficará conosco durante bastante tempo. Nossa expectativa é aumento de juros no segundo semestre de 2021.  

Com esse cenário, o que muda para o investidor brasileiro?  

O juro normal no Brasil já tem um outro nível. De dois anos para cá, convergiu para um juro no padrão internacional. Isso por só já provoca uma enorme migração no portfólio dos investidores.

O brasileiro é muito sub investido em ativos de risco. Esse processo já tinha começado mas é muito longo porque o brasileiro tipicamente investe muito pouco em risco.

Apesar da pandemia, essa transição continua firme e está só no início. Independentemente dessa conjuntura de juro muito mais baixo, esse processo ia seguir seu curso. Esse cenário de ociosidade que vai manter os juros nesse patamar por mais tempo acelera o processo. 

Estamos passando por uma onda de IPOs. Há espaço para tantas ofertas? 

Acho que sim.No mercao de ações a oferta vai atrás da demanda. Como tem havido uma demanda boa por ações, o preço das ações já está razoável para que as empresas queiram abrir capital ou fazer follow-ons. É natural e completamente saudável. Senão teríamos uma situação de bolha, em que não tem oferta e o preço vai nas alturas.

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