Localiza (RENT3) e Unidas (LCAM3): mercado teme entrave do Cade à fusão

Giovanna Castro
Jornalista formada pela UNESP.
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Crédito: Localiza (RENT3) e Unidas (LCAM3) anunciam fusão -Foto: Localiza Hertz/Divulgação

A fusão entre Localiza (RENT3) e Unidas (LCAM3) anunciada nesta quarta-feira (23) pode contar com entraves por parte do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Segundo analistas, o Cade deve avaliar qual será o impacto dessa união em diferentes mercados. Devem ser considerados os efeitos por região e tipo de cliente, por exemplo.

Caso haja uma concentração da nova companhia em diferentes segmentos, pode afetar a sobrevivência de outras empresas. Isso deve ser ponderado pelo conselho.

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O cenário atual também afeta a avaliação. A pandemia do coronavírus causou impacto relevante no setor, principalmente por conta das medidas de isolamento social. A queda do turismo, por exemplo, afetou o mercado de aluguel de carros.

Se o conselho avaliar que há impacto prejudicial significativo a outras empresas, que já sofrem com a crise, deve pedir mitigações.

Essas mitigações envolvem, por exemplo, a venda de operações em um local onde foi apurada concentração da marca.

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No entanto, na avaliação do analista Alexandre Kogake, da Eleven Financial, reportada pelo Broadcast, ainda é cedo para se avaliar as chances de aprovação da operação pelo Cade .

“Esse é um grande ponto de interrogação, muito difícil fazer uma leitura agora. Mas, por enquanto, as companhias continuarão trabalhando de forma independente”, comentou.

O analista da Terra Investimentos, Régis Chinchila, também acredita que ainda é cedo para prever uma decisão do Cade. “No momento é difícil prever, mas requer bastante discussão, com efeitos no setor”, afirmou.

Aprovação com ressalvas

Para Victor Hasegawa, gestor de ações da Infinity Asset, a operação deve ser aprovada pela autarquia, talvez com a imposição de algumas restrições no segmento de aluguel de carros, onde as duas companhias juntas devem ficar com cerca de 60% do mercado.

Porém, considerando o segmento de gestão de frotas, a concentração deve ficar entre 25% e 30%. E portanto, nessa área, não deve haver ressalvas por parte da autarquia.

“Essa deve ser a grande janela de crescimento para o negócio combinado, então abrir mão de aluguel de carros não deve ser um problema”, afirmou. “É um mercado fragmentado no Brasil. Se fizer ajuste em aluguel de carro o negócio deve passar.”

O sócio-fundador da Urca Capital Partners, Leonardo Nascimento, prevê que as discussões no Cade em torno do negócio não serão fáceis e devem se estender pelo menos até o próximo ano. Ele destaca que a concentração do mercado pela Localiza já era grande e ficará maior agora.

Nascimento também avalia que a fusão das duas empresas pode despertar um contra-ataque dos concorrentes, por meio de outras fusões ou até a associação dos players locais com internacionais.

Na visão de Henrique Esteter, analista da Guide, a aprovação do Cade é a grande preocupação em relação à união entre as empresas. Ele espera uma aprovação da operação com ressalvas. Segundo ele, decisões recentes no setor de saúde mostram que o Cade tem adotado uma postura rigorosa.

Receptividade no mercado

O transação, apesar de inesperada, faz sentido e é um bom negócio para ambas as companhias, segundo avaliação do Santander, reportado pelo Broadcast.

Por outro lado, a notícia não é tão boa para a Movida, outra empresa do setor de veículos listada na bolsa de valores. Para o Santander, ela pode ter dificuldades para crescer diante da gigante concorrente que se forma com essa fusão.

“Juntar as duas maiores do setor representa uma pá (de cal) na competição do setor”, disse o banco em breve comentário aos clientes.

Nesse segmento, a escala da empresa faz muita diferença na hora da competição. A Localiza, por exemplo, já ganha escala há um tempo por meio da compra de carros. Isso a deixa, muitas vezes, na frente das concorrentes.

“O spread alto do valuation (Localiza é negociada com múltiplo de 30 vezes o Preço/Lucro estimado ante 20 vezes da Unidas) abriu essa possibilidade de troca de ações”, comentou o Santander, que recomendou a compra para as ações das duas empresas.

A Guide Investimentos considera o anúncio como positivo. De acordo com relatório da casa, as duas companhias são extremamente resilientes dentro do setor de locação de carros e a incorporação dos ativos de ambas irá levar “a criação de um player de grande qualidade no mercado, que será líder tanto no segmento de Rent a Car (RAC) como no de Gestão de Frotas (GTF)”.

A corretora ainda mencionou que ambas as empresas possuem o negócio de aluguel de carro zero. Esse tipo de negócio vem ganhando força no cenário atual e pode se consolidar.

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Números da Localiza e Unidas

A Localiza e a Unidas são as duas maiores locadoras de carros da América Latina. Com o acordo de incorporação de ações, se tornarão uma gigante de quase R$50 bilhões em valor de mercado.

As receitas devem chegar a aproximadamente R$16 bilhões, calcula o analista da Terra Investimentos, Régis Chinchila.

Juntas, as companhias terão 65% do mercado brasileiro de aluguel de carros. Considerando as frotas, terão 29% do mercado, sem considerar as franquias. Os dados são do Kogake, analista escutado pelo Broadcast.

A receita líquida é de R$ 14,869 bilhões e Ebitda de R$ 3,478 bilhões, considerando números de 2019. A frota combinada é de cerca de 500 mil veículos.

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Busca de sinergias

Para os analistas, a motivação para a união das empresas são as sinergias. A combinação da líder no aluguel de carro (Localiza) com a líder na gestão de frotas (Unidas) é imbatível, na sua opinião.

No entanto, ressaltou, isso não significa que o impacto da pandemia não possa ter facilitado o entendimento da fusão entre as partes.

Afinal, a criação da gigante teria maior eficiência operacional com otimização dos canais de atendimento. Além disso, haveria ganho de produtividade das áreas administrativas e redução dos custos variáveis de frota. Isso sem falar no ganho de eficiência na venda de carros, conforme o próprio presidente da Localiza, Eugênio Mattar, disse Chinchila.

O analista da Guide também destacou que a Unidas traz para a Localiza maior força na área de gestão de frotas. “A união das empresas resultará em ganhos operacionais que podem ser muito expressivos.”

Já para Hasegawa, da Infinity Asset, as duas empresas possuem uma situação financeira bastante confortável. Como já apresentavam bom desempenho antes e estão superando bem a pandemia, apesar da retração do segmento de turismo, ele acredita que a motivação para fusão está mais relacionada à oportunidade de crescimento do que à crise. Essa tese é corroborada pelo fato de o negócio não prever desembolsos, apenas troca de ações.

O que muda com a fusão caso o Cade aprove?

Com a incorporação, uma das estratégias será ampliar o alcance da Localiza no exterior através da parceria atualmente existente entre a Unidas e a subsidiária da Enterprise, Vanguard Car Rental (detentora das marcas Alamo, Enterprise e National). A ideia é a criação de um player de escala global.

Na apresentação a analistas, foi citada ainda a pretensão de combinar profissionais promissores. O foco será trazer soluções inovadoras à companhia, principalmente na área de experiência do cliente.

O comprometimento com os padrões mundiais de governança e sustentabilidade, chamado de ESG, também está nas diretrizes do negócio.

Acima de tudo, na avaliação dos analistas da Goldman Sachz, Bruno Amorim, Osmar Camilo e João Frizo, a fusão entre Localiza e Unidas promete unir o melhor dos dois mundos.

“A nova empresa poderá se beneficiar das melhores práticas de cada companhia na captação de clientes e na venda de carros usados através de suas redes, além de sinergias de custo”, disseram ao Broadcast.

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Impacto nas ações

Com relação ao desempenho dos papeis das companhias, Chinchila avalia que as companhias até o momento estavam “esticadas” e pareciam precificar a recuperação da economia. “Mas, com a fusão, existirá um ganho potencial de sinergias e redução de custos e isso tende a ser precificado no mercado com ganhos”, concluiu.

Por isso, a recomendação da Terra Investimentos é de compra para ações da Localiza (RENT3). Afinal, a relação de troca também é positiva aos acionistas da Localiza, que deterão 76,85% do capital da empresa combinada.

O Goldman avalia que a relação de troca proposta pela Localiza implica em desconto de 3% nas ações da companhia. Por outro lado, traz prêmio de 10% para os papéis da Unidas.

Estes cálculos já tomam como base a distribuição de dividendos que a Unidas fará. “A Unidas pode distribuir até R$ 425 milhões em dividendos a seus acionistas, sujeitos à concretização do acordo”, escrevem os especialistas.

Se até a data de fechamento da transação a Unidas não puder pagar todo esse montante, a Localiza deve pagar a diferença entre o montante máximo e o valor já pago pela companhia aos acionistas. Isso sem gerar mudanças na relação de troca.

A Goldman recomenda compra da Localiza ON, com preço-alvo de R$ 61.60. O preço considera valorização de 19,1% em relação a ontem.

Perto das 13h10, RENT3 registrava alta de 13,51%, cotada a R$ 58,73. E LCAM3 subia 20,34%, a R$ 25,50

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