Juros baixos, e agora? Renda fixa não morreu, mas vai se diversificar

Natalia Gómez
Editora, é jornalista especializada no mercado de investimentos há 17 anos. Formada pela PUC-SP, teve experiências em veículos como Agência Estado, Valor Econômico e Revista Você SA; e na área de comunicação corporativa e relações públicas para instituições financeiras.
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A redução da taxa Selic no Brasil tem gerado grande debate no Brasil. Afinal, depois de muito tempo, já não é mais possível ganhar dinheiro sem correr riscos com aplicações de renda fixa atreladas ao CDI.

No dia 05 de agosto de 2020, a taxa Selic chegou a 2%, nível mais baixo da história. A decisão anunciada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) foi a nona redução de um ciclo de cortes recentes da Selic. Em setembro, o Copom interrompeu essa sequência e manteve a taxa no mesmo patamar de 2%.

Em termos comparativos, em agosto de 2016, a taxa básica era 14,25%. Mas já chegou a 45%, em março de 1999.

A expectativa agora é de que uma nova mudança na Selic só deve acontecer no meio do ano que vem.

E agora?

Neste contexto, muita gente se apressa em dizer que o investidor deve voltar suas atenções para o mercado de renda variável para conseguir engordar seu patrimônio.

Mas não é bem assim! A renda fixa continua sendo fundamental para qualquer carteira de investimentos. Até mesmo para os investidores com perfil agressivo.

Antes de continuar, é preciso explicar por que as pessoas costumam confundir renda fixa com Selic e o CDI.

Para quem não sabe, o CDI refere-se à remuneração dos depósitos interbancários, acompanhando a Selic que hoje está em 2% ao ano.

Renda fixa x Selic

Historicamente, os juros reais no Brasil sempre foram muito elevados. Bastava investir em títulos de renda fixa atrelados ao Certificado de Depósito Bancário (CDI) para ganhar dinheiro sem correr riscos.

Isso gerava uma comodidade muio grande ao investidor. Por exemplo, bastava investir no Tesouro Selic – título do Tesouro Direto com rendimento atrelado ao CDI – para ter ótimas rentabilidades.

Por isso, além de ser usado como reserva de emergência, o dinheiro aplicado em Tesouro Selic podia ser usado até mesmo como investimento de longo prazo.

Hoje, a situação é outra. Estamos em uma realidade mais parecida com o resto do mundo. Este tipo de aplicação vai assumir o papel de “cash”, ou “dinheiro de emergência”. Mas sem oferecer grandes retornos.

Para ver o patrimônio engordar, o investidor vai ter que buscar outras modalidades de renda fixa, assumir maiores riscos ou prazos mais longos.

Embora o CDI seja o principal índice que remunera os investimentos em renda fixa, existem investimentos que usam outros índices como taxa de remuneração.

Por exemplo, o IPCA e o IGPM, além dos investimentos prefixados, que não estão atrelados a nenhum índice. Esses devem ser mais utilizados daqui para frente. 

Segmento continua fundamental

É verdade que o apetite do brasileiro por ações da bolsa tem crescido bastante. Mas a renda fixa não morreu. Na realidade, ela continua a ser fundamental para qualquer carteira de investimentos. Inclusive para os investidores com perfil agressivo.

“Mesmo um investidor agressivo jamais deve ter 100% do seu patrimônio exposto a renda variável”, diz Elias Wiggers, assessor de investimentos da EQI.

Para entender melhor, é preciso conhecer o conceito do rebalanceamento de carteiras.

Imagine que você tenha 50% da sua carteira alocada em renda fixa. E os 50% em renda variável.

Agora pense que a parcela em renda variável se valorizou. E passou a representar 70% da carteira.

Nesta hora, a melhor estratégia é vender ações para retornar ao nível de 50%. E usar este dinheiro para comprar renda fixa.

E por que isso é importante? Por que é uma forma de pegar os ganhos em renda variável e colocar em ativos mais seguros.

“Quando a renda variável devolver os ganhos, você não sente tanto porque você já transformou parte dos ganhos em renda fixa, que é muito mais segura”, explica o assessor da EQI.

Em outras palavras, você garante que vai ter bons resultados ao longo do tempo, usando os ciclos do mercado ao seu favor.

Outro fator que mantém a renda fixa fundamental é seu uso como reserva de emergência. Isso não deve mudar.

“Não faz sentido só se investir em ativos com alta volatilidade e com riscos elevados, já que pode-se precisar de parte ou da integralidade dos recursos de uma hora para a outra”, afirma Francis Wagner, do App Renda Fixa.

Renda fixa vai se diversificar

Já ficou claro que a renda fixa segue importante. Mas com o novo cenário de taxa de juros, este segmento vai passar por um processo de diversificação.

Confira algumas das tendências que devem ocorrer neste mercado:

Uma variedade maior

Segundo os especialistas, devem surgir novos tipos de produtos de renda fixa, principalmente no crédito corporativo. Ou seja, títulos emitidos por empresas privadas para financiar suas atividades.

Além do avanço das debêntures, Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) e Certificados de Recebíveis Agrícolas (CRA), devem ser lançados produtos similares aos que existem no exterior.

Mais emissores de renda fixa

Ao mesmo tempo, a variedade de emissores deve aumentar.

“Teremos acesso a outros produtos que já são realidade em mercados mais desenvolvidos”, destaca Wiggers. Ele cita produtos como os Puttable Bonds, que dão ao detentor do título a opção de devolver o título a um preço pré-estipulado antes do vencimento.

Os bancos também devem fazer parte desta tendência. Ou seja, é esperado que eles lancem uma variedade maior de produtos de renda fixa. Segundo o especialista da EQI, as letras financeiras também devem ganhar destaque.

Renda fixa para projetos locais

Outros títulos que podem ganhar força são os voltados para financiamento de projetos dos governos municipais ou estaduais.

Atualmente, os fundos de investimento podem acessar estes produtos, mas a pessoa física não tem acesso. “Para construir uma ponte ou aeroporto, por exemplo, os governos locais poderiam emitir títulos públicos de renda fixa”, explica Wiggers.

Fundos DI devem mudar

Além disso, um segmento que precisará se reiventar é o de fundos referenciados DI. Isso porque as taxas administrativas não estão favoráveis para o investidor.

Ou seja, a cobrança de uma pequena taxa pode trazer perdas significativas em sua rentabilidade, fazendo com que os fundos percam para outros ativos com mesmo risco.

Potencial é grande

Além de toda esta diversificação, os fundos de infraestrutura e fundos de recebíveis imobiliários devem ganhar maior peso daqui para frente.

Segundo Marcelo Domingos, sócio da DLM Invista, braço de investimentos do Banco Inter, as taxas dos ativos que compõem estes fundos estão muito boas atualmente.

Ao mesmo tempo, os gestores nacionais estão buscando opções de alocação de renda fixa no exterior. “Inclusive comprando bonds emitidos pelas maiores e mais longevas companhias brasileiras, com ainda maior liquidez quando comparada ao mercado doméstico”, explica. 

Para ele, quem deve perder espaço na renda fixa são a poupança e o Tesouro Direto. Ao mesmo tempo, o mercado de crédito privado deve avançar.

Para não ficar de fora desta tendência, o investidor precisará, mais do que nunca, buscar conhecimento.

Desta forma, estará preparado para revisar suas aplicações de renda fixa com inteligência, garantindo bons retornos mesmo sem correr os riscos da renda variável.

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