B3 (B3SA3): jornada de sofisticação do investidor está no início”, diz CEO

Felipe Alves
Jornalista com experiência em reportagem e edição em política, economia, geral e cultura, com passagens pelos principais veículos impressos e online de Santa Catarina: Diário Catarinense, jornal Notícias do Dia (Grupo ND) e Grupo RBS (NSC).
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Em live realizada nesta terça-feira pela Febraban (Federação Brasileira de Bancos) o presidente da B3 (Brasil, Bolsa, Balcão), Gilson Finkelsztain, falou sobre o momento do investidor brasileiro, a subida da Bolsa e também sobre os IPOs que estão programados para ocorrer até o fim do ano.

Segundo Gilson, com a inflação e os juros baixos no país o investidor brasileiro começa a percorrer uma jornada de sofisticação.

O mundo está com juros baixos há mais de 12 anos. A gente está com essa experiência muito recente, há cerca de um ano que o juros real está baixo. Temos um caminho muito longo e próspero para que esse investidor sofistique. Vários produtos e classes de ativos vão ganhar representatividade dentro do portfólio de investimentos”, avalia ele.

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Para o presidente da B3, a rápida retomada da Bolsa a um patamar quase pré-crise não é de se preocupar. “Eu não acho que estamos vivendo uma bolha. Não vejo os preços de ativos no Brasil refletindo uma irracionalidade sobre empresas que não tinham teses de investimento”, disse Gilson.

Mas ele alerta: “Mas volatilidade é algo que acompanha o mercado de ações e o investidor. Não é por que não vejo irracionalidade que não haverá flutuações grandes de preço. Isso é natural aos mercados de ações, e vai refletir incertezas geopolíticas, fiscais. Isso tudo faz com que o mercado seja variável”.

Subida da Bolsa

O grande catalisador do movimento crescente no mercado de capitais brasileiro são os juros baixos na avaliação do presidente da B3.

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Para Gilson Finkelsztain o Brasil ficou décadas na contramão dos mercados internacionais. Mas, agora, com os juros atingindo a mínima histórica, o investidor teve que se mexer para assumir novos riscos e diversificar o portfólio.

“Essa é a tendência. À medida que a gente tenha a manutenção do compromisso fiscal, teremos cada vez mais um mercado de capitais atuante”, avalia ele.

Segundo Gilson, o rápido crescimento de investidores dentro da B3 tem sido ligeiramente maior entre mulheres do que homens, alcançando 2,5 milhões de CPFs.

“Tivemos um março muito atípico e muito volátil e foram momentos que o investidor não teve uma reação muito intempestiva. Ele precisa ter a cabeça fria e saber que o mercado exagera nos momentos de crise. Vimos a chegada da pandemia e muita dúvida sobre o tamanho do impacto que isso ia causar nos mercados. O ideal nesses momentos é não agir de forma muito precipitada.

Para os novatos na renda variável, o presidente da B3 dá a dica. “A diversificação é a melhor forma de você evitar se precipitar nos momentos de crise. Estando adequado ao seu perfil de risco você tende a aproveitar mais as crises do que deixar o pânico tomar conta de você”, pontua.

Presidente da B3 Gilson Finkelsztain fala sobre o investidor brasileiro

O protagonismo do investidor brasileiro

Segundo Gilson Finkelsztain, hoje há um protagonismo do investidor local, brasileiro. Na Bolsa sempre houve perto de 50% a 60% do fluxo de investidores estrangeiros. Mas hoje esses números se inverteram. Há cerca de 60% de investidores brasileiros, tanto institucionais quanto pessoas físicas.

“Eles têm sido os grandes protagonistas da Bolsa. Mas ainda há o apetite do investidor estrangeiro, que tem sido mais cauteloso, mas aberto a boas teses de investimentos”, afirma Gilson.

A jornada de sofisticação do investidor citada por Gilson está apenas no começo. Assim, ele vê com otimismo a maturação da Bolsa e do mercado de renda variável para os próximos anos.

Hoje são menos de 400 empresas listadas na B3. Enquanto que países como EUA e China têm mais de 8 mil. “Ainda temos uma representatividade muito baixa. O IPO médio no Brasil é de R$ 1,5 bilhão, R$ 2 bilhões. Mas no mundo todo é cerca de R$ 400 milhões em países desenvolvidos. Então tem espaço para empresas menores abrirem seu capital”, diz o presidente da B3.

Ele também cita outras classes de ativos que têm muito para avançar no Brasil. É o caso do mercado de debêntures, que hoje não tem nem 1 mil empresas. E também dos Fundos Imobiliários, que teve um grande crescimento nos últimos três anos tanto de investidor quanto de ofertas, mas tem muito para avançar ainda.

“Nosso histórico no Brasil não é bom. Não temos uma continuidade de crescimento econômico, aí você tem normalmente crises em que os juros sobem. Fico na torcida de que essas condições [econômicas] de hoje permaneçam para que a gente possa viver essa jornada de sofisticação e crescimento de produtos para trazer mais prosperidade para o país, mais empregos, novas empresas para a Bolsa, toda uma agenda positiva de crescimento econômico”, pondera Gilson.

Investidor de olho nos IPOs

2020 começou com a perspectiva de que seria o ano com maior número de abertura de capitais. Com a chegada da pandemia, em março, o jogo virou. Com IPOs e follow ons paralisados, 2020 caminhava para ser o ano perdido. Mas a retomada foi rápida e surpreendeu o investidor brasileiro e até o presidente da B3.

“Eu cheguei a falar que achava difícil a retomada desses processos. Ainda bem que eu queimei minha língua, pois já tivemos IPOs e follow ons pós-pandemia muito bem sucedidos. Surpreendentemente tivemos uma recuperação forte da Bolsa. Vários papéis estão negociando acima do que estavam pré-crise, claramente mostrando que muitas empresas estão aproveitando a crise para consolidar mercados”, diz Gilson, ao citar as empresas de varejo e tecnologia que performaram bem durante a crise.

Segundo ele, praticamente todas as empresas retomaram seus IPOs para este ano. Os próximos meses serão de várias estreias na Bolsa de Valores. Por isso, o investidor precisa ficar atento.

Segundo Gilson, a B3 espera para as próximas semanas uma autorização da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) para negociar empresas brasileiras listadas em Bolsas estrangeiras na B3. Ou seja, empresas como XP, PagSeguro e Stone, poderão ter seus ativos comprados na B3 por meio de BRDs (Brazilian Depositary Receipt).

Economia para o segundo semestre

Para Gilson, com a crise do coronavírus, é preciso que sejamos sensíveis às maiores despesas do governo para “cobrir” essa necessidade dos brasileiros. “Mas eu concordo que é preciso um olhar na manutenção do compromisso fiscal por parte do governo para dar sustentabilidade das contas públicas e para não eternizar essa situação que leva a um descontrole fiscal”, diz ele.

O presidente da B3 diz que vê com receio qualquer medida que possa furar teto de gastos no futuro. “Acho que é importante que a sociedade participe desta discussão porque essa conta precisará ser paga. Se a gente como nação desandar e gastar mais, essa conta volta para nós como sociedade”, avalia.

No mundo, a injeção de recursos coordenada pelos bancos centrais, com juros já baixos, ajudou os países a atravessarem de forma mais amena a crise. Mas ele sabe que nem todos os setores retomarão com velocidade.

“É muita incerteza do que será o dito novo normal. Acredito que quando sair a vacina as coisas vão voltar ao normal. A economia vai de alguma forma surpreender na retomada, alguns vão ser claramente destaque, principalmente os setores de tecnologia. Confesso que estou mais animado com a retomada do que as projeções dos economistas”, finaliza Gilson.