Jorge Paulo Lemann: o bilionário que revolucionou o capitalismo brasileiro

Vitória Greve
Colaborador do Torcedores
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Crédito: Jorge Paulo Lemann/ Divulgação

“Ter sonhos pequenos dá o mesmo trabalho de ter sonhos grandes”, é o que costuma dizer Jorge Paulo Lemann. Foi sonhando grande, e mirando alto que Lemann se tornou um dos homens mais ricos do Brasil. Hoje, na lista da revista Forbes, está atrás apenas do banqueiro Joseph Safra.

Prestes a completar 81 anos, com uma fortuna de US$ 10,4 bilhões, Lemann é também o 129º maior bilionário do mundo.

Esse carioca não é extravagante, preza pela simplicidade, e sempre se considerou (e foi considerado pelos colegas) uma pessoa de bom senso e raciocínio simples. É descrito como um sujeito carismático e agradável. 

Sua trajetória de vida passa pelo surf nas praias do Rio, pelas quadras de tênis na Europa, por bancos de investimento e pela aquisição de empresas, que viraram gigantes globais. “A vida não é uma linha reta”, como ele mesmo diz. 

Foi comprando companhias em dificuldade, e dando um choque de gestão, que Lemann virou um dos homens mais ricos do mundo. Ele tinha obsessão pela cultura da meritocracia, por formar os melhores líderes e torná-los sócios de seus negócios. Foi assim com as Lojas Americanas, Brahma, Antarctica, ALL… 

Três sócios

Os maiores negócios de sua vida Lemann fechou ao lado dos inseparáveis sócios Marcel Telles e Beto Sicupira. Juntos,  criaram a AB Inbev – maior fabricante de cervejas do mundo, fundaram o 3G Capital e compraram a Kraft Heinz .

Lemann gostou de trabalhar em sociedade, e dizem que só se tornou bilionário porque enriqueceu centenas de pessoas ao longo do caminho.

Entre os sócios, ele é aquele que se importa prioritariamente com os resultados. Quer saber de cara se a meta foi atingida, e não o quanto a equipe se dedicou para alcançar o objetivo. “Esforço não é resultado”, é uma de suas máximas. Ele sempre focou na eficiência da geração dos lucros.

Ao longo da vida, teve 6 filhos e atualmente mora em uma casa nos arredores de Zurique com a sua esposa, Susanna

Questionado sobre a pandemia do novo Coronavírus, em uma videoconferência da Brazil Conference at Harvard & MIT, Lemann disse que já enfrentou ao menos 11 crises na vida. “Sempre enfrentei com calma [as crises]. Acho que esta crise, embora pareça mais longa do que a maioria pensa, será um desenlace. Fique calmo, se adapte, inove a maneira de pensar, descubra novas formas de agir, mas continue. Se você continuar, vai saber como sair da crise”, afirmou.  

 

Os sócios na capa do livro “Sonho Grande”, de Cristiane Correa

Lemann e suas origens 

Jorge Paulo Lemann nasceu em 1938 na cidade do Rio de Janeiro, tem cidadania suíça, e desde criança teve uma vida financeiramente confortável. 

Seu pai, um imigrante suíço, se mudou para o Brasil e abriu uma empresa de queijos e laticínios, a Leco (Lemann & Company) – que posteriormente foi vendida para Hélio Moreira Salles (irmão do fundador do Unibanco). Lemann perdeu o pai aos 14 anos, atropelado por um bonde. 

Na adolescência, acordava às 5 das manhã para correr todos os dias na orla do Leblon, não bebia álcool (não bebe até hoje), não comia comidas gordurosas e nem carne vermelha. Tudo isso para se manter no foco e participar das competições de tênis.

Começou a jogar aos 7 anos no Country Club do Rio. Ganhou campeonatos infantis entre os anos 40 e 50 e foi campeão brasileiro juvenil aos 17. 

Estudou na Escola Americana do Rio de Janeiro – que é, até hoje, um dos melhores colégios da cidade -, e em 1957 se mudou para Cambridge. Chegou aos EUA para estudar economia na Universidade de Harvard. 

Harvard, Credit-Suisse e o tênis profissional 

Contrariando expectativas, Jorge Paulo Lemann não gostava da faculdade. Chegou até a jogar fogos de artifícios na praça central da Universidade. Foi advertido, e orientado a se ausentar. Lemann acabou voltando para Harvard e se formou em dois anos (em vez dos três que ainda faltavam). Já que ele não gostava de lá, melhor terminar o curso logo, não?

Aos 20 anos, já formado, foi estagiar no banco Credit Suisse, em Genebra. Queria aprender com “os grandes”. A experiência não foi como ele esperava. Comenta que “não aprendeu nada de relevante”. Saiu do banco para se dedicar profissionalmente ao tênis. 

Chegou a disputar os torneios de Wimbledon e Roland Garros, mas depois de um ano e meio abandonou as quadras. “Pelo tanto que joguei, percebi que dificilmente estaria entre os 10 melhores do mundo. Resolvi parar, já que eu não seria um astro”. 

Lemann estagiou no Credit Suisse

Lemann estagiou na Credit Suisse aos 20 anos

O início de Lemann no mercado financeiro 

Lemann voltou ao Rio de Janeiro, em 1963, para trabalhar no mercado financeiro. Aos 24 anos foi contratado pela Invesco, uma empresa de concessão de crédito. Chegou a adquirir 2% da empresa, mas a Invesco quebrou três anos depois, por má administração.

No ano seguinte, em 1967, passou a trabalhar na corretora Libra, já com uma participação de 13%. Ele tocava a área de mercado de capitais. Passados três anos, vendeu a sua parte e deixou a empresa, o que lhe rendeu US$ 200 mil.

Em sociedade com colegas que tinham também deixado a Libra, comprou a corretora Garantia – que viria a ser o banco de investimentos mais poderoso do país.  

A cultura meritocrática

Foi com o Garantia que ele conseguiu implementar o modelo de gestão que tanto sonhava, baseado na meritocracia. Funcionários com alto desempenho ganhavam uma participação no negócio. Lemann acreditava que esta era a melhor forma de reter os melhores talentos.   

No escritório, a jornada de trabalho extrapolava as 8 horas diárias (chegando até a 14h), e o clima era de intensa competição – sem divisória entre as mesas, todo mundo se fiscalizava. 

Os funcionários do Garantia que mais se destacaram foram Marcel Telles e Alberto Sicupira (Beto), que viriam a ser seus sócios (e amigos) de vida. 

Marcel e Beto ocupam hoje a 4ª e a 5ª poisições na lista Forbes dos homens mais ricos do Brasil. 

O Garantia quase foi vendido em 1967 para o banco J.P. Morgan. Mas Lemann conseguiu, com bastante jogo de cintura, acabar com o interesse do J.P. sem se indispor pessoalmente. A venda fazia sentido, mas ele queria crescer sozinho, implementando a cultura que acreditava. 

A compra das Lojas Americanas e da Brahma

Em 1983, o Garantia adquiriu as Lojas Americanas e se tornou o primeiro banco a comprar uma empresa de outro setor para atuar diretamente na sua gestão. Quem tocou o negócio foi Beto Sicupira. Em um semestre, as Americanas já valiam mais do que na data da aquisição pelo Garantia.

Em 1989 o Garantia adquiriu a Brahma, que na época estava passando por maus bocados. Marcel Telles foi o encarregado de tocar o mais novo negócio. 

O trio – Lemann, Sicupira e Telles – sempre se inspiraram nos grandes, como o banco Goldman Sachs e o Walmart. 

Assim como Beto havia feito nas Lojas Americanas, Marcel revirou a Brahma de cabeça pra baixo: demitiu muitas pessoas, criou uma política de distribuição de bônus para os melhores profissionais, e chegou até a tirar as vagas prioritárias dos executivos no estacionamento. Dois anos depois a Brahma foi eleita pela revista Exame como a Empresa do Ano.

Brahma foi eleita a empresa do ano em 1991

Venda do Banco Garantia

Sob a gestão de Lemann, em 1994 o Banco Garantia se tornou o banco mais poderoso do país. A época, 7% de todo o volume negociado na bolsa de valores passou pelo banco Garantia. 

Mas muita coisa acabou acontecendo entre os anos 1990 e 2000. Entre elas o afastamento de Lemann por conta de um infarto em 1994, e a crise asiática que fez a instituição perder US$ 110 milhões. O Banco Garantia foi vendido para o Credit Suisse em junho de 1998. “Foi muito triste. Aquilo era uma paixão. Foi construído com o maior carinho e foi suado pra burro”, disse Lemann certa vez.

Foi também em 98 que os três sócios fundaram a primeira empresa do tipo private equity do Brasil: a GP Investimentos.

Ambev, Inbev e AB InBev

Em 1999, o trio arquitetou a compra da principal rival da Brahma, a Antarctica, dando origem à American Beverage Company (Ambev). Nos anos seguintes, a Ambev seguiu fazendo aquisições. Comprou a paraguaia Cerveceria Nacional, em 2001, e a argentina Quilmes, em 2002.

Em 2004, a Ambev anunciou a fusão com a belga Interbrew, fabricante da Stella Artois. Quatro anos se passaram, e a então InBev comprou a americana Anheuser-Busch, dona da marca Budweiser. A última aquisição do grupo se deu em 2015, com a compra da concorrente sul-africana SABMiller. Esta última aquisicão, no entanto, fez dobrar a dívida da gigante global de cervejas.

Na videoconferência da Brazil Conference at Harvard & MIT, em maio deste ano, Lemann comenta: 

“Fomos um pouco ambiciosos demais cinco anos atrás, ao fazer uma grande compra, a da SAB Miller. Nós pagamos caro por aquilo e isso também tirou o nosso foco do negócio para lidar com novas coisas, com uma nova companhia. Isso dificultou as coisas um pouco, mas estamos consertando isso. Ter de lidar com esse problema nas atuais circunstâncias, com o vírus, faz as coisas um pouco mais difíceis, mas estamos confiantes”.

3G Capital 

Lemann, Sicupira e Telles criaram, em 2004, a 3G Capital. A empresa foi fundada para alocar parte do patrimônio do trio em empresas americanas. Esse fundo comprou marcas internacionais, como a Burger King e a Heinz.

Filantropia

Desde 2012, Jorge Paulo Lemann vem dedicando um tempo maior aos seus projetos na área de educação. Ele tem duas grandes fundações filantrópicas: a Fundação Estudar e a Fundação Lemann.

A Estudar custeia bolsas de estudo para jovens fazerem graduação e pós-graduação no Brasil ou no exterior. Uma das bolsistas da Fundação Estudar foi a deputada Tábata Amaral que estudou, assim como Lemann, em Harvard. 

A Fundação Lemann, por sua vez, é focada em ajudar a melhorar a qualidade da educação pública no país.  

Jorge Paulo Lemann

Fundação Estudar custeia bolsas de estudo para jovens

Família Lemann

Jorge Paulo Lemann teve seis filhos, três do primeiro casamento e três do segundo. Todos seguiram caminhos diferentes. 

Desde o início, os três sócios definiram que seus filhos e filhas não poderiam trabalhar nas empresas do Grupo. Como herdeiros, alguns deles participam de conselhos de administração.