JBS (JBSS3), BRF (BRFS3) e Marfrig (MRFG3) têm compra reiterada por corretora

Osni Alves
Jornalista (2007); Especializado em Comunicação Corporativa e RP (INPG, 2011); Extensão em Economia (UFRJ, 2013); Passou por redações de SC, RJ e BH (oalvesj@gmail.com).
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Corretora de investimento reajustou o preço-alvo de três companhias do segmento de proteínas. São elas: JBS (JBSS3), Marfrig (MRFG3) e BRF (BRFS3), todas com recomendação de compra.

De acordo com a analista Betina Roxo, a primeira passou a R$ 35 por ação, a segunda a R$ 18 por ação e a terceira a R$ 30 por ação.

Betina elencou que estas empresas possuem margens mais voláteis em cenário ainda positivo, e bons resultados operacionais impulsionados pelas exportações.

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Também benéfico potencial de realocação no consumo das proteínas para empresas bem posicionadas, e ações em patamares atrativos.

Por fim, a analista destacou o consumo de caixa no primeiro trimestre e impacto negativo do câmbio na dívida.

Segundo ela, em 2020, o setor de proteínas tem sido um dos mais resilientes em meio aos impactos do coronavírus.

Isso mesmo frente às rupturas de oferta, principalmente nos EUA, e da volatilidade nas margens.

“Reiteramos nossa recomendação de compra e vemos as ações negociando com desconto para os três nomes”, disse.

 

JBSS3: margens mais voláteis, mas cenário positivo continua

De acordo com Betina, um dos principais destaques da teleconferência de resultados da JBS foi a discussão em torno das margens das operações neste curto prazo.

Estas têm vindo abaixo do que o mercado esperava. “De fato, quando observamos o mercado ‘spot’ de preço da carcaça de boi e preço do gado, vemos um aumento significativo das margens nos EUA”, disse.

Ou seja, sobra boi no pasto mas falta proteína na prateleira. “Porém, essa conta não leva em consideração, por exemplo, gastos com medidas adotadas pelas empresas para evitar contaminação pelo coranavírus”, destacou.

Isso faz com que as empresas deixam de diluir custo fixo por conta de absenteísmo ou plantas fechadas. Por isso, as margens variam de acordo com as operações das empresas.

Pra ela, cerca de 40% do resultado da JBS vem de carne bovina nos EUA, entretanto, a empresa reforçou em sua teleconferência de resultados que é cedo para fazer qualquer previsão, uma vez que a volatilidade seria praticamente diária.

“De qualquer forma, nas últimas duas semanas a produção teria aumentado nas plantas nos EUA, com a JBS rodando acima da taxa de utilização média da indústria, potencialmente indicando melhora do cenário”, ressaltou.

MRFG3: forte exposição nos EUA

Conforme Betina, a Marfrig também possui forte exposição nos EUA, com 70% do resultado em 2019 vindo do país.

Uma das explicações para a boa performance das ações da Marfrig desde o início do surto de coronavírus é que suas plantas foram menos afetadas do que as de concorrentes.

Adicionalmente, a empresa segue construtiva com o mercado norte-americano no médio prazo, devido uma combinação de maior oferta de gado favorecendo o crescimento do volume de processamento.

Também pela manutenção da forte demanda por proteína bovina no mercado doméstico, e volumes de produtos prontos para o consumo impulsionados pela quarentena, sendo que tal linha tem maior margem para a empresa.

MRFG3: exportações

Para Betina, as exportações impulsionaram resultados no primeiro trimestre e seguem pujantes, visto que no Brasil já somam quase dois milhões de toneladas, valor 8% superior à quantidade exportada no mesmo período de 2019.

Do lado de preços, também houve um aumento significativo. Enquanto no primeiro quadrimestre o Brasil exportava carne a um preço médio de US$ 2,17 por quilograma, neste ano o patamar se elevou 10% para US$ 2,37.

Dessa forma, houve um aumento de 18% no faturamento do quadrimestre em dólares, que foi de US$ 4,7 bilhões nestes primeiro quatro meses de 2020, e aumento significativo no faturamento em reais, devido à depreciação da moeda brasileira.

MRFG3: China e Hong Kong

Ela elenca que China e Hong Kong foram o destino de 35% das exportações brasileiras de carne (em volumes) no primeiro quadrimestre de 2020.

A grande China representou 48% do faturamento, uma vez que a região pagou um prêmio de 34% em relação ao preço médio de exportação do período.

Em comparação, no mesmo período do ano passado, China e Hong Kong representavam 26% dos volumes e 32% do faturamento.

Ou seja, o país asiático vem aumentando significativamente sua representatividade nas exportações brasileiras.

Para as grandes empresas exportadoras, como BRF, JBS e Marfrig, o fato das exportações seguirem pujantes é bastante importante, porque favorece a manutenção de margens elevadas, apesar de volatilidade na indústria e dos impactos na demanda com a desaceleração econômica no Brasil.

“Olhando para frente, esperamos que o cenário externo siga favorável, e que a China siga cada vez mais relevante, uma vez que o país segue afetado pela peste suína africana, que dizimou cerca de metade do seu plantel de suínos em 2018”, frisou.

Preferência do consumidor

Para a analista, outra discussão muito relevante é a preferência do consumidor entre proteínas, que é fortemente influenciada pela relação de preços.

No Brasil, possivelmente haverá aumento do consumo de frango em detrimento da carne bovina, o que seria positivo para a BRF no país, e para a Seara também (da JBS).

Isso porque com a desaceleração econômica e diminuição da renda disponível, e com a recente queda nos preços do frango congelado diante da possibilidade de sobre-oferta no setor, a carne de frango está se tornando cada vez mais atrativa para os consumidores.

Por outro lado, nos Estados Unidos, espera-se uma recuperação econômica mais rápida. Adicionalmente, trata-se de um país desenvolvido, com maior renda disponível, o que favorece o consumo de carnes mais caras como a bovina.

Cerca de 40% do resultado da JBS e cerca de 70% do resultado da Marfrig vem do segmento de bovinos nos EUA.

Segundo as empresas, a demanda por carne bovina no país segue sólida. A Marfrig, por exemplo, reforçou que diante de um cenário de demanda forte, aliada à redução da capacidade de produção nos EUA, as margens devem seguir acima daquelas praticadas no ano passado.

Além disso, empresas bem posicionadas geograficamente e com portfólio amplo de produtos são favorecidas neste cenário. No quesito diversificação geográfica e de produtos, a JBS se destaca.

Ações em patamares atrativos

As ações da Marfrig acumulam alta de 30% no ano, enquanto as da JBS caem 23% e as da BRF caem 37%. Comparativamente, o Ibovespa cai 31% no ano.

Levantamento da indica-se que as três ações negociam abaixo dos patamares históricos, reforçando a tese de compra.

A gestora diz acreditar que a performance da BRF tem sido inferior por dois principais motivos, como cerca de metade do resultado vem do mercado brasileiro, que pode ser mais impactado pela desaceleração econômica, ao passo que competidoras como Marfrig e JBS tem cerca de três quartos dos seus resultados vindo dos EUA, um mercado tipicamente mais resiliente.

Também pela maior preocupação quanto ao endividamento da BRF, apesar deste se encontrar em patamares saudáveis.

Por fim, corretora prevê que os valores do consenso ainda não contemplam os novos números do período, tampouco um câmbio mais depreciado, fatores que favorecem as empresas do setor. “Ou seja, ainda vemos potencial de revisões positivas nas estimativas do mercado”, disse.

Caixa e câmbio

Para a analista, as empresas de proteínas no geral têm alta exposição da dívida em dólares e, portanto, a variação cambial tem efeito negativo no balanço.

Porém, vale observar que o impacto só é caixa no momento de pagamento da dívida, quando há marcação a mercado da dívida em questão.

As três empresas tiveram esse impacto não-caixa no primeiro trimestre, devido a forte alta do dólar.

Por outro lado, os pagamentos das dívidas se concentram no longo prazo. JBS possui 94% das dívidas no longo prazo, BRF 83% e Marfrig 75%.

Vale destacar que na teleconferência de resultados da Marfrig, a empresa disse que o refinanciamento do bridge loan (relativo à compra de 31% da participação adicional em sua subsidiária nos EUA) está em fases avançados de negociação, o que tornaria o perfil da dívida de 85% no longo prazo e 15% no curto prazo, enquanto o empréstimo seria para três anos.

Geração de caixa

Sobre geração de caixa, o primeiro trimestre do ano tem, sazonalmente, a característica de consumir caixa, devido à concentração de pagamentos de fornecedores e recomposição de estoques, principalmente aos produtores de carne bovina.

A Marfrig, foi o principal destaque negativo no trimestre em relação a consumo de caixa, dado que além do efeito sazonal, a empresa liquidou R$ 938 milhões em operações de capital de giro.

Do lado positivo, tal operação resultou na economia estrutural de R$ 100 milhões na linha de “Outras Receitas e Despesas Financeiras” em relação ao quarto trimestre de 2019.

O fluxo de caixa livre recorrente foi positivo em R$ 243 milhões quando eliminado os efeitos extraordinários da liquidação das operações de capital de giro e do bônus de R$ 759 milhões ligados à operação da América do Norte, que ocorrem todo primeiro trimestre do ano (18% do Ebitda do ano que passou ou 20% do lucro, desde que a operação norte americana tenha lucro líquido).

Segundo a companhia, haverá normalização já no segundo trimestre e esperamos geração de caixa positiva em 2020.

“Food for Thought”: Beyond Meat já vale quase uma JBS

De acordo com Betina, a discussão sobre carne vegetal vinha se intensificando há alguns meses e atingiu seu pico durante a quarentena, com o consumo por alimentos em alta.

A Beyond Meat é uma das empresas de alimentos que mais cresce nos Estados Unidos, ofertando um amplo portfolio de carnes vegetais (“plant-based”).

Durante o período, suas receitas cresceram 141%, atingindo quase cem milhões de dólares (pouco mais de 1% da receita da JBS no trimestre).

Na divulgação de resultados, a empresa destacou que, a despeito da redução das vendas para bares e restaurantes (canal do foodservice), a demanda por proteínas vegetais segue forte mesmo durante a quarentena, impulsionada pelo aumento do consumo no domicílio.

Atualmente, a empresa tem uma capitalização de mercado de US$ 9 bilhões, ou cerca de R$ 50 bilhões. Dessa forma, aproximadamente, a Beyond Meat vale mais de cinco vezes a Marfrig (R$ 9 bi), 2,8 vezes a BRF (R$ 18 bi) e quase uma JBS (R$ 57 bi).

Vale lembrar que a JBS é a maior produtora global de carne bovina e de frango, além de ser a segunda maior empresa de alimentos do mundo em termos de receita, perdendo apenas para a Nestlé.

Nesse contexto de ascensão da proteína vegetal, JBS, Marfrig e BRF também vêm se posicionando neste mercado, respectivamente, com as marcas Seara Incrível, Revolution Burger e Veg&Tal.

O hambúrguer vegetal da Seara Incrível, lançado no final de 2019, vendeu seis vezes mais do que o esperado, de acordo com o time de marketing da JBS.

Tal sucesso levou a empresa a lançar uma linha completa 100% vegetal, mas com sabor e textura de carne, que inclui empanados, kibes, salsichas e pratos prontos.

No primeiro trimestre de 2020, de acordo com dados da Nielsen, a Seara atingiu a liderança do mercado de proteína vegetal com a linha Incrível.

Veja o desempenho da JBSS3 na Bolsa:

Fonte: tradingview.

Marfrig

Já a Marfrig conta com seu Revolution Burger, que já era vendido para a rede Burger King desde o ano passado, e passou a ser comercializado também pelo Outback em fevereiro deste ano.

A Marfrig tem parceria com uma empresa americana, a ADM, que desenvolve a matéria prima por trás do hambúrguer vegetal, enquanto a empresa brasileira realiza o processamento.

Das onze linhas de produção na planta da Marfrig em Várzea Grande, no Mato Grosso, três são dedicadas para a produção do Revolution, mas este número pode aumentar à medida que a parceria entre as duas empresas ganhar corpo, inclusive com a possibilidade de exportar os produtos vegetais para outros mercados como a Ásia.

Veja o desempenho da MRFG3 na Bolsa:

Fonte: tradingview.

BRF

Por fim, a BRF lançou em março deste ano sua própria linha de produtos vegetais, chamada Veg&Tal.

Assim como a linha da Seara, conta com produtos variados, que incluem hambúrgueres, tortas e nuggets.

A linha da Seara (JBS), no entanto, foi tida como mais “assertiva” por alguns consumidores, por não incluir nenhum ingrediente de origem animal, enquanto as tortas da Sadia têm laticínios e ovos.

Veja o desempenho da BRFS3 na Bolsa:

Fonte: tradingview.