IPOs: Empresas desaceleram ritmo de aberturas de capital

Felipe Moreira
Especialista em Mercado de Capitais e Derivativos pela PUC - Minas, com mais de 7 anos de vivência no mercado financeiro e de capitais. Apaixonado por educação financeira e investimentos.
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Crédito: IPO Ambipar

Depois da onda de ofertas iniciais de ações (IPOs) no mercado brasileiro nos últimos meses, existem alguns sinais de que a janela de captações pode estar se fechando. Além de ofertas saindo com preço abaixo da faixa indicativa, algumas empresas têm decidido suspender suas ofertas.

O caso mais recente foi da Compass, controlada pela Cosan, que anunciou a desistência nesta segunda-feira (28). Antes, houve a You Inc e Riva 9, ambas de construção civil, e do banco BR Partners. A Caixa Seguridade, que faria o maior IPO do ano, anunciou que decidiu esperar.

Há alguns meses, outras cinco empresas suspenderam o processo (Vamos, Allided, Canopus, BBM Logística e Almeida Junior).

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Além disso, algumas ofertas vieram com o preço abaixo da faixa indicativa. Desse grupo fazem parte três subsidiárias da Cyrela (CYRE3), a Cury, a Plano & Plano e a Lavvi. As ações da Pague Menos também saíram abaixo da faixa indicativa de preço.

Já entre as precificações mais recentes, a Hidrovias Brasil e a Melnick tiveram suas ações precificadas no piso da faixa indicativa de preço.

Cenário mais desafiador

Somente neste ano, 56 companhias protocolaram o pedido de autorização para abertura de capital junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Desse total, 17 empresas já estrearam em Bolsa, movimentando mais de R$ 20 bilhões, conforme dados da CVM. No ano passado, para efeito de comparação, apenas cinco empresas realizaram IPO (Vivara, C&A, BMG, SBF e Neoenergia).

As companhias brasileiras tentam emplacar seus IPOs para aproveitar o fato de o mercado estar líquido, devido ao aumento dos investidores pessoas físicas na B3.

O fato da Selic estar na mínima histórica de 2% ao ano também contribuiu para maior procura por ações.

No entanto, no mês passado, o Ibovespa interrompeu sua trajetória de recuperação e atualmente opera abaixo dos 100 mil pontos.

Nas últimas semanas, a falta de um acordo no Congresso americano por mais estímulos econômicos tem aumentado a volatilidade do mercado. Além disso, o aumento de casos de Covid-19 na Europa pode comprometer a recuperação econômica.

Questão fiscal

Já no mercado doméstico, os ativos brasileiros são atrapalhados pelo aumento do déficit fiscal. Essa questão tende a gerar um peso extra com a proposta lançada pelo governo de substituir o Bolsa Família pelo Renda Cidadã, usando recursos de precatórios e do Fundeb. A medida foi vista com um drible no teto de gastos e uma “pedalada” nas contas públicas.

Somem-se a isso a falta de acordo para a reforma tributária e as eleiçoes desse ano, que tendem a paralisar o Congresso.

“O quadro que começa a ficar mais negativo para os mercados, daí a possibilidade de suspensão dos IPOs começa a ganhar força”, afirma Alvaro Bandeira, sócio e economista-chefe do banco digital Modalmais.

Ele destaca que o Ibovespa está travado perto dos 100 mil pontos nos últimos três meses.

De acordo com Bandeira, o governo federal tem “flertado” com o populismo, evitando que sejam feitos ajustes importantes na economia.

Próximos IPOs

Para amanhã, está mantido o início das negociações das ações da Bolsa da Boa Vista. Nos próximos dias está prevista a estreia da Pacaembu Construtora, em 05 de outubro. Na sequência, Sequoia Logística em 07 de outubro e o Grupo Matheus em 13 de outubro. As demais ofertas seguem análise, sem um cronograma estimado definido.

Apesar da desaceleração dos IPOs, ainda é cedo para dizer que a janela de oportunidades se fechou. Segundo o sócio e gestor da Butiá Investimentos, Leandro Saliba, o fato de que a Selic ficará baixa por um longo período deve sustentar um certo ritmo de aberturas de capital na bolsa.

No entanto, ele destaca que as operações deverão ser muito bem analisadas pelos investidores. “Os investidores estão mais desconfiados porque as bolsas têm caído lá fora”, explica. Segundo ele, o contrário ocorre quando os mercados estão em alta.

De acordo com Saliba, a grande desvantagem de entrar em um IPO é não ter um histórico sobre os resultados da empresa. “O investidor tem que ficar alerta porque os bancos sempre vão contar belas histórias na hora de estruturar as operações”, explica.