IRB (IRBR3): entenda por que é preciso ter cautela com a resseguradora

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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“Comprar na baixa para vender na alta”. Será que a máxima se aplica ao IRB Brasil Resseguros (IRBR3)? A empresa vive em 2020 um dos piores anos de sua história e precisa ser encarada com cautela, na visão dos analistas.

Para a grande maioria deles, a empresa está desacreditada depois de uma série de polêmicas e escândalos. Eles incluem desde fraudes contábeis até notícias falsas envolvendo o mega investidor americano Warren Buffett.

Outras casas enxergam um futuro mais promissor, de uma empresa que se viu muito exposta e, agora, com nova gestão, fará de tudo para manter a transparência e não sair mais dos trilhos.

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O fato é que as ações do IRB começaram em 2 de janeiro cotadas a R$ 39,89. Em 31 de janeiro, alcançaram o pico de R$ 44,83. Em 19 de agosto, valem R$ 7,55. Um tombo de mais de 80% que assusta.

IRB: recomendação de cautela é unânime

A opinião unânime dos analistas, no entanto, é que todos devem ter cautela ao estudar a compra destes papéis. E preferencialmente ficar longe do “efeito manada” provocado principalmente pelas redes sociais. O IRB caiu na boca do povo, sem que as pessoas mal entendessem o que ele faz. (Bem resumidamente: ele vende seguros para as seguradoras).

“Notícias recentes falam de 200 mil pessoas físicas entrando na base de acionistas. A empresa é muito citada nas redes sociais, mas temos dúvida quanto à operação da companhia. O que vemos é um grau especulativo muito grande”, afirma Ilan Arbetman, da corretora Ativa. Ele mantém recomendação neutra de compra para as ações da companhia.

“As pessoas podem se sentir atraídas pelo preço baixo da ação. Mas, como analista, tenho o dever de relatar que o IRB de hoje é muito diferente do de outrora”, ele alerta.

O que é o IRB?

O IRB foi criado em 1939, pelo então presidente Getúlio Vargas. O objetivo era garantir cobertura nacional aos riscos dos seguros – o que, até então, só era contratado no exterior. Até 2007, a empresa detinha o monopólio legal do setor.

Para entender o que o IRB faz, imagine um desastre natural em que uma seguradora precisa arcar com um custo gigante de verbas indenizatórias. Para reduzir os riscos em situações como essas e garantir que vai honrar seus compromissos, as seguradoras contraram resseguradoras. Dessa forma, as resseguradoras, como o IRB, reduzem os riscos desse mercado.

Em 2013, o IRB foi privatizado. Quatro anos depois, a empresa concluiu sua Oferta Pública de Ações (IPO), movimentando R$ 2 bilhões.

Mesmo depois do IPO, a empresa continou sendo controlada pela União e por grandes bancos, como o Banco do Brasil. Em 2019, os dois venderam suas participações por R$ 7,4 bilhões. Com isso, a companhia se tornou uma “corporation”, ou seja, sem controle definido.

Em 2018, as ações do IRB foram as que mais se valorizaram dentre as empresas que compõem o IBrX 100. Este índice reúne as 100 ações de maior negociabilidade e representatividade do mercado. No ano passado, a companhia chegou a ser premiada por sua governança corporativa.

Como começou a confusão

No começo de fevereiro deste ano, no entanto, o vento começou a virar. A corretora carioca Squadra publicou uma carta acusando o IRB de inconsistências nas suas divulgações de resultados.

“Tem nos intrigado a excepcional rentabilidade, baixa volatilidade e alta previsibilidade guiada para uma empresa do setor de seguros”, afirmou a Squadra. “Chama atenção que tenhamos no Brasil a empresa distanciadamente mais rentável e mais cara do mundo no segmento.”

O IRB negou as irregularidades e ainda acusou a Squadra de tentar derrubar os preços das ações em interesse próprio, já que possuía uma posição short ou “vendida” (que lucra quando o preço da ação cai) com papéis do IRB.

No dia 26 de fevereiro, o executivo Ivan de Souza pediu demissão da presidência do Conselho do IRB.

Até Warren Buffett entra na roda

No dia seguinte, o executivo-chefe, José Carlos Cardoso, e o chefe financeiro de operações, Fernando Passos, disseram em uma teleconferência que o mega investidor Warren Buffett havia comprado uma participação no IRB.

Buffett não só negou como afirmou que não compraria nem nunca teria intenções de comprar papéis da empresa.

“Surgiram relatos recentes na imprensa brasileira que a Berkshire Hathaway Inc. teria se tornado acionista da IRB Brasil RE. Esses relatos são incorretos. A Berkshire Hathaway não é atualmente um acionista da IRB, nunca foi acionista da IRB e não tem intenção de se tornar acionista da IRB”, afirmou a empresa de Buffett em comunicado.

Os dois executivos foram demitidos depois disto. Um processo de investigação foi aberto para apurar irregularidades.

Auditoria realizada pela KPMG e pelo escritório Felsberg Advogados apontou que entre fevereiro e março de 2020 foram realizadas operações de recompra de ações da companhia que ultrapassaram as quantidades autorizadas pelo Conselho de Administração.

As fraudes envolveriam ainda bônus atrelados à alta da empresa na bolsa, o que ajuda a elucidar um pouco a divulgação de mentiras para impulsionar o preço das ações. O pagamento dos supostos bônus somaria cerca de R$ 60 milhões.

“Quando você perde o rumo da governança, é muito difícil se reestruturar”,  diz Ilan Arbetman, da Ativa. “Depois de todos esses eventos e da troca quase completa de diretoria, acreditamos que houve uma ruptura do modelo de negócio. Isto não vai se recompor nem no curto, nem no médio prazo”.

Aumento de capital

No mês de agosto, já com nova diretoria atuando – o novo presidente é Antônio Cássio dos Santos -, a empresa levantou R$ 2,07 bilhões por meio de um aumento de capital.

Bradesco e Itaú Unibanco, os principais acionistas do IRB, aportaram R$ 600 milhões na empresa.

Perdas com pandemia

Além da questão da confiança, o IRB também enfrenta perdas com a pandemia de coronavírus. E elas coincidem com o mesmo período dos escândalos.

A empresa registrou um prejuízo líquido de R$ 393 milhões entre abril e maio, segundo comunicado emitido pela mesma. Isso representa 11% do valor contábil do primeiro trimestre. Com a pandemia, houve um grande salto no índice de sinistralidade, que atingiu 123%, alega o IRB.

A divulgação dos resultados do segundo trimestre do IRB serão conhecidos apenas no dia 28 de agosto.

Mudanças na gestão do IRB são positivas

Ainda em meio a essa tempestade, o IRB conseguiu ganhar pontos no mercado com a mudança de gestão. “Nós realmente apreciamos as mudanças. Elas colocam a empresa de volta no caminho certo e tornam as ações ‘investíveis’ novamente”, diz um relatório do BTG.

“Dada a força de sua marca e os relacionamentos construídos ao longo de décadas, ainda acreditamos que o IRB pode continuar registrando um ROE melhor do que seus pares locais”, complementa o documento.

O ROE, retorno sobre o patrimônio, mede a capacidade de uma empresa agregar valor a partir de seus próprios recursos e do dinheiro de investidores. E o IRB era o que melhor performava em seu setor, mais até do que empresas estrangeiras bem maiores.

No entanto, os analistas do BTG ressaltam: “continuamos cautelosos”.

Para Carlos Daltozo, Daniela Bretthauer e Renata Cabral, da Eleven, é preciso focar no filme completo e não na fotografia ruim.  “Temos uma visão mais construtiva por entender que a companhia sairá, com vários arranhões, mais fortalecida desta crise”, dizem em relatório.