IPO: tudo o que você precisa saber antes de entrar

Felipe Alves
Jornalista com experiência em reportagem e edição em política, economia, geral e cultura, com passagens pelos principais veículos impressos e online de Santa Catarina: Diário Catarinense, jornal Notícias do Dia (Grupo ND) e Grupo RBS (NSC).
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Crédito: B3/Divulgação

O mercado de capitais brasileiro vive, em plena pandemia, uma nova onda de IPOs (Oferta Pública Inicial). Já está em 24 o número de empresas que pediram, em 2020, autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para serem listadas na bolsa de valores.

Com tantas ofertas a caminho, é natural que os investidores se perguntem se vale a pena ou não participar.

A dúvida tem mesmo razão de ser.  Ao entrar em um IPO, pode-se estar diante de uma ótima oportunidade, mas também de uma grande furada.

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Para não perder dinheiro, antes de mais nada, você precisa saber o que é um IPO, como funciona, quais vantagens e desvantagens. Já explicamos tudo isso neste link.

Se você já conhece esses conceitos básicos, podemos dar um passo à frente para você poder identificar se deve ou não participar das próximas ofertas.

Ofertas em análise

Metade das empresas que está na fila para abrir o capital fez seu pedido à CVM entre fevereiro e março. Ou seja, às vésperas de a pandemia estourar no Brasil.

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“Antes da pandemia em março, as projeções para o PIB brasileiro eram otimistas e as perspectivas setoriais permitiam uma programação de novos investimentos para acompanhar a esperada retomada da economia brasileira”, dizem os analistas da Planner Corretora, em relatório que analisa o novo boom de IPOs. “Os investimentos programados passavam pela capitalização no mercado para um bom número de empresas.”

Com a crise do coronavírus, algumas empresas optaram por adiar a oferta. Das 24 que pediram registro na CVM em 2020, 10 interromperam o processo.   Outras 12 protocolaram o pedido entre julho e agosto e seguem com o trâmite.

Confira abaixo as ofertas em análise:

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  • Igua Saneamento – Interrompida até: 10/09/2020
  • Vamos Locação de Caminhões e Máquinas – Interrompida até: 03/12/2020
  • Allied Tecnologia – Interrompida até: 05/01/2021
  • Canopus – Interrompida até: 7/01/2021
  • BBM Logística – Interrompida até: 6/01/2021
  • Almeida Junior Shopping Center – Interrompida até: 6/01/2021
  • Pet Center (Petz) – Em processo
  • Pacaembu Construtora – Interrompida até: 4/01/2021
  • One Innovation Empreendimentos – Em processo
  • Cury Contrutora e Incorporadora – Em processo
  • Alphaville Urbanismo – Interrompida até: 05/01/2021
  • Tranck & Field – Interrompida até: 6/01/2021
  • Boa Vista Serviços – Interrompida até: 6/01/2021
  • Pague Menos – Em processo
  • Lavvi Empreendimentos Imobiliários – Em processo
  • 2W Energia – Em processo
  • Nortis Incorporadora e Construtora – Em processo
  • Plano & Plano – Em processo
  • Melnick Even – Em processo
  • Compass Gás e Energia – Em processo
  • Companhia Sulamericana de Distribuição – Em processo
  • Kallas Incorporação e Construção – Em processo
  • Patrimar Engenharia – Em processo
  • YUNY Incorporadora – Em processo
  • Oceana Offshore –  Em processo

IPOs já feitos em 2020

Em relatório que analisa a nova onda de IPOs, a Planner  destaca as operações bem sucedidas do início de 2020.

“Dentre as empresas que vieram a mercado neste ano, destaque positivo para a Locaweb (LWSA3), empresa que se beneficiou com a rápida expansão do e-commerce, com valorização expressiva desde seu início na B3 em fevereiro, chamando a atenção de grandes fundos estrangeiros para posicionamento na ação”, destaca a corretora.

A empresa saiu de um valor de mercado de R$ 2,1 bilhões para R$ 5,4 bilhões após o IPO feito em 5 de fevereiro.

Resultado das empresas que vieram a mercado em 2020

Ambiente favorável para IPOs

Um cenário inédito no Brasil, com inflação e juros baixos, abriu uma janela de oportunidades para empresas se capitalizarem na bolsa.

Outro fator que contribui para isso é o crescimento substancial no número de investidores pessoas físicas na B3. Passou de 619,6 mil em 2017 para 2,65 milhões até junho de 2020.

Com isso, a liquidez média diária na B3 aumentou de R$ 12,2 bilhões em 2018 para R$ 15,2 bilhões em 2019. Neste ano, até 14 de julho, a média diária foi de R$ 25,8 bilhões.

Há ainda a valorização do dólar em relação ao real. “Considerando que, nos últimos anos, os estrangeiros absorveram a maior parte dos lançamentos realizados, a paridade atual entre as duas moedas é mais um atrativo para a venda de papéis a estrangeiros. Em momentos de economia estável e sem novos fatores para atrapalhar, a bolsa brasileira tem mostrado bom desempenho e os investidores tendem a olhar o mercado de ações como alternativa de ganho no médio e longo prazo”, dizem os analistas da Planner.

Estudo e calma contra a euforia

Mas nem sempre um IPO é positivo. Por isso, é preciso estudar muito antes de se tomar uma decisão.

Muitos casos de insucessos resultaram em pesadas perdas para os investidores. Parte pela conjuntura adversa e uma parcela atribuída ao setor de atuação e à gestão das empresas.

A Planner destaca alguns pontos que o investidor deve ficar atento antes de entrar em um IPO:

  • Tenha uma visão panorâmica do setor de atuação da empresa e as perspectivas de médio prazo. Leve em conta a dependência do crescimento da economia doméstica e do mercado internacional, cadeia de suprimentos, posicionamento da empresa no segmento de atuação;
  • Visualize de forma ampla os diferenciais da empresa (pontos fortes) e os riscos do setor e do negócio propriamente dito;
  • Avalie a competitividade da empresa, seu posicionamento no setor e no segmento de atuação;
  • Leve em conta o nível de automação e transformação digital da empresa. É importante entender o grau de dependência das companhias para continuarem competitivas neste novo ambiente de mercado;
  • Compare os principais múltiplos de retorno esperados pela nova empresas com as “peers” do setor;
  • É importante entender e acompanhar na fase subsequente, a destinação dos recursos captados e seu efeito sobre os resultados.

A Planner fez um comparativo dos IPOs de 24 companhias entre 2017 e 2020. Dessas, 7 tiveram valorização acima de 100% desde o IPO e 9 delas estão no negativo. O destaque positivo foi para Banco Inter (+496%), Intermédica (308%), Hapvida (179%) e Locaweb (154%).

Observa-se que os investidores estrangeiros participaram ativamente das ofertas primárias, mas saíram do mercado secundário.

Valorização das empresas desde o IPO de 2017 a 2020

Aprendendo com as crises

Os analistas lembram que a entrada de empresas na Bolsa e a capitalização não são garantias de sucesso. Nem para as empresas e nem para os investidores.

“A história mostra que, a despeito de momentos distintos na economia e na política o boom no mercado de capitais em 2007 trouxe muitas alegrias, mas também muitas decepções para os investidores”, pontuam os analistas.

Por isso, em meio à crise do coronavírus, é importante olhar para o que aconteceu em 2007. Naquele ano, a conjuntura econômica estava favorável e o mercado vinha de um longo período de poucos lançamentos novos.

O capital estrangeiro mostrava bastante apetite pelas ações brasileiras num momento em que havia uma crise de crédito nos mercados europeu e norte-americano, que explodiria no ano seguinte.

“O ambiente favorável atraiu muitas empresas para o mercado de capitais, ainda que parte delas não estivesse bem preparada para uma mudança profunda de comportamento e novos desafios. O maior exemplo foi observado no setor imobiliário que chegou a ter mais de 20 companhias listadas. Em poucos anos o otimismo exagerado não se confirmou e a maioria das incorporadoras e construtoras amargou grandes prejuízos”, afirma a Planner.

E em 2020? Por enquanto, a reação do mercado tem sido positiva após o baque sentido pelos efeitos do coronavírus. Mas o movimento não conta com a participação do investidor estrangeiro. Ou seja, até 23 de julho os estrangeiros já haviam retirado R$ 68,9 bilhões do Brasil.

Os analistas da Planner lembram que “2020 desenhava um cenário bastante apropriado para um grande movimento de novas empresas na bolsa”.  No entanto, mesmo com a pandemia, a reação do mercado tem sido positiva. Isso nos leva a crer que no pós-pandemia a bolsa poderá receber nova injeção de ânimo”, afirmam.