Investimentos públicos fortes são solução para crise, diz FGV

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução/Agência Brasil

Enquanto a equipe econômica do governo aposta na retomada dos investimentos via iniciativa privada, um artigo de pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) sugere o contrário. Para eles, é do governo que devem partir os projetos mais ambiciosos do país.

No texto, os pesquisadores Claudio Considera, Juliana Trece e Elisa Andrade afirmam que uma saída viável à crise decorrente do coronavírus é um amplo programa de investimentos públicos.

Para eles, somente uma atuação forte do governo estimularia o setor privado a investir e empregar mão-de-obra.

Os pesquisadores afirmam que foi frustrada a tentativa do governo de deixar as contas em dia com a Reforma da Previdência e tentar uma rápida aprovação da Reforma Tributária.

Isto não aconteceu e a consequência foi um crescimento muito lento nos últimos anos. E que se repetiria em 2020, mesmo sem o coronavírus.

Afirmam os pesquisadores:

“A crença das autoridades brasileiras e de grande parte dos economistas era: ‘fazem-se todas as reformas e o país seria inundado de investimentos, tanto externos quanto internos’. Aprovada a reforma da previdência percebeu-se que a prometida reforma tributária com sistemática bastante diversa da estrutura atual não estava equacionada sequer no âmbito do Ministério da Economia, e quiçá no próprio governo e no Congresso Nacional.

Este cenário de incertezas afastou os investimentos, já que as empresas seriam incapazes de fazer os cálculos econômicos necessários de qual seria seu lucro líquido após impostos, que possibilitaria sua tomada de decisões. Além disso, não houve qualquer movimento no sentido de se iniciar um programa de concessões e privatizações de diversos serviços executados de forma limitada e ineficiente pelos poderes públicos nos âmbitos federal, estadual e municipal. Em resumo, não havia, com as informações disponíveis até o momento, perspectivas de que a curva de investimento voltaria a seu já insuficiente patamar de 2013″.

Perspectiva de crescimento já era baixa, mesmo sem coronavírus

Para fazer estas afirmações, os pesquisadores se basearam nos dados do Monitor do Produto Interno Bruto (PIB) até o mês de fevereiro. Ou seja, antes da crise decorrente da pandemia.

Até fevereiro, a taxa de crescimento do PIB permanecia em 1%. Isto é bem abaixo das perspectivas de crescimento de 3% de antes da crise.

“É provável que alguns dirão: que pena! Não fosse a pandemia, o resultado do quarto trimestre de 2019, mostrava que a economia estava bombando, crescendo à quase 3%”, afirmam no artigo.

Para eles, a situação que já estava ruim, não iria melhor, com ou sem coronavírus.

investimentos

O “Plano Marshall” do Brasil

Na quarta-feira (22), o governo anunciou que trabalha na elaboração de um programa de recuperação econômica para o pós-covid-19, batizado de Pró-Brasil.

Nos bastidores, ele vem sendo chamado de “Plano Marshall”, em referência ao plano de recuperação da Europa no pós-Segunda Guerra.

O programa está sob responsabilidade do ministro da Casa Civil, general Walter Souza Braga Netto (foto). E reúne diversos ministérios. A meta é criar 1 milhão de empregos a partir de investimentos públicos de R$ 30 bilhões.

Outros R$ 250 bilhões viriam de projetos de concessões e parcerias público-privadas.

No entanto, o programa tem exposto divergências da Casa Civil com o Ministério da Economia, que segue pregando a contenção dos gastos públicos.

O secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida afirmou ontem que o “verdadeiro Plano Mashall é acelerar as privatizações” e que “insistir para o governo gastar mais depois da crise é um erro”.