Investimento de impacto: por que você não deve ignorar essa onda

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Direcionar recursos para empresas que além de gerar retorno financeiro estejam preocupadas com a sociedade e com o meio ambiente. Em linhas gerais, é disso que se trata o chamado investimento de impacto, um conceito que promete revolucionar o mercado e que já começa a ganhar corpo no Brasil.

Os investimentos de impacto estão diretamente ligados a uma sigla que tem invadido o noticiário recentemente: ESG.

Abreviação de Environmental, Social and Governance, o conceito de ESG indica o grau de comprometimento de uma empresa com questões ambientais, sociais e de governança.

“O ESG veio para ficar. É uma tendência muito forte e a indústria toda vai ter que se atualizar”, diz Paulo de Souza, sócio daEQI Investimentos.

Para ele, o investidor brasileiro ainda não se deu conta dessa mudança, mas é por pouco tempo porque essa onda já começou.

Um exemplo recente foi a Oferta Inicial de Ações (IPO) da Ambipar (AMBP3). A empresa de gestão de resíduos levantou R$ 1,08 bilhão na bolsa. “As ações tiveram alta de 18%, o que demonstra o interesse por este tipo de investimento”, diz Souza.

Meire de Fatima Ferreira, líder de sustentabilidade da consultoria Grant Thornton Brasil, reforça que o movimento não é uma “modinha”. “O desenvolvimento sustentável é um tema que vem evoluindo desde a Eco 92. No meio empresarial, vem ganhando espaço desde a década de 2000”, afirma.

Para ela, a mudança de mentalidade virá por uma questão de princípios ou de sobrevivência mesmo. “Apostar em ESG não é abrir mão de resultados, mas sim perenizar retornos”, avalia.

Movimento no exterior já é forte

A pressão por adotar as melhores práticas ambientais, sociais e de governança já paira sobre os executivos das empresas há algum tempo. O assunto ganhou força esse ano, com grandes investidores se posicionando de forma concreta em relação a isso.

Em janeiro, por exemplo, a BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, anunciou que deixaria de investir em indústrias como a de carvão, mais poluentes. Ao mesmo tempou informou que migraria os recursos para setores mais sustentáveis.

Na carta anual aos investidores, o CEO Larry Fink avisou que elevaria de US$ 90 bilhões para US$ 1 trilhão o valor investido em ativos sustentáveis nos próximos 10 anos.

Recentemente, ele reforçou sua posição ao dizer que o “risco climático também é risco de investimento”.  “Eu sou um ambientalista. Mas mas falo isto (que risco climático é risco de investimento) não como ambientalista. Mas como capitalista”, disse. “Mais e mais clientes do mundo todo me perguntam como pensar nas mudanças climáticas em seus portfólios.”

Investimento de impacto: atenção às “empresas que se importam”

No Brasil, apesar de ainda incipiente, a discussão já toma forma. “O tema parece luxo no cenário atual, mas o ESG vai salvar a gente”, afirmou Florian Bartunek, sócio-fundador e CIO da Constellation Asset, em live sobre o tema promovida pelo BTG Pactual.

“Há 30 anos nós já olhamos para a questão da governança. A parte do ‘S’ (social) começamos a olhar há dois anos atrás. Porque, do ponto de vista dos colaboradores, o mundo mudou. Para manter os melhores colaboradores, você precisa ter boas práticas. Caso contrário, perde talentos e perde clientes”, disse.

E complementou: “A parte do ‘E’ (environmental) é a mais recente e a mais difícil, mas estamos em um processo”, afirmou. “Hoje, o que ouvimos dos clientes é ‘eu quero ser sócio de uma empresa que se importa. Não porque é o melhor investimento, mas porque esta empresa realmente se importa”, complementou.

ESG é estratégico e mitiga riscos

Márcio Roberto Correia, sócio da JGP, seguiu a mesma linha: “Para as empresas, é estratégico apostar em ESG. É uma vantagem competitiva. Você atrai e retém talentos e fortalece a marca”, disse.

“Há um tempo atrás, você atraía um formando com salário. Depois, passou a oferecer benefícios, um ambiente agradável de trabalho. Agora, você que tem oferecer um propósito”, explicou.

Ele citou como exemplo a Tesla, fabricante de carros elétricos, que nasceu com o propósito de resolver um problema ambiental e, claro, também gerar lucros.  No mês passado, a empresa divulgou os resultados do segundo trimestre de 2020. E, mesmo em meio à crise do coronavírus, apresentou lucro pelo quarto trimestre consecutivo.

As mudanças se impõem às empresas

Lá fora e aqui no Brasil, os sinais de que os investidores estão mais atentos aos impactos sociais e ambientais das empresas já estão bem claros.

Nos EUA, a violência policial contra um homem negro gerou uma série de protestos que repercutiram e se replicaram pelo mundo todo, afirmando que “vidas negras importam”.

Nesse contexto, gigantes multinacionais se uniram no movimento “Stop Hate For Profit” (“pare de lucrar com o ódio”), que exigiu medidas do Facebook contra conteúdos racistas e de incitação à violência.

Na Europa, produtos brasileiros estão sendo ameaçados de boicote em protesto à política ambiental do governo de Jair Bolsonaro.

Um grupo de 29 fundos internacionais de investimento enviou uma carta aberta às embaixadas brasileiras dizendo-se preocupado com o desmatamento.

E presidentes de grandes empresas brasileiras assinaram uma carta conjunta entregue ao vice-presidente Hamilton Mourão, exigindo medidas mais rígidas quanto às queimadas.

Ou seja, as questões sociais e ambientais estão se impondo às empresas e aos governos. E o investidor precisa estar de olho nisso.

investimento de impacto

Como identificar as empresas que apostam em ESG?

Para o investidor que deseja direcionar seus recursos para investimentos de impacto, é preciso buscar “selos” que atestem as boas práticas.

Por exemplo, o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) e o Índice de Carbono Eficiente (ICO2) da bolsa de valores brasileira. Há também os índices ligados à governança corporativa – IGC, ITAG, IGCT e IGC-NM.

As empresas brasileiras listadas no Dow Jones Sustainability Index (DJSI) da bolsa americana também são indicadas. Isso porque precisam atender a diversos critérios para estar em um grupo bastante seleto.

Além disso, a transparência das empresas deve ser levada em conta. “Uma prestação de contas sobre gaps existentes e como estão sendo endereçados também é uma clara demonstração do comprometimento”, orienta Meire Ferreira, da Grant Thornton Brasil.

Há ainda no mercado os fundos compostos apenas por empresas selecionadas que atendam a critérios mensuráveis de ESG. Por exemplo, o Santander Ethical FIC Ações e fundos da Warren Brasil, SulAmérica, JGP e XP.

A relevância do ESG

De acordo com a MSCI, empresa responsável por publicar alguns dos principais índices de ações do mundo, os índices ESG em breve serão mais importantes do que os tradicionais.

Em entrevista à Bloomberg, Remy Briand, chefe de pesquisa ESG da MSCI, previu que o parâmetro de sustentabilidade será mais utilizado que o valor de mercado das empresas. Disse também que os investimentos que seguem os índices ESG da companhia devem dobrar neste ano, seguindo a tendência de 2019.

No ano passado, segundo o Morgan Stanley, haviam 281 fundos de investimento nos EUA com foco em ESG. O que representa aumento de 144% no número destes fundos desde 2004.

No Brasil, R$ 534,4 milhões estavam investidos em junho em fundos de ações sustentáveis. O dado é Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). A cifra representa um aumento de 29% em relação ao mesmo mês de 2019.