Bolsa terá abertura tensa, com sell-off e 1° caso de coronavírus no Brasil

Joana Kurtz
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Crédito: Reprodução/Pixabay

Enquanto o mercado brasileiro estava fechado, por conta do feriado de Carnaval, as bolsas lá fora não pararam e o que se viu nos últimos dois dias pode assustar aqueles menos adeptos ao risco: um verdadeiro sell-off nas bolsas dos Estados Unidos, da Europa e da Ásia, causado pela rápida disseminação do coronavírus fora da China.

O sell-off ocorre quando os investidores vendem ações ou outros ativos com rapidez, após determinada notícia negativa. A queda nos preços, em seguida, ativa os robôs programados para se desfazer do ativo, caso este atinja determinado preço, o chamado “stop loss”. O resultado é um efeito em cascata, quando os papéis começam a cair cada vez mais.

Porém, os investidores com maior apetite ao risco e fôlego financeiro para arcar com perdas a curto ou médio prazo podem enxergar essa movimentação como oportunidade de compra.

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De qualquer maneira, os agentes do mercado devem se preparar para uma abertura, às 13h, que refletirá o nervosismo global. Isso porque a tendência é a bolsa se ajustar às perdas que teria tido nos últimos dois dias, se estivesse em funcionamento.

Para se ter uma ideia, o índice EWZ, ETF mais líquido do mundo ligado às ações de companhias brasileiras, negociado em NY, caiu cerca de 6% no acumulado dos últimos dois pregões.

A abertura deve ser marcada pelo pessimismo ainda por causa da possibilidade de um primeiro caso de coronavírus no Brasil.

O governo Federal, por meio do Ministério da Saúde, e as secretarias estadual e municipal de São Paulo investigam e podem confirmar nesta quarta-feira (26) o primeiro caso do coronavírus no Brasil.

De acordo com Folha de S.Paulo, Estadão e G1, o teste de contraprova do paciente deu positivo. Caso seja confirmado, seria o primeiro caso na América Latina da doença.

A expectativa é de que uma coletiva de imprensa seja realizada às 11h.

Segunda-feira: queda generalizada com aumento de casos na Itália e na Coreia do Sul

Na segunda-feira, as bolsas de todo o mundo recuaram. Para se ter uma ideia, em Milão, o FTSE-Mib liderou as perdas na Europa, com queda de 5,43%, a 23.427,19 pontos. A Itália, ao lado da Coreia do Sul, foi um dos focos de atenção nos últimos dias, com a escalada do número de casos de coronavírus.

O FTSE-100 se desvalorizou 3,34% em Londres, a 7.156,83 pontos; o DAX-30 caiu 4,01% em Frankfurt, a 13.035,24 pontos, e o CAC-40 teve queda 3,94% em Paris, a 5.791,87 pontos. Em Madri, o declínio do IBEX-35 foi de 4,07%, a 9.483,50 pontos, e, em Lisboa, o PSI-20 apresentou declínio de 3,53%, a 5.197,09 pontos.

Nos EUA, o índice Dow Jones registrou perda 3,56%, o S&P 500 caiu 3,24%, e a Nasdaq teve queda de 3,71%. Foi o pior pregão do mercado americano em dois anos.

Os principais recibos de ações (ADRs) de companhias brasileiras acompanharam o sell-off, com o ADR da Petrobras e o da Vale chegando a cair 6% e 7%, ao longo do dia.

O ADR da Petrobras foi particularmente afetado pelo declínio dos preços do petróleo. O Brent cedeu 3,71%, a US$ 55,79, enquanto o WTI teve perda de 3,69%, a US$ 51,41 o barril.

Ouro, o refúgio em meio ao temor, tem recorde em 7 anos

O ouro, refúgio dos investidores em momentos de aversão ao risco, por sua vez, subiu 1,57%, na segunda-feira, e se aproximou da marca de US$ 1.700 por onça-peso, atingindo o maior valor em sete anos, diz relatório da XP Investimentos.

“Alguns especialistas estimam já que a cotação do ouro pode passar a marca das US$1.800 por onça”, menciona o documento.

“Segundo a Bloomberg, os fundos de ETF ligados ao ouro físico viram 25 dias consecutivos de fluxo positivo, e com uma demanda total acima de 2.600 toneladas de ouro, um recorde histórico”, cita ainda a XP.

Terça-feira: as perdas continuaram

O dia seguinte, ao contrário do que poderia se supor, não foi de recuperação. O Dow Jones recuou 3,3%, S&P 500 caiu 3,2% e o Nasdaq fechou com retração de 2,8%.

O S&P 500 não registrava quedas consecutivas de mais de 3% desde novembro de 2008, durante a crise financeira, de acordo com o Bespoke Investment Group.

O Dow, por sua vez, se encaminhava para registrar seu pior período de duas sessões desde fevereiro de 2018.

Na Europa, o FTSE-100 caiu 1,94%; o DAX declinou 1,88%; o CAC-40, 1,94%; e o FTSE MIB, 1,44%.

O EWZ, ETF de ações brasileiras, caiu 1,59%. O ADR da Petrobras cedeu 1,91%; e o da Vale, 2,37%.

Acompanhando a piora das bolsas, os preços do petróleo tiveram forte queda nesta terça-feira, com o WTI fechando abaixo dos US$ 50, com queda de 3,07%, enquanto o tipo Brent recuou 2,7%, a US$ 54,78.

CDS

O Credit Default Swap (CDS) do Brasil retornou nesta terça-feira (25) ao patamar dos 100 pontos diante da piora dos mercados registrada nesta semana, com o avanço do coronavírus pelo mundo.

Segundo informações do site World Government Bonds, o valor do CDS de 5 anos brasileiro apresentou uma valorização de 6,72% na última semana – dia 20 de fevereiro estava em 91,8 pontos.

E hoje? O petróleo WTI já opera abaixo de US$ 50 e o minério de ferro se aproxima de US$ 88

Nesta manhã, o EWZ ensaia recuperação de parte das perdas, uma vez que oscilava entre altas e baixas no pré-mercado de Nova York.

As matérias-primas, contudo, resistem a uma recuperação. O minério de ferro segue a trajetória de perda dos últimos dias, com 2,78% na bolsa de Dalian.

No porto de Qindao, o recuo foi de 3,01%, a US$ 88,10 a tonelada.

Os preços do petróleo apontam para um novo pregão negativo, com o WTI operando abaixo do patamar de US$ 50, com queda de 1,52%, por volta das 09h20, no horário de Brasília. O Brent cedia 2,26%, a US$ 53,71.

Os índices futuros das bolsas americanas, por sua vez, oscilam em torno da estabilidade. Já as bolsas europeias continuam a trajetória de queda, embora as perdas se mostrem mais amenas. O FTSE-100 cedia 0,72%, por volta das 09h20; o DAX, 1,04%; e o CAC-40, 0,69%. Por outro lado, o FTSE MIB ensaia recuperação, com alta de 0,56%.

As bolsas asiáticas tiveram queda generalizada nesta quarta-feira, com a bolsa do Japão fechando a -0,79%; da China, a -0,83%; de Hong Kong, a -0,73%; e da Coreia, a -1,28%.

Tá, e aí?

O que fazer agora? Os analistas da XP disse que, como sempre é dito aos investidores, o importante é manter uma carteira diversificada, principalmente neste cenário de elevada incerteza.

“Pensando no mercado de ações especificamente, momentos como esse podem levar a fortes baixas nos papéis no curto prazo, mas empresas com bons fundamentos devem se manter sólidas no longo prazo”, diz relatório da XP.

“Em entrevista à CNBC e em carta aos investidores da Berkshire Hathaway, o investidor Warren Buffet afirmou: ‘Nós compramos negócios para os próximos 20, 30 anos, sejam negócios completos ou parciais. O longo prazo não mudou com o coronavírus'”, acrescenta.

Para a equipe de análise, no curto prazo, a principal preocupação para as empresas se refere ao potencial impacto que uma desaceleração econômica pode ter sobre seus resultados.

“Caso os impactos do surto se prolonguem no médio prazo, poderemos continuar vendo pressão nos preços de ações brasileiras ligadas à economia global, como empresas de commodities (Suzano, Vale), frigoríficos exportadores (JBS, Marfrig, BRF), companhias aéreas e de turismo (Gol, Azul, CVC), além de empresas domésticas de consumo que possam ter seus resultados deteriorados a depender do impacto para a economia brasileira”, dizem os analistas da XP.

“Por outro lado, ações de empresas reguladas, como elétricas e saneamento, podem ser boas oportunidades, já que não são dependentes da economia e pagam dividendos robustos.”

Para tolerar a volatilidade no curto prazo, o ideal é ter uma carteira diversificada, não apenas exposta à renda variável.