Renda fixa: como a instabilidade política afeta o retorno dos prefixados

Natalia Gómez
Editora, é jornalista especializada no mercado de investimentos há 17 anos. Formada pela PUC-SP, teve experiências em veículos como Agência Estado, Valor Econômico e Revista Você SA; e na área de comunicação corporativa e relações públicas para instituições financeiras.

A crise política vivida pelo Brasil está gerando oportunidades na renda fixa, principalmente nos títulos prefixados. Isso porque o mercado está cobrando preços mais altos pelos papéis, uma vez que o risco aumentou.

Em outras palavras, a rentabilidade está maior. Nestes dias, o investidor consegue encontrar boas alternativas de renda fixa prefixada do Tesouro Direto e até em títulos bancários como o CDB.

Antes de continuar, entenda por que as taxas aumentaram.

Juros futuros subiram

Os juros futuros representam a estimativa do mercado para o valor dos juros em algum momento no futuro.

Toda vez que ocorre uma crise ou instabilidade política, os juros futuros sobem. Isso ocorre porque a percepção de risco dos investidores aumenta.

Por isso, eles começam a pedir um prêmio de risco maior para ficarem com os papéis, segundo a economista Andreia Fernanda, fundadora da consultoria de planejamento Rico Foco.

Além disso, a curva de juros é afetada por oferta e demanda. Como os juros no Brasil são mais altos que na média mundial, existem muitos estrangeiros que compram títulos públicos de longo prazo.

Estes estrangeiros tendem a retirar o dinheiro do mercado brasileiro quando ocorre uma crise política.

“A saída do Moro e o receio da saída de Guedes fizeram com que muita gente começasse a tirar dinheiro por causa da crise de confiança”, explica a economista.

Na última sexta-feira, quando o ministro da Justiça Sérgio Moro saiu do governo, houve uma alta expressiva nos juros longos.

Na segunda-feira (27), a turbulência impulsionou muito as taxas pagas pelos títulos do governo. O mercado acalmou um pouco, mas elas continuam em patamares mais altos que nas semanas anteriores.

Isso porque o mercado está preocupado não apenas com a crise política, mas com a pandemia mundial e com a expectativa de aumento da dívida pública do Brasil.

“O mercado começa a precificar estas questões e a exigir mais taxa”, afirma Haroldo Monteiro. Ele é professor de finanças corporativas da Universidade Veiga de Almeida, do Rio.

Veja como se comportaram as taxas do título Tesouro Prefixado 2026 nos últimos 30 dias. Como você pode ver, houve um pico nesta segunda-feira, e ainda hoje as taxas estão elevadas.

Vale destacar que a pandemia mundial já tinha chacoalhado este mercado algumas semanas antes.

Como isso mexe com a sua vida

As maiores taxas nos títulos prefixados trazem oportunidades para quem tem dinheiro para investir.

No entanto, os especialistas destacam que os investidores devem tomar alguns cuidados.

Para você obter a rentabilidade prometida pelo título prefixado na hora da compra, você precisa ficar com o título até o final do vencimento.

Ou seja, no caso do Tesouro Prefixado 2026, você teria que permanecer com o papel por seis anos.

Caso venda antes deste prazo, você corre o risco de perder dinheiro.

Isso ocorre porque os papéis de renda fixa passam por um processo chamado marcação a mercado.

Com isso, os preços mudam todos os dias para quem quer vender e comprar.

A variação de preço depende do patamar dos juros. Em momentos de queda nos juros, o seu título passa a valer mais.

Afinal, este papel passa a ser mais interessante para quem quer comprar, já que não vai encontrar o mesmo preço no mercado.

Em momentos de alta nas taxas, o valor do seu título diminui. Isso porque fica mais interessante para os compradores comprarem os títulos do mercado, e não de você.

Em outras palavras, você só deve comprar estes títulos se puder ficar neles no longo prazo.

“Se houver mais estresse no mercado e a taxa subir mais, você vai perder dinheiro ao vender”, destaca Eduardo Montalban, Diretor de Estratégia e Alocação da Planner Corretora.

Para quem compreende este mecanismo, também existe a possibilidade de lucrar ao vender antes do vencimento. Para isso, você terá que vender o título num momento em que as taxas estejam mais baixas do que a do seu papel.

É assim que investidores profissionais ganham muito dinheiro com o Tesouro Direto.

No entanto, o investidor comum precisa ter conhecimento prévio para fazer este tipo de operação. Outra alternativa é contar com orientação de um assessor de investimentos.

Além do Tesouro Prefixado, o Tesouro IPCA + também tem oferecido taxas melhores. Isso porque ele rende o equivalente à inflação mais um cupom. Este cupom obedece o mesmo raciocínio do prefixado.

Veja como se comportaram as taxas do Tesouro IPCA + 2026.

CDBs também no radar

Os CDBs, títulos de renda fixa emitidos pelos bancos, também estão no radar dos investidores.

É possível encontrar taxas atraentes, principalmente nos bancos de segunda linha e nos prazos mais longos, de acordo com o diretor da Planner.

Segundo ele, é possível encontrar CDBs hoje com rendimento de 120% a 130% do CDI, com prazos entre 2024 e 2025.

Já o retorno dos CDBs de bancos de primeira linha não estão tão atraentes neste momento, segundo as fontes.