Inflação em alta em 2021: quais as causas e efeitos na economia?

Carla Carvalho
Graduada em Ciências Contábeis pela UFRGS, pós-graduada em Finanças pela UNISINOS/RS. Experiência de 17 anos no mercado financeiro, produtora de conteúdo de finanças e economia.

Crédito: Pixabay

Não é de hoje que o brasileiro sente os efeitos da inflação no seu dia a dia. Entre as décadas de 1980 e 1990, o país conviveu com a hiperinflação, que chegou a superar 80% ao mês e só foi controlada em meados dos anos 90, com o Plano Real.

Recentemente, o fenômeno começou a assombrar a economia novamente. Isso porque encerramos o ano de 2020 com inflação de 4,52%, a maior registrada desde 2016. E, segundo o Boletim Focus do Banco Central divulgado no dia 22 de março, a projeção do IPCA (Índice de Preços ao consumidor Amplo) para 2021 já está em 4,71%.

Uma das principais tarefas dos governos em relação à economia é controlar a inflação. Por isso, recentemente elevou os juros Selic.

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Mas afinal, por que ela surge? Quais os seus efeitos na economia? É o que veremos a seguir. Continue a leitura e confira!

Em primeiro lugar, o que é inflação?

De forma geral, a inflação é o aumento generalizado que acontece nos preços dos bens e serviços em um determinado período. No Brasil, ela é apurada mensalmente e a cada ano, e o seu índice oficial no país é o IPCA.

É importante saber que a alta dos preços medidos pela inflação se refere à média de alguns itens de consumo. Esses itens, chamados de “cestas de produtos”, formam o IPCA. É preciso conhecê-los, pois eles são estabelecidos de acordo com o padrão de consumo do brasileiro. Ou seja, se esse padrão modifica, os componentes do IPCA também serão alterados.

Antes de continuarmos com o tema inflação, vamos ver como funciona o IPCA.

IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo)

O IPCA é medido mensalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em seu cálculo, são considerados os seguintes grupos de produtos e serviços:

  • alimentação e bebidas;
  • vestuário;
  • comunicação;
  • saúde e cuidados pessoais;
  • artigos de residência;
  • transportes;
  • despesas pessoais;
  • despesas com habitação;
  • despesas com educação.

Ao todo, o IPCA considera 465 subitens no seu cálculo. Isso porque os itens acima possuem vários desdobramentos.

A população que o índice reflete abrange as famílias brasileiras com remuneração entre um e quarenta salários mínimos. Para o cálculo, o IPCA considera as regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Vitória, Curitiba, Porto Alegre, Recife, Fortaleza, Salvador e Belém, além das cidades de Campo Grande, Brasília, Goiânia, São Luís e Aracaju e Brasília.

Tipos de inflação

Para entender como a inflação afeta as finanças e a economia, é preciso conhecer os diferentes motivos pelos quais ela ocorre.

Diferentemente do que muitos pensam, o fenômeno não está ligado somente ao aumento de custos. Esse é um dos motivos, mas existem outros também. A seguir, veremos diferentes tipos de inflação.

Inflação de custos

Como o próprio nome sugere, a inflação de custos (também chamada de inflação de oferta) ocorre quando aumenta o preço de determinados itens. Nesse caso, a alta pode estar relacionada ao câmbio (desvalorização da moeda local), ao custo da matéria-prima, aos salários, às taxas de juros ou aos impostos, por exemplo.

No caso brasileiro, temos tido um impacto grande do dólar elevado.

Inflação de demanda

Por sua vez, a inflação de demanda não tem relação com o aumento dos custos de produção e outros fatores que vimos no item anterior. Isso porque ela ocorre quando, por algum motivo, as pessoas começam a consumir mais, a ponto de provocar a escassez de determinados itens no mercado.

Em outras palavras, quando bens e serviços ficam mais raros, isso causa uma disputa por parte dos consumidores. Ao perceber isso, as empresas aumentam os preços, pois sabem que, mesmo assim, os seus produtos terão venda garantida.

Para conter a inflação de demanda, há duas atitudes que o governo pode tomar. Uma delas (e a mais saudável para a economia) é fomentar a produção, concedendo incentivos para que as empresas consigam produzir mais e atender as necessidades da população. No entanto, essa é a saída mais custosa e, também, a que leva mais tempo. Isso porque, para aumentar a produção, as empresas precisam de infraestrutura, o que, muitas vezes, envolve investimentos que não conseguem fazer sem o apoio adequado do governo.

A outra ação que pode ser tomada para controlar a inflação de demanda é o aumento da taxa básica de juros. Isso acontece porque, quando o dinheiro fica mais caro, as pessoas passam a gastar menos. Dessa forma, começa uma retração no consumo e, consequentemente, em toda a atividade econômica produtiva.

Inflação inercial

O terceiro tipo de inflação é a chamada inercial. Diferentemente dos modelos anteriores, ela não está relacionada ao aumento dos preços dos insumos, e nem ao crescimento da demanda. Nesse caso, o fenômeno tem a ver com a expectativa de aumento dos preços em função do histórico da atividade econômica.

Em outras palavras, a inflação inercial equivale à “memória inflacionária” que as pessoas têm em relação aos preços. Basicamente, esse tipo de inflação se deve à indexação da economia, ou seja, ao fato de o governo utilizar índices que servem para corrigir os preços. Um exemplo disso é o IGP-M (Índice Geral de Preços – Mercado), também conhecido como “inflação do aluguel”, por ser o índice que, normalmente, corrige os contratos de aluguéis.

Na inflação inercial, os índices que medem períodos anteriores de inflação acabam sendo utilizados para corrigir os preços atuais. Isso pode ter efeito negativo, pois é possível que se gere uma “espiral inflacionária” ao se reproduzir a inflação passada. Por isso, é muito importante que esses indexadores sejam periodicamente revisados, a fim de que se mantenham equilibrados.

Hiperinflação

A hiperinflação não é, propriamente, mais um tipo de inflação, e sim o fenômeno levado à uma condição extrema e fora de controle.

Como vimos no início, o Brasil já viveu fortes momentos de hiperinflação. Uma das causas que pode ocasionar isso é o descontrole das contas públicas por parte do governo.

Quando a hiperinflação acontece, há uma desvalorização acentuada da moeda local. Em grau mais acentuado, começa a ocorrer o desabastecimento de produtos, o que mergulha a economia em uma forte recessão

Fatores que influenciam diretamente a inflação

Existem alguns fatores que impactam diretamente a inflação. A seguir, veremos como funcionam dois deles: a taxa de juros e a emissão de moeda.

Taxas de juros

A taxa de juros é um forte instrumento do governo para o controle da inflação. Como vimos na inflação de demanda, o custo do dinheiro está diretamente relacionado à disposição das pessoas para o consumo. Por isso, quanto maiores estiverem os juros, menor será a disposição de gastar de forma geral.

No entanto, se a intenção for estimular a economia, o governo promoverá a redução da taxa básica de juros. Dessa forma, o crédito ficará mais acessível, e isso estimulará novamente o consumo.

Porém, é necessário um cuidado especial nessa situação. Se, junto com o aumento do crédito não houver um aumento da oferta, isso também poderá provocar inflação.

Emissão de moeda

No momento em que o governo emite mais moeda, o volume de dinheiro em circulação aumenta de forma geral. Se há mais liquidez no mercado, esses recursos adicionais terão dois destinos: ou serão investidos (na produção ou no mercado financeiro) ou irão direto para o consumo. No segundo caso, dependendo do aumento do consumo, pode vir a ocorrer inflação de demanda.

Recentemente, vimos um forte movimento de emissão de moeda nos bancos centrais ao redor do mundo. É importante ter claro que essa medida teve o objetivo de socorrer as economias afetadas pela crise financeira, agravada pela pandemia. Em uma situação de produção e consumo normal, essa emissão massiva de dinheiro teria sido prejudicial, pois o excesso de moeda em circulação aumentaria os preços e causaria desequilíbrio no sistema financeiro.

Efeitos da inflação na economia

Antes de mais nada, é importante entender que, mesmo que se mostrem de maneiras diferentes, os efeitos da inflação na economia estão todos interligados. Veja como isso funciona.

A primeira coisa que se observa com a alta dos preços é a perda do poder de compra. As pessoas passam a comprar menos, mesmo com o mesmo salário que ganhavam no passado.

Ao perceber a pouca disposição para o consumo, as empresas passam a produzir menos. Outro motivo que leva à redução da produção é o receio dos empresários de aumentar os seus custos, já que a alta dos preços é generalizada.

Com as pessoas contendo gastos e as empresas produzindo menos, a economia começa a contrair. Aos olhos dos investidores, esse quadro passa a gerar desconfianças sobre a saúde financeira do país. Dessa forma, o que acontece é a perda de interesse no país por parte de investidores, que começam a retirar o seu capital para alocá-lo em ambientes mais estáveis e seguros.

De forma simplificada, esses são os efeitos prejudiciais da inflação na economia. No entanto, é importante saber que a inflação só causa danos quando é alta ou está fora de controle. Ou seja, uma inflação controlada e baixa é favorável, pois isso indica que há disposição para o consumo, o que acaba aquecendo a economia.

Para isso, existe o sistema de metas de inflação. O objetivo desse mecanismo é que o Brasil consiga controlar a alta dos preços e, ao mesmo tempo, promover o crescimento econômico.