Inflação e pandemia ameaçam recuperação na AL, aponta relatório do FMI

Victória Anhesini
Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Crédito: Yuri Gripas/Reuters

O Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou nesta sexta-feira (22) o relatório “Perspectivas para a América Latina e o Caribe: Um longo e tortuoso caminho para a recuperação”. De acordo com as projeções, a recuperação econômica pós-pandemia está em andamento na região, mas há crescentes pressões inflacionárias que ainda ameaçam atrapalhar as perspectivas para a região no curto e médio prazo, além da Covid-19.

Conforme o fundo, o crescimento deve ser de 6,3% para a economia regional em 2021. Em seguida, em 2022, a previsão é de uma alta mais moderada de 3%. Entretanto, a maior parte dos países ainda não retornará ao nível pré-pandemia. Isso ocorre por conta da tendência de médio prazo da fragilidade dos mercados de trabalho.

Já no Brasil, o FMI prevê crescimento de 5,2% em 2021 e de 1,5% para 2022. Os números estão abaixo da previsão média para a região. Países exportadores de commodities crescerão com mais força. Como, por exemplo, o Peru (10% e 4,6%) e Chile (11% e 2,5%). O México deve crescer 5,7% e 4,9%, respectivamente. Já para a Argentina a previsão é de 7,5% e 2,5%.

Outros fatores além da Covid-19 e inflação, são o risco de aperto das condições financeiras globais, dificuldades ligadas à rolagem das dívidas soberanas e agitações sociais. Tudo isso em meio à agenda eleitoral pesada em vários países.

Inflação

As incertezas relacionadas à pandemia já eram esperadas pelo FMI, apesar do avanço significativo, embora desigual, da vacinação na região. Mas a inflação crescente, fomentada pelos gargalos nas cadeias de suprimento globais e pela alta dos preços de commodities e alimentos, também passou a ser um fator de risco para a recuperação dos países latino-americanos.

De acordo com Nigel Chalk, diretor interino do Departamento para o Hemisfério Ocidental do FMI, os bancos centrais da região agiram corretamente ao ajustar taxas de juros para conter pressões inflacionárias.

A previsão do fundo é que a tendência de alta dos preços deve se manter no curto prazo. Ou seja, forçará novos movimentos das autoridades monetárias. “É provável que esses aumentos nas taxas de juros continuem em muitos países nos próximos meses. Se as expectativas de inflação se tornarem menos ancoradas, as autoridades terão de reagir de forma mais assertiva”, disse Chalk.

Em alguns países, caso da Argentina, o FMI avalia que as expectativas já estão desancoradas. Em setembro, o índice de preços ao consumidor no país chegou a 52,5% em 12 meses. É a taxa mais alta em toda a América Latina, com exceção da Venezuela.

Como resposta, o presidente Alberto Fernández anunciou o congelamento de preços de mais de 1.400 produtos. A medida também visa elevar a popularidade do governo antes da eleição legislativa, em novembro.

Conforme o FMI, deve haver equilíbrio entre resposta à alta dos preços e retirada do apoio à atividade econômica. No relatório, o fundo recomenda a continuação do apoio à recuperação, desde que a dinâmica de inflação permita.

Política financeira

Ainda mais um fator positivo observado por Chalk é que, diferentemente de outros ciclos inflacionários, a América Latina possui hoje um contexto institucional diferente. A avaliação dele é que houve grande investimento para aumentar a credibilidade dos BCs.

Já a política financeira deve mudar, conforme o FMI, da estratégia de apoio abrangente para medidas direcionadas às empresas viáveis para garantir as realocações de trabalho e capital necessárias.

Os países devem promover o crescimento inclusivo, por meio de reformas fiscais que favoreçam a expansão econômica. Assim como implementar medidas para intensificar a adaptação e mitigação das mudanças climáticas.

De acordo com o relatório, cerca de 40% da população da América Latina e do Caribe está totalmente vacinada contra o vírus. O valor é o limite da referência recomendada pelas autoridades sanitárias internacionais. As cifras permitem prever que a cobertura vacinal se estenderá para mais de 80% da população adulta da região no fim de 2022.

Apesar do avanço na imunização, Chalk destacou que “não é hora para complacência”. “As campanhas ajudaram a minimizar o impacto da pandemia, mas ainda há importantes desigualdades na disponibilidade de vacinas e elas precisam ser resolvidas”, destacou.