Inflação de 2021 se aproxima mais da meta, diz diretor do BC

Osni Alves
Jornalista | oalvesj@gmail.com
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Diretor de política econômica do Banco Central (BC), Fabio Kanczuk disse que um questionamento constante que o BC sofre por parte do mercado é referente à taxa de juros.

Para ele, o BC trata sempre com muita cautela e que trabalha com três cenários para monitorar a Selic: base, de estresse e alternativo.

Para Kanczuk, não há contradição entre a comunicação da autoridade monetária e a projeção do BC de inflação aquém do centro da meta em 2021, em 3,2% contra 3,75% do alvo central.

Isso porque em cenário alternativo, considerando o balanço de riscos, a inflação se aproxima da meta.

No último Comitê de Política Monetária (Copom), o BC sinalizou que considerava adequado o nível de estímulo atual e que se houver novo ajuste será residual.

“Não há contradição entre essas duas coisas. Para entender porque não há contradição é preciso olhar o balanço de riscos, que deixa claro que há assimetria de riscos”, disse.

A afirmação é em referência à introdução de novo risco, de que as políticas de composição de renda e de estímulo creditício poderiam indicar um hiato da economia menor do que o BC tem no cenário base, ou queda da demanda menor do que no cenário base.

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Taxa pode variar

De acordo com Kanczuk, o o cenário de estresse pode fazer a Selic variar para mais ou para menos.

A afirmação do diretor vai ao encontro do que disse ontem (2) o presidente do BC, Roberto Campos Neto, para quem “a Selic pode cair ainda mais, mas não muito.”

Campos Neto acrescentou, ontem, que “em nosso último comunicado, explicitamos que a taxa é bastante estimulativa e qualquer queda adicional seria pequena.”

Indústria de fundos

Segundo Kanczuk, a terceira preocupação do BC é com a indústria de fundos, pois está marcando uma saída de recursos muito alta.

“Isso pode gerar ineficiência econômica e pode trazer riscos à indústria”, declarou.

E disse mais: “a gente monitora isso diariamente e não está vendo nenhum problema na indústria de fundos neste momento, mas é algo que deve ser monitorado e feito com cautela.”

Entretanto, ele frisou que esta é uma preocupação pouco distinta e não relacionada ao câmbio.

Kanczuk considera que não é algo legítimo o BC fazer foward guidance, pois esta manobra afetaria o prêmio de risco.

“Eu diria que é uma política econômica não adequada”, declarou.

O foward guidance é, basicamente, orientação a termo, ou uma ferramenta usada por um banco central para exercer seu poder na política monetária, a fim de influenciar, com suas próprias previsões, as expectativas do mercado quanto a níveis futuros de taxas de juros.

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Segunda onda da Covid-19

De acordo com ele, a possibilidade de uma segunda onda da Covid-19 não está no cenário-base da instituição.

Isso porque para implementar medidas em resposta aos cenários adversos vivenciados pela economia, o BC antecipa possíveis problemas.

Para tal, o banco acompanha projeções, notícias e tudo o que acontece tanto no país quanto no exterior.

Ele participou de uma live promovida pelo banco Safra na manhã desta sexta-feira (3).

Retomada econômica

Kanczuk disse que o principal questionamento que a instituição recebe do mercado é quanto à retomada econômica.

Em comparação ao mercado dos Estados Unidos, ele disse que a economia daquele país é muito mais dinâmica.

Significa dizer que na mesma proporção que o novo coronavirus devastou o mercado de trabalho, deixando milhares de pessoas desempregadas, a volta será mais rápida.

Por esse viés, acredita-se que no Brasil haverá mais demora tanto para a recolocação profissional dos que perderam emprego recentemente quanto para o pleno emprego.

EUA

Dados recentes mostram que os EUA criaram empregos em ritmo recorde em junho, uma vez que mais restaurantes e bares retomaram suas operações.

Isso porque a taxa de desemprego por lá surpreendeu e recuou no mês passado, a 11,1%, segundo dados do Departamento do Trabalho divulgados ontem (2).

Em maio, já havia caído a 13,3%, após atingir em abril o maior patamar pós-Segunda Guerra Mundial (14,7%).

Brasil

Diferentemente do que aconteceu nos EUA, onde a taxa do desemprego caiu, no Brasil ela subiu para 12,9% no trimestre encerrado em maio.

Esse número indica 12,7 milhões de pessoas desempregadas. Cerca de 7,8 milhões de postos de trabalho fecharam na comparação com o trimestre anterior.

Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Mensal (PNAD Contínua).

O levantamento indica que o número de pessoas na fila por um emprego teve aumento de 3% (368 mil pessoas a mais) frente ao trimestre móvel anterior (12,3 milhões de pessoas).

Ele também mostra que o indicador ficou estatisticamente estável frente a igual período de 2019 (13 milhões de pessoas).