Incerteza provocada pela crise põe investidor local numa encruzilhada

Marcello Sigwalt
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Crédito: Site freepik.com

Expectativa e tensão. Esses sentimentos têm colocado o investidor brasileiro numa encruzilhada bem difícil.

Diante da volatilidade atual do mercado, ele pode tanto se desfazer rapidamente de suas posições em bolsa – correndo o risco de apurar prejuízo – quanto abrigar-se no baixo rendimento da previsível renda fixa.

Ou, ainda, como manda a velha prudência, aguardar um momento mais favorável, o que amenizaria possíveis perdas.

“É provável que o investidor local não queira esperar a melhor hora de realizar os lucros”, admite o chefe da mesa de operações da Frente Corretora, Fabrizio Velloni.

Cortes na Selic

Velloni comenta que o processo de valorização das ações brasileiras se acentuou a partir de 2018, quando parte dos investidores de renda fixa migrou para a variável, após uma sequência de cortes da taxa básica de juros (Selic).

Na verdade, a redução da Selic (hoje em 3,75% ao ano) serviu mais para aumentar o spread bancário, pois as instituições financeiras trabalham hoje com uma taxa de 8% ao ano para o cheque especial.

“Agora enfrentamos o primeiro teste efetivo de como esse investidor, normalmente conservador e avesso a riscos, se comportará em razão da crise”,  observa.

O que para uns é sinônimo de apreensão, para outros, porém, é símbolo de oportunidade.

‘Maré baixa’

É o caso daquele investidor mais calejado e atento, que aproveita o momento de ‘maré baixa’ para adquirir ações.

Conhecedores atentos do mercado de renda variável, os investidores estrangeiros, por sua vez, há mais de um ano haviam percebido que a bolsa “estaria fora de preço”. Tal percepção turbinou a saída dos recursos investidos no país.

Já o investidor doméstico mais experiente, aponta Velloni, aproveita a crise para fazer hedge de suas aplicações, investindo em commodities ou em títulos públicos americanos, considerados mais seguros, ou em dólar.

 Descolamento da realidade

Ao sustentar que os preços dos ativos em bolsa estão “descolados” do faturamento das empresas, Velloni avalia que essa disparidade persiste.

Ele argumenta que o valor das ações estaria ‘inflado’ pela expectativa ilusória de um crescimento de 2% do PIB este ano, previsão alimentada desde o início do mandato do atual presidente, em janeiro de 2019.

Aos que investem em offshore, a recomendação do chefe de operações da Frente Corretora é a diversificação da carteira, com destaque para os papéis cambiais, “que estão muito baratos”. Valendo hoje R$ 5, o dólar está cotado entre R$ 4,20 e R$ 4,30 para o final do ano.

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Maiores perdas

Velloni explica que as ações de companhias aéreas, de turismo ou ligadas a commodities – como Petrobras (PETR3 e PETR4) e Vale (VALE3) – foram duramente afetadas pela crise mundial decorrente da pandemia.

“A conclusão imediata é que não há, por exemplo, probabilidade de recuperação dessas perdas no setor de turismo este ano, o que só deve acontecer a partir de 2021. Nesse caso, a orientação é segurar esse papel por um tempo maior”, avalia o chefe da Frente corretora.

Mesmo com a injeção maciça de recursos de bancos centrais e organismos internacionais (na casa dos trilhões de dólares), Velloni acentua que a previsão predominante no mercado é de que haja uma brutal desaceleração da economia mundial, esfriando de vez a demanda por commodities.

“Na crise, temos de buscar o racional, o equilíbrio entre a histeria pela realização dos lucros e a euforia movida pela compra de ações em baixa”, aconselha.

Canja de galinha

Cautela e paciência. Esses ingredientes fazem parte da receita aviada pelo administrador e assessor de investimentos do portal Eu Quero Investir Paulo Filipe de Souza, ao confirmar o perfil conservador do investidor nacional, de se concentrar na renda fixa.

“Se não há necessidade imediata de recursos, em geral, recomendamos aos clientes que aguardem um pouco mais”, explica Souza.

Como exemplo da imprevisibilidade atual, o assessor de investimentos lembra que, “logo após à crise de 2008, muito mais severa que a atual, nossa bolsa recuperou tudo em sete meses, no ano seguinte”.

Ousadia e oportunidade

Mas, para os investidores mais ousados e com liquidez, Souza entende que a hora “é de boas oportunidades”, em especial, no que toca a aplicações em bolsa e em fundos imobiliários.

“Existem ações que estão, de 50% a 60%, abaixo de seu preço máximo”, aponta, ao comentar que, mesmo com as paralisações (lockdown), a tendência, segundo ele, é de recuperação da atividade econômica.

No entanto, se o “nível de desconforto” desse investidor for muito grande, o conselho dado por Souza é de que ele venda as ações e volte para a renda fixa.

Pergunta ecoa

Apesar do socorro de liquidez em escala mundial, o assessor faz coro à pergunta que ecoa em todos.

“Quanto tempo o mercado vai ficar parado e as pessoas vão poder ficar em casa sem produzir, sem que isso impacte diretamente a economia, mais à frente?”, questiona.

Sobre a crise das companhias aéreas, mais afetadas pelo lockdown, Souza imagina que o  governo deverá destinar recursos para mantê-las em atividade.

“Se houver dinheiro para parcelamento de dívidas, as aéreas devem se recuperar, até porque a demanda vai voltar junto com a economia como um todo”.

Educação financeira

A falta de uma cultura de educação financeira no país acaba condicionando o investidor brasileiro ao conservadorismo, ressalta Velloni.

No entanto, ele reconhece a importância do surgimento de plataformas abertas e consultores para começar a mudar essa mentalidade.

“As inovações tecnológicas exercem um papel fundamental de ajudar o público a entender melhor o funcionamento do mercado e suas variações, como renda variável, fundos multimercado, câmbio, etc.”.

O desafio, contudo, é grande.

Caminho longo

“Há um caminho muito longo pela frente, pois o contingente daqueles que conhecem um pouco do mercado aumentou de 5% para 9% do total. Faltam agora os outros 90%, explica.

Pelos seus cálculos, “ainda será necessário 20 anos até que cheguemos num patamar aceitável de conhecimento sobre o setor, que também depende de uma política que mantenha a taxa de juros baixa, de modo a continuar atraindo investimentos em bolsa.

Dificuldade de enxergar

Sobre o contraste entre as previsões do mercado – de um crescimento negativo em torno de 0,5% para este ano – e aquelas emitidas pelo Boletim Focus do Banco Central – que projeta um PIB positivo superior a 1% – Velloni comenta que a autoridade monetária tem dificuldade de “enxergar melhor o comportamento da economia”.

Realista, o chefe de operações da corretora, ressalta que, dos emergentes o Brasil é o país que apresenta menor taxa e maior risco de retorno.

“Não é atrativo. Então, o investidor não vai investir seu capital em atividades produtivas no Brasil porque não há expectativa de consumo”, justifica.

Socorro temporário

No campo macroeconômico, Velloni considera que o aporte de US$ 60 bilhões do Fed ao BC é uma medida temporária insuficiente para garantir a liquidez da economia brasileira e ‘segurar’ o câmbio.

Somente para manter a atividade econômica dos Estados Unidos, o governo daquele país anunciou a liberação de US$ 2 trilhões.

Esse movimento vigoroso de capitais, lembra ele, é semelhante ao do período da Segunda Guerra Mundial (1939-45), quando não havia perspectiva de solução no curto prazo.

Decisão tardia

Na seara doméstica, Velloni critica o anacronismo de muitos governos, que ainda se apoiam no modelo econômico keynesiano (proposto pelo economista inglês John Maynard Keynes, nos anos 1920), calcado no intervencionismo estatal para reativar a economia.

No seu entendimento, “as políticas públicas foram incapazes de prever o impacto econômico e social decorrente da maior velocidade da informação, na transferência de dados e movimentação dos fluxos de capitais”.

A consequência, continua Velloni, é uma ‘tomada de decisão’ tardia. “Estamos sempre um passo atrás. Quando, finalmente, a decisão é tomada, já surgiu um novo fator, que demanda uma nova decisão”, conclui.

Acompanhe, abaixo, a trajetória das bolsas, em momentos de crise