Imposto come-cotas: o que é e como funciona

Come-cotas é um nome simpático dado a um evento bem desagradável e que afeta as pessoas que investem em fundos: o recolhimento antecipado do Imposto de Renda feito pela semestralmente pela Receita Federal.

Késia Rodrigues
Colaboradora Independente do Portal EuQueroInvestir e leitora assídua de conteúdos sobre economia e política. Apaixonada por tecnologia, investimentos e viagens.

Crédito: Crédito da imagem: Banco de Imagens EnvatoElements/By vadymvdrobot

A “mordida” do leão afeta diversas categorias de fundos como, por exemplo, os fundos de renda fixa e multimercados e acontece a cada intervalo de seis meses.Na prática, isso pode representar alguma perda de rentabilidade no longo prazo. Por isso é muito importante conhecer o assunto para evitar surpresas desagradáveis quando se investe em fundos.

Continue a leitura para saber tudo sobre o imposto come-cotas: o que é e como funciona.

O que é o imposto come-cotas?

Come cotas é um apelido dado ao processo de antecipação do Imposto de Renda que ocorre em algumas modalidades de fundos de investimentos.

Leão

Na prática, o imposto come-cotas abocanha entre 15% a 20% das cotas dos fundos uma vez a cada semestre, mais precisamente no final dos meses de maio e novembro.

Essas alíquotas são, na verdade, o percentual mínimo de abatimento do Imposto de Renda sobre os fundos de curto e longo prazo.

Parece confuso até agora? Não se preocupe, pois vamos explicar passo a passo o motivo dessa tributação ser feita dessa maneira.

Mas, primeiro, é importante que você entenda como os fundos de investimentos são tributados, assunto que trataremos no próximo tópico.

Como funciona a tributação sobre os fundos de investimentos

Os fundos de investimentos sofrem a incidência de alguns impostos comuns a outros tipos de aplicação, tais como o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e o Imposto de Renda.

As alíquotas desses dois tributos são regressivas, ou seja, quanto mais tempo o seu dinheiro permanece na aplicação, menor será o imposto a ser cobrado.

No caso do IOF é possível que você fique isento do imposto. Basta permanecer com a aplicação por pelo menos 30 dias, pois a alíquota cai para 0%.

Já no caso do Imposto de Renda é diferente, pois as alíquotas se diferem conforme o tipo de aplicação, confira na tabela abaixo:

Fundos de curto prazoFundos de longo prazo
22,5% para aplicações até 180 dias;
20,0% para aplicações de 181 dias ou mais.
22,5% para aplicações até 180 dias;
20,0% para aplicações entre 181 dias a 360 dias;
17,5% para aplicações entre 361 dias a 720 dias; e
15,0% para aplicações de 721 dias ou mais.

Na prática, o que o come-cotas faz é antecipar esse imposto de renda que seria retido na fonte no momento do resgate.

A cada intervalo de seis meses, a Receita Federal faz um abatimento nas cotas do investidor que equivale ao percentual do imposto devido sobre os rendimentos.

Aqui cabe um destaque importante: o desconto dos tributos em fundos aplica-se apenas sobre o valor dos rendimentos e não sobre o valor total investido.

Mesmo com esse desconto sendo feito de forma antecipada pelo leão, o investidor não tem motivos para entrar em pânico.

Como falamos agora a pouco, o come-cotas é nada mais do que uma antecipação do imposto devido, ou seja, você teria que pagar esse imposto de qualquer maneira.

Então por que o come-cotas é tão odiado? A resposta está justamente no que ele faz com os rendimentos no longo prazo, assunto que abordaremos a seguir.

Pensando ao Computador

Como o come-cotas pode interferir em seus rendimentos no longo prazo

Um dos principais problemas do come-cotas diz respeito aos seus efeitos sobre os juros compostos – ou “juros sobre juros”.

No longo prazo, o valor abatido pelo come-cotas pode fazer uma grande diferença no rendimento final da aplicação, pois, caso o leão não o tivesse antecipado, aquele valor poderia ficar valorizando durante anos.

Uma solução para esse problema seria justamente a extinção do come-cotas, ou seja, se o Imposto de Renda incidisse apenas no momento do resgate, o valor dos rendimentos poderia ser muito maior.

É por esse motivo que é muito importante considerar o come-cotas antes de investir em fundos, pois o investidor não deve ser atraído apenas pelo rendimento bruto dessa aplicação, uma vez que ela possui seus custos.

Para conhecer quais são esses custos o investidor deve ler o regulamento do fundo em que pretende investir, pois ele traz todas essas informações em detalhes.

Moedas de Ouro

Quais os fundos são afetados pelo imposto come-cotas?

Apesar de a grande maioria dos fundos de investimento serem afetados pelo come-cotas, há alguns fundos que não sofrem a incidência dessa antecipação, uma vez que o IR é descontado apenas no momento do resgate.

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Entre os tipos de fundos em que incide o come-cotas estão os fundos DI, multimercados, renda fixa e cambiais. Isso vale tanto para aplicações de longo prazo quanto para as de curto prazo (até 375 dias).

Já as exceções ao come-cotas são poucas. Entre os fundos que não sofrem a incidência dessa antecipação estão os de ações e os de previdência.

Também existem alguns fundos específicos para pessoas físicas em que, ao se respeitar algumas condições estabelecidas, o investidor também pode ficar livre do come-cotas. Trata-se dos fundos de investimento imobiliário e os de debêntures incentivadas.

Nos fundos em que não ocorre o come-cotas, a alíquota do IR é descontada apenas no momento do resgate e incide sobre o valor dos rendimentos obtidos pelo investidor.

Os fundos de ações, por exemplo, sofrem a incidência de uma alíquota fixa de 15%.

Neste momento, você pode estar se perguntando: se terei que pagar o Imposto de Renda de qualquer maneira, qual é o problema de fazer esse pagamento antecipado?

Para responder essa pergunta, o melhor é mostrar um exemplo prático de como o come-cotas pode prejudicar a sua rentabilidade no longo prazo, assunto tratado no tópico a seguir.

mulher usando calculadora

O imposto come-cotas na prática

Antes de mais nada, é importante lembrar que a alíquota do come-cotas será de 20% para os fundos de longo prazo e de 15% para os fundos de curto prazo.

Nesse sentido, a cada intervalo de seis meses a Receita Federal irá abater esse percentual de suas cotas, o que será exibido em seu extrato como um resgate.

Lembra da tabela regressiva do Imposto de Renda que mostramos agora a pouco? Ela será útil nesse momento.

Imagine que você fez uma aplicação no valor de R$ 10.000,00 em um fundo de renda fixa logo no dia 1º de janeiro (para começar o ano com o pé direito!).

Na data da compra, cada cota desse fundo valia R$ 1,00, ou seja, você adquiriu um total de 10.000 cotas.

O tempo passou e no dia 31 de maio cada cota desse fundo já estava valendo R$ 1,20, o que é muito bom para você, pois, nesse momento, a sua aplicação está valendo R$ 12.000,00, ou seja, um lucro de R$ 2.000,00.

No entanto, nessa mesma data haverá a incidência do come-cotas sobre a sua aplicação. Como se trata de um fundo de longo prazo, a alíquota será de 15% sobre os R$ 2.000,00, que foi o seu lucro no período.

Isso significa que a Receita Federal irá “comer” R$ 300,00 do seu lucro, ou seja, um total de 250 cotas se considerarmos o valor de R$ 1,20 para cada uma.

Dessa forma, após o resgate feito pela Receita Federal, o seu saldo de cotas não será mais de 12.000, mas de 11.750, o que representa o montante de R$ 11.700,00.

Ainda assim parece bom, não é mesmo? Pois, mesmo após o abatimento feito pelo come-cotas, o valor de sua aplicação continua maior do que o saldo original.

Então por que a fama do come-cotas é tão ruim entre os investidores?

senhor de óculos pensando

Na verdade, como abordamos alguns tópicos acima, os efeitos maléficos do come-cotas são percebidos no longo prazo.

Isso porque os valores antecipados pela Receita Federal deixarão de render, o que reduz um pouco os efeitos dos juros compostos sobre essa aplicação.

Assim, aqueles R$ 300,00 abatidos pelo come-cotas logo no início da aplicação, apesar de parecer pouco se comparado a um lucro de R$ 2.000,00, faz com que o investidor deixe de ganhar um bom dinheiro.

É por isso que muitos investidores preferem os fundos que não sofrem com a incidência do come-cotas, pois as chances de garantir melhores resultados em rendimentos acabam sendo maiores.

Investir em fundos vale a pena?

Depois de conhecer um pouco mais sobre o imposto come-cotas você deve estar se perguntando: vale a pena investir em fundos?

O mercado está repleto de opções de investimentos isentos de tributação ou que possuem tributações mais simples do que a dos fundos, contudo, a diferença está justamente no rendimento dessas aplicações.

Para quem busca segurança e está fugindo de tributações, o segmento de renda fixa possui uma série de boas opções de investimentos, tais como o Tesouro Direto e os CDBs. Contudo, quanto mais seguras são as aplicações, menores são os retornos possíveis na forma de rendimentos.

Assim, quem já investe em renda fixa e procura opções mais ousadas para investir o seu dinheiro no curto e no médio prazo, os fundos multimercado são uma ótima opção, mesmo que sofram a incidência do come-cotas.

As pessoas que têm objetivos de curto prazo e ainda não possuem investimentos em renda fixa podem se beneficiar ao investir em fundos de renda fixa de curto prazo.

Já para os mais ousados, mas que ainda têm algum receito de investir em ações, a dica é apostar nos fundos de ações.

Vale lembrar que qualquer investimento possui riscos, mas que isso acaba se refletindo em rentabilidade. Dessa forma, quanto maior o risco atrelado a um investimento, maior será o lucro possível com ele.

Uma forma de minimizar esses riscos é conhecer o mercado e estudar a fundo o tipo de aplicação em que você irá investir.

No caso dos fundos, a leitura do regulamento é obrigatória antes de aplicar qualquer dinheiro, pois isso minimiza as chances de você ter uma péssima surpresa no futuro.

Esperamos que as informações tenham sido claras e que você tenha tirado todas as suas dúvidas acerca do famoso “bicho-papão” chamado come-cotas.

Com planejamento, estudo e dedicação é possível driblar esse monstro e obter bons lucros no mercado dos fundos de investimento.