IBRE-FGV projeta recuperação lenta da economia

Marcello Sigwalt
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Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A persistência, em níveis elevados, do desemprego e o aumento do endividamento devem fazer com que a recuperação do poder aquisitivo, sobretudo das famílias de baixa renda, ocorra de forma bem mais lenta, nos próximos meses.

Quitação de dívidas

A avaliação é da pesquisadora do IBRE-FGV, Viviane Seda, ao explicar que as classes sociais menos favorecidas deverão priorizar, nos próximos meses, o uso dos recursos da poupança ou de saques do FGTS para quitação de dívidas, sem reflexo direto no consumo ou na economia nacional.

“Isso nos coloca num nível econômico semelhante ao de 2016, quando estávamos finalmente saindo da recessão”, afirma a pesquisadora.

Inadimplência certa

“E agora, como estamos numa nova crise, com alto desemprego e atividade econômica estagnada, essas famílias tendem a entrar rapidamente na inadimplência, mesmo porque sua renda vai ser recomposta apenas parcialmente”, completa.

Segundo Viviane, “não é possível enxergar, nos próximos meses, uma melhora rápida da confiança dos consumidores, assim como dos trabalhadores informais que atuam nas ruas e foram obrigados a paralisar suas atividades devido à pandemia”.

“Todos esses fatores devem dificultar a recuperação da economia”, sentencia.

Por setores

Entre os setores, a pesquisadora entende que o de petróleo e biocombustíveis deverá ter uma recuperação lenta, pois enfrenta problemas como demanda externa baixa, guerra de preços, sem contar as alterações decorrentes da desvalorização cambial.

Paralisia

Paralisado, tanto na produção quanto na ponta de venda, o setor automotivo, segundo Viviane, “ainda vai levar muito tempo para se recuperar, em compasso com a recuperação do poder aquisitivo dos consumidores”.

Nesse aspecto, a pesquisadora lembra que o setor de bens de consumo durável igualmente vai reagir no longo prazo, quando será possível ao consumidor e às empresas fazer um planejamento com horizonte mais dilatado.

“Ainda está muito cedo para saber quando isso vai acontecer, ainda estamos no ‘olho do furacão’”, compara. De igual forma, ela entende que fica “difícil imaginar” uma melhoria de cenário econômico, já em 2021.

Compras em queda

Viviane menciona estudo que aponta queda de intenção de compra para todas as faixas de renda.  No caso da alta renda, essa tendência de retração já existia antes da crise pandêmica, pois esse tipo de consumidor já visualizava dificuldades no contexto mundial.

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‘Emprego já’

Ao argumentar que, nesse momento, a prioridade na crise é a “criação de empregos para famílias de baixa renda”, o pesquisador IBRE-FGV André Braz comenta que a crise da covid-19 “pegou a todos de surpresa” e que atualmente, além do esforço fiscal, também será preciso um esforço monetário maior para reativar a economia local.

“Talvez tivéssemos de contar com mais recursos e investimentos, na tentativa de zerar o PIB ou evitar que ele ficasse negativo”, emenda.

Preços ‘comportados’

No que se refere à inflação, Braz disse acreditar que na segunda quinzena de março deverá mostrar um “forte choque de demanda”, em que o mercado estima um IPCA de 0,15% nesse período e de 4% nos últimos 12 meses contados até março.

A consequência, endossa o pesquisador, “é que os preços tenderão a ficar mais ‘comportados’”.

Inflação contida

Outros fatores, na sua avaliação, que contribuem para ‘segurar’ a inflação são: adiamento, por dois meses, dos reajustes dos medicamentos (de início, previstos para o final desse mês), o mesmo ocorrendo em relação à tarifa de energia elétrica, ainda sem previsão.

A desvalorização cambial, que encareceu rações animais com base na soja e no milho, não devem, de acordo com Braz, ‘contaminar’ o mercado da carne. “Não haverá contágio generalizado”, prevê.

O item foi alvo de elevação do produto, atípica nesse período da quaresma, em função do maior consumo das famílias, retidas em casa pelas medidas de isolamento social impostas pelos governos. “Após apresentar pequena carestia em março, o movimento seguinte deve ser de acomodação”, estima.