IATA: iminente crise de caixa ameaça as companhias aéreas

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor
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Crédito: Reprodução/ Melhores Destinos

A A Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA, na sigla em inglês) alertou nesta terça-feira (6) que o setor aéreo ainda vai precisar queimar US$ 77 bilhões de caixa no segundo semestre de 2020, diante de uma pandemia que não mostra sinais de arrefecimento e que impede o deslocamento de turistas.

Mesmo com a retomada das operações de muitas companhias, a conta da IATA dá uma média de quase US$ 13 bilhões pode mês mês ou US$ 300 mil por minuto.

E não basta virar o ano.

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A lenta recuperação das viagens aéreas fará com que a indústria continue a queimar caixa a uma taxa média de US$ 5 bilhões a US$ 6 bilhões por mês em 2021.

É um dinheiro que engrossa as perdas já estabelecidas desde o começo da pandemia, e que já somam US$ 84,3 bilhões.

O transporte aéreo foi o primeiro a ser afetado, ainda em janeiro, com proibições de e para a China.

E provavelmente será um dos últimos a retomar os níveis pré-crise.

Gol (GOLL4) e Azul (AZUL4)

No começo de julho, a Gol (GOLL4) divulgou nota dizendo que mantinha sua posição de liquidez em mais 12 meses.

A recuperação gradual do transporte aéreo no Brasil ajudou a Gol e Azul (AZUL4), as duas listadas na bolsa brasileira, a segurarem os aviões no ar.

Mas não é uma recuperação segura.

Ontem, no comparativo com o mês de agosto, A Gol informou que o mercado doméstico apresentou avanço de 36% na demanda, em setembro. A oferta aumentou em 35% em comparação com o mês anterior. A taxa de ocupação da Gol foi 80% em setembro.

Já a Azul informou, também ontem, que o tráfego de passageiros consolidado (RPKs) aumentou 23,5% em relação a agosto de 2020, frente a um crescimento de 16,0% na capacidade (ASKs).

As duas vão se mantendo equilibradas da maneira que podem.

Vale a pena investir nelas?

Essa é uma das grandes questões para quem acompanha o mercado.

Há uma volatilidade bastante grande.

De 17 de março, data da primeira morte por Covid-19 no Brasil, até hoje, a Azul (AZUL4) se valorizou 65,96%.

Em 8 de junho, a valorização, em um só dia, foi de 29,25%, o maior do período.

A Gol (GOLL4), nesse mesmo período, valorizou incríveis 135,70%.

Destaque para 25 de março, quando subiu, em um só dia, 35,06%.

Alguns sinais estão trazendo maior otimismo para esse setor na bolsa.

Com isso, a Azul e a Gol já acumulam altas de 43% e 20,5% nos últimos 30 dias.

No mesmo período, o Ibovespa caiu cerca de 1%.

Um dos motivos para a melhora das ações das aéreas foi a percepção do mercado de que a situação financeiras das empresas não era tão ruim quanto a dos seus pares internacionais.

Isso trouxe um grande alívio e começou a ajudar na retomada dos preços.

“Percebemos que o cenário é desafiador, mas não tão crítico”, disse Henrique Esteter, analista da Guide.

No final do segundo trimestre, a Azul divulgou que sua liquidez imediata somava R$ 2,3 bilhões.

A liquidez total da Azul foi de R$ 6,6 bilhões.

IATA pede ajuda dos governos

Ainda assim, a IATA pediu aos governos nacionais que ajudassem as companhias aéreas.

A preocupação da associação internacional está especialmente com a próxima temporada de inverno no Hemisfério Norte.

Ela pede medidas de alívio adicionais: ajuda financeira que não acrescente mais dívidas ao já altamente endividado balanço da indústria.

Até o momento, governos em todo o mundo forneceram US$ 160 bilhões em apoio.

Isos inclui ajuda direta, subsídios salariais, isenção de impostos corporativos e isenção de impostos específicos da indústria, incluindo impostos sobre combustíveis.

“Agradecemos este apoio, que visa garantir que a indústria do transporte aéreo permaneça viável e pronta para religar as economias e apoiar milhões de empregos em viagens e turismo”, disse Alexandre de Juniac, Diretor Geral e CEO da IATA.

“Mas a crise é mais profunda e mais longa do que qualquer um de nós poderia ter imaginado”, ele lamentou.

Ele afirma que os programas de suporte iniciais estão se esgotando.

A associação, então, ligou o alarme de novo.

“Se esses programas de suporte não forem estendidos, as consequências para uma indústria já prejudicada serão terríveis”, ressaltou.

Caixa

“Historicamente, o caixa da alta temporada de verão ajuda as aéreas durante os meses de inverno”, disse o CEO da IATA.

Como na história da cigarra e da formiguinha, as aéreas enchem o bolso no verão.

Infelizmente, a primavera e o verão de 2020 foram “desastrosos”, segundo Juniac.

Ao contrário, as companhias aéreas queimaram dinheiro ao longo do período.

“Sem que os governos reabram as fronteiras, não podemos contar com a recuperação do fim de ano para fornecer um pouco de dinheiro extra para nos manter até a primavera”, disse.

E o caixa vai sendo queimado.

A IATA estima que, apesar de cortar custos em pouco mais de 50% durante o segundo trimestre, a indústria gastou US$ 51 bilhões em dinheiro, já que as receitas caíram quase 80% em comparação com o mesmo período do ano anterior.

O setor não deve ter um caixa positivo até 2022.

Reação em cadeia

É preciso salientar que no mundo atual, um setor ir mal tem efeito sobre muitos outros setores.

“O impacto se espalhou por toda a cadeia de valor de viagens”, lembrou.

São aeroportos e parceiros de infraestrutura de navegação aérea que dependem das aéreas.

E haverá pouco apetite entre os consumidores por aumentos de custos.

Em uma pesquisa recente da IATA, cerca de dois terços já indicaram que adiarão a viagem até que a economia ou sua situação financeira pessoal se estabilize.

Do jeito que as coisas vão, isso pode demorar.

“Aumentar o custo da viagem neste momento atrasará o retorno dos passageiros e manterá os empregos em risco”, alertou.

De acordo com os últimos dados da IATA, a severa desaceleração deste ano, combinada com uma lenta recuperação, ameaça 4,8 milhões de empregos em todo o setor de aviação.

Como cada emprego na aviação oferece suporte a muito mais na economia em geral, o impacto global é de 46 milhões de perdas de empregos potenciais.

E, segundo a IATA, são US$ 1,8 trilhão de atividades econômicas em risco.