Banco Central hawkish ou dovish com a taxa de juros? Entenda a diferença

Felipe Moreira
Editor na EuQueroInvestir, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional.
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Crédito: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Não é raro presenciarmos uma notícia apontando o Banco Central de um país de tomar medidas hawkish ou dovish. Em ambas as situações, o objetivo é controlar a inflação, demanda de consumo e empregabilidade. Na maioria das vezes, o instrumento usado pelos comitês de política monetária é a alteração na taxa básica de juros. Isso porque é ela que dita o ritmo da alocação dos investimentos e também o custo de crédito.

Um exemplo ocorreu em março de 2021 quando o Banco Central brasileiro decidiu elevar o juro básica da economia após quase seis anos de queda. A taxa Selic subiu de 2% ao ano para 2,75% ao ano, em um ajuste de 0,75 pontos porcentuais. Ao demonstrar uma preocupação com a inflação, a postura foi classificada como hawkish. Ao mesmo tempo, o Fed (BC americano) manteve a taxa de juros no mesmo patamar, mesmo vendo uma pressão inflacionária. Assim, a postura foi apontada como dovish.

Neste artigo, você saberá exatamente o que cada um desses termos significa. Ao lê-lo, você se deparará com importantes informações a respeito de como um Banco Central pode conduzir a política econômico de um país. Você saberá também quais são os impactos de tais medidas para o mercado de investimentos e a geração de empregos.

Como o governo de um país pode atuar em relação a política econômica?

No cenário macroeconômico, as políticas governamentais ditam o ritmo de praticamente todas as decisões que impactarão os mercados. É dever da política econômica de um país, por exemplo, controlar a inflação e as taxas de juros. O objetivo é evitar o desemprego e manter forte a moeda da nação.

Nesse sentido, as medidas governamentais podem apresentar-se em três frentes decisórias. Em resumo, elas podem atuar em nível de política monetária, fiscal e cambial. De fato, os aspectos que se referem as decisões econômicas frequentemente são um conjunto de medidas tomadas nesses três campos de atuação.

Política monetária

A política monetária lida com assuntos relacionados à moeda de um país. O objetivo é mantê-la forte frente a economia global, de modo que os produtos fabricados pela nação mantenham seu valor frente ao mercado internacional. Além disso, influencia também nos investimentos que um país recebe. Dessa forma, é vital para o desenvolvimento de um país.

Nesse nível, um governo pode atuar controlando a quantidade de moeda em circulação em um país em determinado momento. Pode ainda ditar as políticas de crédito, fazendo isso por meio da fixação das taxas básicas de juros. No Brasil, ela é conhecida como Selic e serve de base para precificar o custo dos empréstimos bem como é o principal balizador dos rendimentos auferidos por meio dos investimentos em aplicados renda fixa.

Política fiscal

Além disso, a atuação das políticas econômicas de um governo central deve regular o aspecto fiscal. Essa é uma amplitude muito importante da esfera de macroeconomia. É por meio dela que os gastos públicos são mensurados e postos em orçamentos. Ou seja, a política fiscal de um país determina o direcionamento dos gastos públicos, além de fazer o planejamento e implementação da carga tributária a qual estarão sujeitos as empresas e cidadãos.

Política cambial

Por fim, temos a atuação governamental relacionada à política cambial. Seu intento é elencar uma série de medidas que visam regular a relação da moeda local com a de outros países. Isso é de importância especial, visto que a troca de mercadoria e produtos entre nações precisa ter um câmbio equilibrado para que a relação comercial seja frutífera para todos os envolvidos.

O que significa o termo hawkish na economia?

O termo hawkish é usado em referência à postura que um Banco Central adota quando existe a intenção de aumentar (ou manter elevadas) as taxas de juros do país. O termo deriva da palavra em inglês hawk, que quer dizer falcão. Em princípio uma elevação nas taxas de juros pode parecer prejudicial para a economia. Com um juro elevado, há menos crédito e, portanto, dinheiro em circulação. Mas a verdade é que existe sim uma razão para adotar tal política.

Quando a atividade econômica de uma nação se encontra muito acelerada, o consumo tende a disparar. Quando isso acontece em um mercado consumidor, a inflação tende a ser maior, pois mercados aquecidos fazem com que a procura por produtos e serviços seja muito grande.

Uma das consequências de uma alta inflacionária é justamente a desvalorização da moeda de um país. Isso é uma das principais preocupações de qualquer país, pois caso saia do controle o caos econômico por surgir e prejudicar toda a população. Como forma de atuar preventivamente a esse cenário, a política econômica pode ser tornar hawkish, Ou seja, eleva a taxa de juros básica da economia e forçando a inflação a uma estabilização e consequente queda posterior.

Com as taxas de juros mais elevadas, é possível que o desemprego também aumente. É lógico que essa é uma consequência ruim de mercados hawkish. Em todo caso, faz parte de uma política econômica balancear o efeito de suas medidas no mercado. Se um país estiver muito negativamente afetado por esse tipo de decisão, pode ser o momento do conselho econômico rever sua postura. Assim, podem adotar medidas dovish.

E o que quer dizer dovish?

O termo também deriva de uma palavra em inglês que significa pombo. Trata-se da expressão “dove” e sua atuação vai de encontro à explicação dada anteriormente sobre mercados hawkish. Enquanto neste último a política monetária promove um aumento na taxa básica de juros, as decisões dovish prezam pela baixa.

A justificativa para implementar um política dovish são o fortalecimento da economia e a geração massiva de empregos. Em uma cenário desse tipo, o acesso ao crédito se torna mais atraente. Isso porque o custo do dinheiro é menor e isso favorece a expansão dos negócios já existentes no país. Com a ampliação da atividade das empresas privadas, é naturalmente esperado que o número de contratações aumente.

Outro aspecto interessante que surge em decorrência de mercados dovish é o aumento na concessão de crédito imobiliário. Esse é um outro tipo de custo regulado pela taxa básica de juros. Isso ajuda a colocar a economia em uma atividade ainda mais pujante, pois à medida que novos financiamentos são liberados, novas unidades habitacionais são construídas e o setor de construção civil desponta como forte agente modificador do mercado, contratando ainda mais.

Como as condutas hawkish e dovish afetam os investimentos?

O aumento ou diminuição na taxa básica de juros tem forte influência sobre a tomada de decisão nos investimentos. Em resumo, um mercado financeiro responde aos estímulos provocados pela política monetária.

Toda vez que as medidas econômicas tomam uma configuração hawkish e a taxa básica de juros é elevada, os investimentos de renda fixa tendem a ganhar a predileção dos investidores. A explicação para isso é que tais tipo de aplicações são diretamente atreladas à taxa básica. Logo, se ela sofre um acréscimo, os rendimentos vinculados a ela também serão elevados.

Para entender melhor, você pode pensar em um investimento típico de um título bancário como o CDB. Geralmente seu rendimento está associado a um percentual do CDI (que é um reflexo quase idêntico ao valor da Selic). Se o título render 120% do CDI, por exemplo, seu rendimento será o valor da Selic acrescentado de 20%. Isso vale para qualquer valor da taxa básica de juros, ou seja, quem varia é a Selic e não o percentual de rendimento.

Considerando a situação acima, para casos em que a taxa básica esteja em 5% (exemplo hipotético), o tal CDB renderia 6%. Já se a Selic estiver em 10%, o mesmo título teria um rendimento de 12%. Essa é uma forma de visualização bastante fácil das consequências de uma elevação na taxa básica de juros sobre o mercado de investimentos.

Já no cenário oposto (quando as decisões têm caráter dovish) é o mercado de risco quem toma a preferência dos investidores. Com uma taxa de juros básica em níveis baixos, a renda fixa perde atratividade. Dessa forma, a maior parte dos investimentos tende a migrar para a renda variável e esse tipo de aplicação entra em ciclo de recebimento de aportes cada vez mais volumosos.

Quais são os impactos das políticas hawkish e dovish no mercado de trabalho?

Perceba que esta não é a única explicação para o destaque da renda variável em um mercado dovish. Olhando do ponto de vista do capital o movimento torna-se bem notório.

Imagine que uma determinada empresa esteja com capital financeiro disponível para investimento na sua expansão. Imagine também que isso será feito por meio da abertura de uma nova filial. Ela não precisará tomar recursos emprestado para proceder à operação, pois conta com o dinheiro para fazer a expansão a vista.

No entanto, um cálculo deve entrar em ação para que se consiga concluir a viabilidade de tal movimento. Se a taxa básica de juros estiver muito alta, pode ser que seja melhor investir em títulos de renda fixa do que abrir uma unidade. Um negócio físico demanda muito trabalho por conta de novas contratações, aluguel ou construção de sede, recebimento de mercadorias, compras de insumos, entre outros gastos.

Imagine que tudo isso traga um rendimento de 30% ao ano. Nesse momento o capital privado faz uma análise para saber se vale a pena tamanho dispêndio de energia. Houve uma época em que a taxa básica do Brasil era de 14,25% ao ano. Isso quer dizer que um investimento no CDB apresentado nesse texto renderia mais de 17% ao ano, sem qualquer esforço. Pode ser que um empresário prefira esse tipo de rendimento em vez de montar outra estrutura.

Por outro lado, quando a taxa básica de juros está em níveis muito baixos, a comparação fica desproporcional. Considerando uma Selic de 2,75% ao ano, o mesmo CDB renderia apenas 3,30% ao ano. Nesse caso, 30% significa bem mais. E é ai que as demandas por contratações aumentam, pois o investimento físico e que gera emprego traz um retorno maior. Altas taxas de juros podem ser grandes causadoras de desemprego.

O mercado brasileiro está hawkish ou dovish no momento?

Em agosto de 2016, foi iniciado um ciclo de decisões por parte do Comitê de Política Monetária (Copom) brasileiro com características dovish. À época, a Selic estava com um valor de 14,25% ao ano e ficou decidido que haveria um ciclo de diminuição desse valor, a fim de incentivar o capital privado e a geração de empregos no país.

Foram 35 decisões tomadas ao longo de 30 meses que baixaram ou mantiveram a Selic em um estado de decréscimo. O resultado disso foi que chegou-se a um patamar mínimo histórico do valor da Selic: ela alcançou o nível de 2% ao ano. Mais dovish que isso é praticamente impossível.

No entanto, o ciclo dovish foi interrompido na reunião do Copom do dia 17 de março de 2021, quanto houve uma elevação abrupta da taxa básica de juros que passou dos 2% ao ano para 2,75%. Em apenas uma decisão, a Selic foi aumentada em 0,75 pontos porcentuais. A partir daí o Brasil entrou em um novo ciclo hawkish, com mais cinco altas seguidas. Para a próxima reuniãoem 8 de dezembro o Copom antevê ajuste de 1,5 p.p.

Todos os países devem praticar uma política econômica a fim de proteger sua população. Dessa forma, pode ser decidido por medidas de cunho hawkish ou dovish. Tudo dependerá do contexto econômico existente no momento. De acordo com a intenção pretendida, as taxas de juros, câmbio e inflação pode sofrer aperto ou frouxidão. Medidas desse tipo são necessárias para manter bom equilíbrio fiscal ao mesmo tempo que pressupões proteção da moeda local e garantia de empregabilidade.

Em qualquer que seja a política econômica, ter um auxílio na tomada de decisão dos investimentos é muito importante. Você pode contar com um assessor de investimentos preenchendo o formulário abaixo.

(Com Ronaldo Araújo)