Guerra Comercial EUA/China: Como se posicionar para lucrar com o eventual desfecho

O tema guerra comercial EUA/China dominou o noticiário dos mercados em 2018. Após uma longa sequência de altas, os índices das bolsas americanas encerraram o ano em queda com aumento substancial da percepção de risco global. Em dezembro de 2018, testemunhamos a maior correção dos mercados desde a Grande Depressão de 1931. Por trás do movimento, estavam duas preocupações centrais: perspectiva de aumento dos juros nos Estados Unidos, e uma desaceleração mundial provocada pelas tensões comerciais.

Thiago Queiroz
Thiago Queiroz é Gestor de Investimentos Internacionais, formado em Administração pelo IBMEC-RJ e detentor da designação CFA.

Crédito: Crédito da imagem: Cybrain/Getty Images

Nesse artigo, analisamos o tema guerra comercial e abordamos estratégias de investimento para lucrar com uma potencial resolução do assunto.

O que é a guerra comercial?

O evento se refere a mudanças nas regras no comércio bilateral, neste caso, impostas pelos EUA através da introdução de tarifas sobre produtos de origem chinesa, algo amplamente defendido durante a campanha presidencial de Donald Trump.

Crédito da imagem: Cybrain/Getty Images

Inicialmente, os americanos anunciaram uma tarifa de 10% sobre US$200 bilhões em produtos chineses, prometendo uma revisão para 25% ao fim do ano de 2018. Como se não bastasse, ainda sinalizaram uma extensão adicional que abrangeria outros US$267 bilhões. A China, por sua vez, respondeu com aumento de tarifas sobre US$60 bilhões em produtos americanos.

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Entretanto, o clima foi amenizado quando os líderes dos dois países se reuniram no último encontro do G20, e anunciaram uma trégua de 90 dias onde suas equipes se empenhariam num acordo. A princípio, o prazo se encerraria no dia 1 de março, porém, o Presidente Trump declarou não ter pressa e considera uma possível extensão.

Enquanto aguardamos o provável desfecho das negociações no curto prazo, chegou a hora de apostar nos ativos que podem trazer o maior potencial de rentabilidade.

Quem ganha e quem perde?

Os argumentos apresentados pelo governo americano em prol das tarifas comerciais fazem pouco, ou, quase nenhum sentido econômico. A narrativa observada tende a simplificar a dinâmica do comércio exterior para um padrão de relação ganha-perde, que na prática, foge a realidade. Uma das consequências da imposição de tarifas nos consumidores e produtores americanos, incluindo multinacionais, é o aumento de custo e consequentemente, perdas econômicas.

Por enquanto, os mercados aguardam uma resolução. No cenário otimista, os efeitos são a retomada dos investimentos e aumento da produção em decorrência da maior confiança dos empresários. Já no lado pessimista, com a falta de um consenso, um dos impactos será o aumento da taxa de desemprego nos EUA, e ainda, uma provável desaceleração econômica global mais acentuada. De fato, o FMI e o Banco Central Europeu já alertaram para esse prognostico.

Em estudo publicado pelo CPB Netherlands Bureau for Economic Policy Analysis, o cenário de guerra comercial resultaria em redução significativa do PIB Chinês, na ordem de 1,2%, enquanto a perda para os EUA seria próxima a 0,3%. Esse resultado assimétrico deve-se ao poder de mercado dos EUA e seu amplo déficit comercial com a China.

Déficit da Balança Comercial EUA x China nos últimos 10 anos (em USD bilhões)

Fonte: US Census Bureau

A China exporta aproximadamente US$ 500 bilhões anuais para os EUA, comparado aos US$ 130 bilhões exportados pelos EUA.

Na falta de um consenso, a economia global é quem perde.

Alguém tem que ceder

Recentemente, o presidente Xi Jinping afirmou que a história mostra que a cooperação é a melhor escolha para ambos os lados. Trump, por sua vez, respondeu de forma positiva, afirmando que sua prioridade é promover relações cooperativas e construtivas. Como já observado, os efeitos resultantes de uma guerra comercial prejudicam as duas economias.

Crédito da imagem: DepositPhotos/Artefacti

Ambas as partes estão parecendo otimistas e a velocidade das tratativas se intensificou, indicando que algum tipo de consenso é provável. Caso contrário, não haveria muito espaço para continuidade dos esforços. Enquanto existem algumas zonas de divergência, e qualquer tipo de acordo não deve solucionar todos os itens, a hipótese da assinatura de um memorando de entendimento ganha força. Sem dúvida, esse desfecho acalmaria os mercados.

Donald Trump declarou que pretende se reunir com seu Xi para sacramentar o acordo.

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Dado os sinais observados, o desfecho mais provável hoje é um acordo entre os gigantes.

 Qual é o impacto para o Brasil?

A China é o maior parceiro comercial do Brasil. Em 2018, obtivemos superávit comercial de US$ 31 bilhões, em novo recorde. Em meio ao ceticismo sobre o desempenho das exportações mundiais, o Brasil aumentou suas vendas para os dois países, incluindo a soja, produtos siderúrgicos e proteína animal. O Brasil acabou absorvendo em parte o que foi deixado “na mesa”, enquanto se discute o novo modelo comercial.

As importações Chinesas de soja americana chegaram a zero em Novembro de 2018, pela primeira vez desde o início do conflito, abrindo oportunidade para os produtores brasileiros.

 Superávit da Balança Comercial Brasil x China nos últimos 10 anos (em USD bilhões)

Fonte: Ministério da Indústria e do Comércio Exterior

Um estudo da Unctad – Key Statistics and Trends in Trade Policy 2018 – mostra que em caso de continuação da guerra comercial entre China e Estados Unidos, o Brasil poderia absorver mais US$ 10,5 bilhões em exportações adicionais. Dessa parcela, a maior fonte de ganhos adviria do mercado americano, superando as exportações adicionais de soja para a China.

Contudo, é importante destacar que o cenário de guerra comercial também traz suas preocupações para os brasileiros. Como exemplo, existe uma discussão quanto a competitividade a longo prazo, uma vez que as tarifas criam pressão nos preços. Outro ponto é a falta de visibilidade econômica, que resulta em atrasos nas decisões de investimentos em capacidade.  

Como se posicionar para lucrar com eventual desfecho favorável?

As instituições financeiras estrangeiras oferecem acesso a produtos que nos permitem posicionamento para lucrar com esse evento. Abaixo, apresentamos algumas alternativas de investimento, considerando um cenário provável de entendimento sobre a questão comercial:

Investimento 1 – Ações com exposição a China (ETFs e ADRs)

Os ETFs (Exchange Traded Funds ou Fundo de Índice) são fundos de investimentos que podem ser comprados ou vendidos como uma ação no pregão, por meio de uma instituição estrangeira.

Destacamos na tabela abaixo alguns ETFs listados na bolsa de Nova York, porém, com exposição a China.

Um dos destaques são os ETFs dedicados a Classe A, que incluem ações de companhias chinesas negociadas nas bolsas de Shangai e Shenzen, em moeda local. Historicamente, essas ações Classe A estavam restritas aos cidadãos chineses em função de barreias ao capital estrangeiro, porém, já estão disponíveis para os investidores internacionais.

Vantagens: Baixo custo transacional (funcionam exatamente como ações), negociam com muita liquidez, exposição a diferentes estilos, setores e classes de ações.

Desvantagens: Gestão passiva, taxa de administração do ETF.

Os ADRs são recibos de ações chinesas negociadas na NYSE. Os emissores são as grandes companhias, tais como: Alibaba, Tencent, Huya, JD, Bilibili e etc. Através dos ADRs, é possível obter exposição direta a essas empresas. 

Investimento 2 – Fundos de Investimento

As maiores gestoras globais oferecem fundos dedicados ao mercado Chinês há bastante tempo. Assim como no Brasil, é possível encontrar fundos de investimentos em ações, crédito e até mesmo multimercados. Também são oferecidos fundos especializados em setores específicos, tais como tecnologia, bancos, consumo, e etc.

Abaixo, destacamos alguns fundos dedicados a China:

Vantagens: Gestão ativa, fácil acesso nas plataformas estrangeiras, gestores especializados em setores (tecnologia, bancos, etc).

Desvantagens: Taxa de administração do fundo pode ser elevada, exigência de investimento mínimo (tipicamente US$5mil para as classes de varejo), liquidez.

Investimento 3 – Ações de exportadoras Americanas

Na tabela abaixo apresentamos empresas americanas com relevante exposição ao mercado Chinês. Essas companhias podem apresentar potencial de valorização interessante, considerando cenário comercial favorável.

Vantagens: Fácil acesso nas plataformas estrangeiras, maior flexibilidade para escolher o risco específico do investimento, liquidez elevada.

Desvantagens: Exige maior conhecimento e análise da empresa, maior concentração de risco.

Abaixo, destacamos três empresas bastante conhecidas no Brasil:

Micron Technology

Crédito da imagem: Justin Sullivan/Getty Images

Um dos setores mais afetados pela guerra comercial foi o de semicondutores. A Micron é uma das empresas americanas com maior exposição à China, com cerca de dois terços do faturamento. Enquanto suas vendas caíram, os drivers de demanda por chips e demais componentes eletrônicos continuam fortes e diversificados em indústrias como auto, data center, Inteligência Artificial e Telecom (5G).

Apple

Crédito da imagem: AFP PHOTO/Josh Edelson

No último trimestre, a Apple reduziu sua previsão de vendas em função de vendas mais fracas na China. Esse efeito é decorrente do sentimento negativo despertado pela guerra comercial (o que faz consumidores chineses optarem por não utilizar a marca americana), quanto pelo próprio preço elevado dos produtos da Apple.

A receita da companhia apresentou queda de 4,5% no último trimestre de 2018, ou quase US$5 bilhões a menos na comparação anual.

Boeing

Crédito da imagem: Alex JW Robinson/Shutterstock.com

Em sua última apresentação em setembro de 2018, a Boeing estimou que a China precisará de 7.690 novas aeronaves no valor de US$1,2 trilhões nas próximas duas décadas. Isso representa uma revisão de 6% comparada ao ano anterior, na medida que a classe média chinesa continua crescendo e consumindo viagens aéreas. Novas medidas de protecionismo poderiam expor a empresa.

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Conclusão

As principais opções para lucrar com o desfecho da guerra comercial EUA/China, através de uma instituição estrangeira, são: ações de companhias Chinesas (ETFs e ADRs), Fundos de Investimentos, e ações de exportadoras americanas.

O cenário mais provável aponta para um equilíbrio das relações comerciais, e para lucrar, é importante escolher investimentos com boa exposição a China, e como sempre, adequado ao seu perfil de risco. Evidentemente, um cenário de bom desempenho desses ativos estaria comprometido em caso de escalada da Guerra Comercial. Um incremento das tarifas poderia cobrir basicamente toda pauta de exportação da China, e assim, as retaliações seriam inevitáveis. Neste caso, esses investimentos resultariam em perdas.