Análises e Previsões

Gratidão, resiliência ou bigode, o que você prefere?

Segundo o filósofo Girafales, somente os idiotas têm certeza do que dizem, mas ainda assim, arriscaria dizer que estou certo em afirmar que em 2018, você deve ter “topado” no mínimo uma dezena de vezes com as palavras gratidão e resiliência.

Conforme a imagem abaixo, percebemos que o termo gratidão (em azul) explodiu em pesquisas no google, no final do ano de 2017 (e me parece óbvio entender as razões), logo, não seria absurdo afirmar que 2018 foi o ano da gratidão.

gratidão

Uma outra palavra bastante repetida nas redes sociais, ainda que em menor escala, é a resiliência (linha vermelha). Em amarelo, a palavra bigode que em alguns momentos igualou-se ao termo gratidão. Parece loucura, eu sei, mas a história a seguir, fala justamente sobre a improvável relação entre elas: Resiliência, gratidão e bigode.

Você já imaginou como ficaria de bigode? Então tenha um pouco de resiliência, pois o texto é longo.

Gratidão, resiliência e a maldição de Leôncio.

Não há neste mundo, criatura alguma que esteja completamente satisfeita com a vida. Uns odeiam sua aparência, vários dariam metade do salário por uma barriga tanquinho e quase todos odeiam sua própria rotina.

No caso do Leôncio, um de nossos funcionários mais promissores, o ódio era bastante autoexplicativo.

Léo, como insistia em ser chamado, costumava creditar todas as suas mazelas ao nome que lhe fora dado em homenagem ao seu  bisavô. Sempre que escutava algo sobre gratidão, pensava consigo:

– Gratidão uma ova! Maldito velho Leôncio!

Uma vez por mês, reuníamos todos os vendedores e apurávamos os resultados das vendas mensais.

Apesar de possuir diversos predicados importantes (pontualidade, assiduidade, profissionalismo, experiência e energia) o nome do Leôncio nunca figurava entre as primeiras posições do nosso ranking, além de raramente atingir sua meta/mês.

Em uma destas reuniões, após ser aconselhado por um dos líderes de equipe a ter mais resiliência, Léo finalmente interrompeu o silêncio:

– Não me venha com essa de resiliência! Como posso fechar vendas, com essa porcaria de nome?

No que compete o lado da “pessoa física”, o Léo até que era ajeitado: um bom porte físico,  estatura acima da média, higiene pessoal em dia, papo sempre agradável, uma dose certa de cultura inútil e uma barba muito bem cuidada.

Gratidão por isso?

Que nada, segundo ele, todo encanto findava quando descobriam que o Léo, era Leôncio.

Um zero à esquerda

Os sucessivos fracassos profissionais, também se verificavam em sua vida amorosa.

Levou meses tentando convencer a Ritinha (a recepcionista do prédio) a aceitar seu convite para um chope.

– Resiliência! Resiliência! – dizia a si mesmo.

Objetivo atingido, novamente o  azar lhe sorriu:

– Mesa para quantos?

– Dois, por favor.

– Nome?

– Léo.

– Leonardo?

-Leôncio.

E sobre nada mais se falou naquele primeiro e último chope.

Desgraça pouca era bobagem na vida do Leôncio. No entanto, não há mal que sempre dure, cumpriu-se o velho ditado.

Marcara desta vez, um café (pegou trauma de chope) com seu ex-amor dos tempos de colégio, a Virgínia, que não via há mais de 15 anos.

Naquele tempo, apaixonar-se por Virgínia era inevitável. Não estou falando do seu belo sorriso e de suas lindas pernas torneadas pelo Handebol. Nada disso!

Acontece que Virgínia sempre o chamou de, e isso a tornava única. Todos os demais o chamavam de Léo ou pior: Leôncio.

Saber que alguém aceitava-o pelo nome, ainda que usando apenas uma sílaba, era alentador. Sentia que com  Virgínia, podia ser ele mesmo.

E quando se tem 15 anos, poucas coisas podem ter mais importância.

Renascimento

No dia que antecedeu o aguardado encontro, Léo resolveu dar uma caminhada à beira mar. Achou que seria importante pegar um bronze para o grande dia.

Precisava de um cigarro, estava nervoso.

Foi então que o vento litorâneo fez com que a chama do isqueiro fosse de encontro a sua belíssima e bem cuidada barba.

Não se sabe ao certo o que veio primeiro: a dor da queimadura ou o “puta merda!”.

Apressado, sacou o celular do bolso, ativou a câmera frontal e conferiu incrédulo  o tamanho do estrago.

– Puuuuuuuuta meeeerda! – Repetiu.

 

A chama fez estragos irreparáveis na parte inferior de sua barba, um pouco abaixo dos lábios. Não havia jeito, teria de tirá-la.

– Maldito velho Leôncio! – Sussurrou baixinho, lembrando da maldição.

A volta para casa foi em tom fúnebre. Nem notou que pegara uma cor bonita, tal qual o planejado. Gratidão por isso? Ora vá…

Odiava despedidas longas e tratou logo de dar um fim ao seu martírio. Abriu a gaveta das meias e de lá tirou o barbeador elétrico.

“Deus escreve certo por linhas tortas”, dizem… Seja lá por qual motivo, Léo sentiu-se cansado de tudo aquilo.

– Estou farto de viver essa mentira, disse ao seu reflexo no espelho.

 

Cuidadosamente e com muito pesar, Léo foi retirando e despedindo-se de sua barba, de modo que rapidamente, viu brotar um imponente bigode que contrastava com o seu furinho no queixo. Lembrou então que fora justamente essa (o furinho) a razão por ter deixado a barba crescer.

Riu de si mesmo e decidiu dormir assim, ostentando seu mais novo amigo.

No dia seguinte, pulou da cama uma hora mais cedo e após um longo banho (onde até lembrou de lavar as orelhas), passou pomada no cabelo e inexplicavelmente, secou o bigode com o secador, tomando cuidando em desenhá-lo, fio a fio.

Vestiu seu melhor terno e usou finalmente a amostra grátis daquele perfume caríssimo que há meses guardava para uma ocasião especial (que nunca chegava).

Olhou-se no espelho e de fato, se achou um idiota.

Deu de ombros e pensou por uma fração de segundos em voltar e tirar aquele bigode horrível. Voltou a encarar o espelho, desta vez semicerrando os olhos.

– É… melhorou! – Pensou consigo.

 

Se você nunca saiu à rua de bigode, terá enormes dificuldades em entender como Leôncio sentiu-se no caminho para o trabalho naquela manhã.

superman bigode bode na sala - Gratidão, resiliência ou bigode, o que você prefere?

Segundo ele mesmo, é comparável aos sonhos que seguidamente temos, sobre estar usando terno e de repente notar que esqueceu de trocar os chinelos pelos sapatos.

Obviamente sequer passou pela recepção sem que a Ritinha o interpelasse:

– Mas o que é isso Léo?!?!!?

– Meu nome é Leôncio. Bom dia Rita – Encerrou falando com uma segurança incomum.

Durante o almoço, engoliu seco a vontade de mandar todos à merda, manteve-se altivo como exige-se de um homem com um bigode daqueles.

– Resiliência! Resiliência! – pensava.

Passou aquele dia inteiro tentando convencer a todos de que estava tudo bem e de que de agora em diante, podiam lhe chamar pelo nome de batismo.

As horas transcorreram de forma incomum. Leôncio (agora na versão Freddie Mercury) logo percebeu que sua atitude confiante, aos poucos, começava a lhe render os primeiros frutos.

Não fechou nenhuma venda naquele dia, é verdade, mas sentia que a impressão deixada ao telefone era diferente.

O grande encontro

Foi um dia e tanto, mas naquela data, nada disso tinha tanta importância quanto ela: Virginia.

Próximo das 19:00h, voltou a encarar o espelho antes de finalmente sair para seu encontro.

Pensou em todos os acontecimentos daquele dia louco e em como sentia-se aliviado em assumir sua nova identidade.

Mas o bigode… Será que não fora longe demais?

Ainda estava em tempo de voltar atrás, mas em seu íntimo, algo lhe dizia que aquele amontoado de pelos era um símbolo de sua transformação. Um marco histórico, que agora dividia o livro sagrado de sua miserável vida em A.B e D.B.

Umedeceu as mãos, aplicou uma dose extra de pomada nos cabelos e do bolso do paletó, tirou um pequeno pente, suficiente para deixar seu bigode impecável.

– Que se foda! – Pensou antes de bater a porta do banheiro, rumando ao encontro de Virginia.

Ainda teve a chance de olhar-se uma última vez pelo espelho, no hall que dava acesso ao fino restaurante onde em segundos encontraria sua antiga paixão.

Estufou o peito, voltou a cerrar os olhos (afinal sempre funcionou para o James Dean), pensou em tudo o que diria à Virginia e sorriu.

– Lêêêêêê! Quanto tempo! Venha cá me dar um abraço.

E durante aqueles 2.3 segundos, sentiu como se o tempo não tivesse passado, Virginia ainda tinha o sorriso mais encantador do mundo, e as pernas…. Ah, aquelas pernas!

– Sente aqui, este é o Gustavo, meu marido

– Muito prazer Gustavo, Leôncio.  – Decidiu que nem mesmo aquela sensação de ser espetado por mil agulhas seria suficiente para estragar seu novo “eu”.

Ainda que o fracasso insistisse em lhe zombar de forma silenciosa, Leôncio não pôde deixar de reparar no bigode do Gustavo. Até havia algo de promissor ali, mas nada que intimidasse alguém com um bigode tão imponente e um nome deveras moralizador: Leôncio.

– Resiliência! Resiliência! – Era só o que seu coração, reduzido ao tamanho de um grão de ervilha, conseguia “dizer”.

– A Virgínia me falou que você trabalha com investimentos

Foi a deixa para que Leôncio assumisse o controle da situação. Passou a fazer perguntas e enquanto ouvia as respostas de Gustavo, instintivamente mexia em seu bigode, deixando muito claro quem dava as cartas ali.

Gustavo acabara de vender sua empresa (uma promissora start up do segmento de próteses para atletas paraolímpicos) para um conglomerado de investidores chineses.

Foi difícil manter a compostura diante das cifras colocadas à mesa. Quando sentiu o sorriso, que entregaria o valor da sua comissão, chegando de forma quase incontrolável, lembrou da Ritinha, da barba incendiando, dos anos e anos em que foi motivo de chacota e é claro, do símbolo de seu renascimento: o bigode!

Voltou a alisá-lo e cerrar os olhos, como James Dean. Em um rompante inédito de autoconfiança vindo sabe-se de onde, emendou em tom sereno:

– Bom Gustavo, estamos entre amigos, então não vejo razão para não ser sincero. Costumo atender clientes com um aporte financeiro maior. Posso te indicar alguém mais “júnior” lá do escritório…

Antes de encerrar sua atuação, digna de um Urso de Ouro , foi interrompido por Virginia.

– Puxa Lê… Esse é todo o dinheiro de nossas vidas, gostaríamos muito  que ele fosse cuidado por alguém com a sua experiência e que fosse da nossa mais inteira confiança…

– Tenho alguns amigos para te indicar também, com certeza eles possuem um patrimônio maior… – Completou um quase desesperado Gustavo.

– Está bem. Vocês têm razão, estamos entre amigos e tenho certeza que fariam o mesmo por mim. – Completou Leôncio, com irreconhecível naturalidade.

O calcanhar de Aquiles

Até hoje, cinco anos depois, Leôncio é o responsável por trazer a maior conta da história da empresa (justamente, um amigo do Gustavo) e sempre conta esta história aos vendedores iniciantes que cogitam desistir da carreira com o argumento de “Não sei se vendas é para mim”.

E o bigode continua impecável!

Muito se fala em gratidão e resiliência. São conceitos muito interessantes, utilizados por diversos coaches em suas palestras motivacionais e publicações (mesmo que muitos deles nunca tenham de fato, exercido a função de vendas, com metas mensais e todas as pressões proveniente delas).

Se analisarmos a “letra fria” do dicionário, o termo “resiliência”, é derivado de um fenômeno da física e consiste em explicar a propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica.

henrique - Gratidão, resiliência ou bigode, o que você prefere?

No caso do Leôncio, o ponto de virada da chave foi justamente o contrário: Durante toda sua vida, fora submetido aos mais variados infortúnios e enquanto foi apenas resiliente, jamais ultrapassou a linha da mediocridade.

É bem verdade que muitas vezes, limitou-se a pensar que seu nome era a razão por toda má sorte de eventos que sucediam-se inapelavelmente em sua vida pessoal e profissional.

O que determinou sua mudança de atitude, não foi a capacidade de aguentar o fardo de ter um nome passível de chacota, tampouco agradecer por ter sido o escolhido para homenagear um bisavô que nem chegou a conhecer.

A “sorte” de Leôncio mudou, no dia em que simplesmente cansou de tentar fugir de quem era.

Leôncio percebeu que nenhum nome é tão desgraçado quanto o fato de ser um homem com uma atitude sempre negativa.

Você teria coragem de usar um bigode?

Gratidão e resiliência, sem sombra de dúvidas, são muito importantes no sentido de suportar dificuldades inerentes à nossa existência ou atividade profissional e ser grato pelas pequenas conquistas e avanços diários.

Mas tão importante quanto aprender a ser grato e resiliente, é aprender a identificar nossas limitações, ter coragem para enfrentá-las e é claro, estar preparado para as consequências que virão com o nascimento de um novo ser.

Os ventos sopram em outras direções, quando percebemos o quão dispendioso pode ser uma vida pautada em algo que não está ao nosso alcance mudar.

Mudar, mudar e mudar… essa é a palavra. Se você não está aberto a mudanças, ter gratidão e resiliência lhe será tão útil quanto assistir a propaganda eleitoral obrigatória.

mudar gratidao

Para muitos, o sucesso de Leôncio como vendedor está associado ao acaso, pela sorte de uma barba que milagrosamente pegou fogo, afinal, isso não é lá algo que acontece todos os dias.

Mas a capacidade de mudar, enfrentando as consequências e fazer do limão uma limonada (ou do queimão uma bigodeada) é um mérito que é único e exclusivo seu.

Lembre-se: Gratidão e resiliência continuarão sendo apenas hashtags  em sua vida,  enquanto você não entender que todos temos o nosso calcanhar de Aquiles e sabedor disso, escolher qual caminho seguir: Continuar usando suas limitações como bengala e instrumento de auto sabotagem…

Ou  simplesmente deixar o bigode crescer…

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Filipe Teixeira

Filipe Teixeira é redator do Portal EuQueroInvestir. Gremista, filho dos anos 80, apaixonado por filmes, música, política e economia.

É também Coordenador da área de Marketing do EuQueroInvestir.com e do EuQueroInvestir A.A.I assessores de investimentos.

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