Governo e Centrão negociam cargos ocupados por militares

Osni Alves
Jornalista (2007); Especializado em Comunicação Corporativa e RP (INPG, 2011); Extensão em Economia (UFRJ, 2013); Passou por redações de SC, RJ e BH (oalvesj@gmail.com).

Crédito: O presidente Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, durante sessão solene em homenagem ao ator Carlos Alberto de Nóbrega, na Câmara dos Deputados.

O espectro político brasileiro se divide em direita, esquerda e centro. Este último tem se aproximado do presidente Jair Bolsonaro afoito por cargos no governo.

Buscando apoio em sua base política no Congresso, Bolsonaro também dá passos largos em direção ao “centrão”, conforme o jornal O Estado de S. Paulo.

Tudo normal, com exceção de um detalhe: o centrão avança em áreas do governo antes restritas aos militares. A iniciativa não é bem vista pelos fardados.

BDRs, Day Trade, Unicórnios e novos IPOs.

Hoje é dia de insights para investir em 2021.

Trata-se de um esforço do presidente para montar sua frente anti-impeachment. Ou seja, ele tenta, agora, abrigar os partidos do bloco em diretorias estratégicas de agências, bancos regionais, fundações e estatais que operam orçamentos bilionários.

Conforme o Estadão, esse “fenômeno” nada novo já começou a frear a “militarização” dos órgãos públicos e se expande para parte dos 106 postos do primeiro ao terceiro escalões, ocupados por oficiais da reserva e da ativa.

Significa dizer, em um dialeto comum em Brasília, que a máquina federal está se abrindo aos apadrinhados políticos.

E os congressistas têm fome e sede de cargos. Uma das joias cobiçadas neste ano de eleições municipais é o ministério do Desenvolvimento Regional.

Segundo o jornal, a pasta comandada por Rogério Marinho tem orçamento de R$ 33,2 bilhões para pequenas obras nos grotões.

O Palácio do Planalto ofereceu ao Progressistas cargos no Departamento Nacional de Obras contra as Secas, o Dnocs.

O partido ainda recebeu oferta de diretorias na Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Entretanto, o governo decidiu negociar cargos em outros setores da pasta, como a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), que tem orçamento previsto de R$ 1,6 bilhão neste ano, a Agência Nacional de Águas (ANA) e os órgãos de desenvolvimento regional Sudene, Sudam e Sudeco.

Para o jornal, uma parte desses cargos foi oferecida ao PL de Valdemar Costa Neto. Condenado no mensalão e investigado pela Lava Jato, o ex-deputado deverá ter, ainda, postos no Banco do Nordeste, na Saúde, nas agências reguladoras e conselhos de estatais.

Há também disputas entre os partidos na distribuição de cargos: o DEM bateu o pé e continuará no comando da Codevasf, mas diretorias da estatal serão divididas entre outros partidos do bloco.

No caso do Banco do Nordeste, o Planalto impôs a condição de que o indicado pelo partido seja de carreira, isto é, um servidor cooptado pela legenda, para evitar desgastes na imagem do governo.

De acordo com o jornal, dos nove ministros militares, um pode perder o cargo para o centrão. Motivo: o PSD do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab pretende voltar a controlar o ministério da Ciência, Tecnologia e Comunicações.

Kassab também está de olho nos Correios, presidido pelo general Floriano Peixoto.

Casamento

Os grupos do centrão e dos militares são vistos como esteios de Bolsonaro, mas o crescimento de um no governo pode se dar em detrimento do outro.

A secretaria Especial do Esporte é um exemplo recente desse cabo de guerra. Numa só tacada, o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni (DEM-RS), dispensou em março três coronéis do Exército.

Na prática, a atual rodada de negociação do Planalto com o centrão começou em março, mas Bolsonaro esperou até meados de abril para informar à sua equipe que precisava abrir de vez a “porteira” do governo ao bloco.

Em uma das reuniões, o então ministro da Justiça Sérgio Moro discordou. Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional, também reclamou.

Bolsonaro tem uma resposta pronta para seu eleitorado que rechaça o Centrão. “Tem dezenas de milhares de cargos. Se um ministro quiser dar um cargo para alguém do partido sem eu saber, você acha que isso pode acontecer? Pode”, disse ele na última terça-feira.

Chega a 80 o número de superintendentes em postos de terceiro escalão com poder de mando, nomeados por causa da aliança política.

Dez partidos emplacaram apadrinhados: PSD (4), MDB (3), PL (3), PSL (3), Progressistas (2), PSC (2), SD (2), DEM (1), PTB (1) e Cidadania (1).

Na outra ponta, a caserna continuou contemplada, mas em escala menor. Neste ano, a proporção de superintendentes nomeados foi de dez com elos partidários para cinco militares. O general Antônio Filho é mais um que pode perder o Dnit para o centrão.

Bolsonaro se convenceu de que está numa encruzilhada, de acordo com aliados.

Ex-capitão, ele se vê diante da possibilidade de repetir Dilma Rousseff, que sofreu impeachment, ou Michel Temer, que fez sucessivas negociações políticas para completar o mandato. Segundo um aliado, foi uma absurda capacidade de criar crises que abriu o governo mais rápido para os partidos.

Com passagens pelo PTB de Roberto Jefferson e PP de Paulo Maluf, Bolsonaro voltou à sua origem: um representante do Centrão. Só que agora no Palácio do Planalto.