Governo Bolsonaro: incógnita está nas Forças Armadas, diz relatório

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor
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Crédito: Reprodução / Fotospublicas

Relatório de análise da Traumann Consultoria, divulgado na sexta-feira (3), disserta sobre a fidelidade das Forças Armadas nesse momento de crise do governo Jair Bolsonaro (sem partido). “A principal incógnita sobre o futuro do governo Bolsonaro está nas Forças Armadas”, inicia o trecho específico sobre os militares.

“Na manhã da segunda-feira (30), o presidente foi visitar o general da reserva Eduardo Villas Bôas, visto como um símbolo de equilíbrio. Bolsonaro pediu apoio e, horas depois, Villas Bôas postou no twitter uma mensagem de apoio ao presidente. ‘Pode-se discordar do presidente, mas sua postura revela coragem e perseverança nas próprias convicções’, escreveu”.

O relatório explica a posição dos militares no governo, partindo de duas premissas: “Bolsonaro é o primeiro presidente a fazer
entregas reais às Forças Armadas. Além dos oito ministros com passagens pelas Forças (quase todos do Exército), estimasse que mais de 1.000 oficiais tenham sido contratados em cargos de confiança desde a posse de Bolsonaro. A reforma das pensões aprovada no Congresso foi na verdade uma bilionária reorganização da carreira, com aumentos reais dos soldos”, explica.

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“Com todo o liberalismo de Paulo Guedes, a Marinha conseguiu capitalizar uma estatal para construir corvetas. No orçamento deste ano, ficou proibido bloquear os gastos do Ministério da Defesa, incluindo os projetos do submarino nuclear e dos caças FX. Existe no Exército, mas também nas outras duas Forças, um sentimento de reconhecimento ao presidente por essas atitudes. Essa gratidão será um fator a ser levado em conta se um dia a oposição tentar fazer o impeachment de Bolsonaro”, segue.

Principal fiador do governo

A segunda parte do princípio de que “o principal fiador de Bolsonaro no Exército é o general Luiz Ramos, ministro da Secretaria de Governo e fonte de dez entre dez jornalistas políticos de Brasília. Ramos considera que a imagem das Forças já está irremediavelmente ligada à de Bolsonaro. O melhor para a corporação, portanto, seria entrar cada vez mais no governo, impor uma unidade de ação ao governo e dar um tom menos belicoso ao discurso bolsonarista. A primeira parte já começou, com general Braga Neto (foto) assumindo a chefia da Casa Civil e centralizando no Planalto todas as notas das assessorias de imprensa dos ministérios. A parte da moderação do discurso tem sido um fracasso retumbante”.

Segundo o relatório Traumann, “é possível afirmar com segurança que hoje Bolsonaro tem o apoio das Forças Armadas”.

Esse ainda é um dado importante no histórico da frágil e recente democracia brasileira, após 1985.

Concordância com o governo

“Muitos generais concordam com o núcleo do raciocínio do presidente (na questão da pandemia): há exageros nas interdições nas cidades, os governadores estão aproveitando para fazer proselitismo político e a economia vai se desarranjar de tal forma que pode causar distúrbios sociais. Discordam do tom”, diz o relatório.

Essa é uma análise, em certa medida, de algumas vozes da sociedade civil também, incluindo empresários alinhados de primeira hora ao presidente.

“Poucos fatores causam tanto pesadelo nas Forças quando o que os militares batizam como ‘indisciplina social’. Há uma doutrina arraigada especialmente no Exército de que uma das suas missões prioritárias seria impedir essas indisciplinas, motivo pelo qual Bolsonaro sempre cita a possibilidade de saques para exemplificar as consequências de um desemprego em massa”, escreve a Traumann Consultoria.

“O Brasil teve recentemente dois episódios claros de convulsão: nas marchas de 2013 e na greve dos caminhoneiros de 2018. Nenhum dos dois casos foi resolvido com a presença do Exército”, segue.

O limite

A grande questão desse trecho específico do relatório resume-se nessa questão: “mas até onde as Forças estão dispostas a ir com Bolsonaro?”.

“Conversas com oficiais da ativa e da reserva do Exército e da Marinha nesta semana mostram que existem limites para a fidelidade ao presidente. São limites talvez mais largos do que gostariam os democratas tradicionais, mas muito menos do que supõe o presidente”, diz a publicação.

“Generais e Almirantes consideram que se houver episódios de caos social, Bolsonaro pode recorrer aos quarteis para salvaguardar a ordem pública. Isso significaria, eventualmente, intervir em ações nos Estados contra a opinião de governadores e Congresso. É grave, mas para aí. Há uma postura legalista entre os oficiais mais graduados que tende servir de freio a uma aventura autoritária. Numa comparação grosseira com 1964, um general lembrou que Castelo Branco tinha então o apoio dos governadores do Rio, São Paulo e Minas, do empresariado, dos ruralistas, da mídia e da grande maioria do Congresso (Juscelino Kubistchek e Franco Montoro votaram no marechal na eleição indireta no Congresso)”, lembra.

Bolsonaro, por sua vez, tem o apoio de uma minoria de um terço da sociedade, seu núcleo duro eleitoral e mais radical. Os moderados, segundo pesquisas, os anti-petistas por opção, que votaram nele e fizeram a diferença em 2018, esses largaram o presidente e, talvez, batam panelas nos bairros mais privilegiados do país.

Panelaços e Mourão

A desaprovação crescente do presidente é levada em conta pelos militares, segundo o relatório. “Como disse Villas Bôas ao Estadão, ‘me preocupo com os panelaços. Pode significar perda de apoio. Isso psicologicamente é negativo'”.

“Ironicamente, um dos motivos do legalismo é o vice-presidente Hamilton Mourão”, segue o relatório. O vice já andou ganhando capas de revistas, chamado de “opção” e “solução”, tal e qual Michel Temer em relação à ex-presidente Dilma Rousseff.

“Quinta opção de Bolsonaro e com seguidas defesas de intervenção militar, Mourão deveria ser um vice que metesse medo na hipótese de um impeachment. Nesse novo cenário, Mourão serve como um ‘ganha-ganha’ para as Forças, que podem manter seu protagonismo nas duas situações”, conclui o relatório nessa questão.

“Nada moderado em Bolsonaro dura 24 horas. Bolsonaro nunca foi um militar disciplinado”: as afirmações do relatório mostram que a incerteza ainda é a força motriz do governo durante a crise.

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