Goldman: ciclo de afrouxamento monetário de emergentes pode estar perto do fim

Marcello Sigwalt
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Crédito: Site Plataforma Fastrade

Uma vez, praticamente esgotados os recursos que garantem liquidez ao sistema financeiro, os bancos centrais se deparam com o seu maior desafio pós-crise: a incerteza.

Sob esse espectro indesejável, as autoridades monetárias – sobretudo de países emergentes – agora ultimam os ajustes nos respectivos ciclos de corte de juros.

Espaço pequeno

A despeito da posição pública de “sempre estar disposto a lançar mão do que for necessário para defender o padrão monetário nacional”, o Banco Central brasileiro (BC) tem sinalizado que, “se houver espaço para corte da Selic (taxa básica de juros), este será pequeno”, divulgou o Valor Econômico.

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Na avaliação do chefe de pesquisa para a América latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, “os países emergentes já fizeram bastante do ponto de vista fiscal e monetário. Inclusive, alguns que tinham pouco espaço para agir”.

Sem muita margem de ação, Ramos acrescenta que “os mercados estão deixando de precificar novas ações agressivas de acomodação monetária nos emergentes “high yield”.

À exceção do México, em todos os demais emergentes, “as curvas de juros em moeda local têm projetado espaço apenas residual para cortes adicionais nas taxas”.

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Cautela é o comportamento dominante entre os bancos centrais.

A megaconsultoria internacional elaborou uma análise breve sobre o comportamento das autoridades monetárias dos principais países emergentes.

Brasil

Para a Goldman Sachs, é ‘praticamente certo’ que o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom/BC) deverá reduzir novamente a taxa básica de juros (Selic), desta vez para 2%.

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O desequilíbrio fiscal é o fator determinante do comportamento futuro da autoridade monetária tupiniquim, pois oferece riscos para a política monetária.

Na previsão do economista-chefe da Garde Asset Management, Daniel Weeks, o Copom deverá aguardar mais definições sobre o futuro das contas públicas, em especial, no que toca ao orçamento de 2021, para então avaliar se o quadro indica nova redução da Selic.

No próximo mês, explica Weeks, haverá um turbilhão fiscal, e o impacto, em outubro. “O Copom dispõe de 90 dias para avaliar o cenário”, define.

Colômbia

Agressivo no afrouxamento monetário, desde o início da crise, com direito a cortes de juros e compras de ativos no mercado secundário, o banco central colombiano dá sinais “de redução do ritmo de atuação”.

Em consequência, a autoridade monetária local cortou novamente sua taxa básica de juros, para 2,25%, ao mesmo tempo em que revisou para baixo as projeções para atividade econômica do país, em meio a uma expectativa de inflação anual abaixo da meta de 3%.

Ainda assim, “a depender de surpresas negativas no processo de recuperação econômica”, a instituição admite aplicar novos cortes.

Para os economistas do Scotiabank, Sergio Olarte e Jackelin Piraján, a cautela é o que caracteriza melhor a atitude do BC colombiano frente à incerteza reinante. Eles projetam um corte final da taxa, neste mês, para 2%.

África do Sul

Decisão apertada. É o que mostrou a decisão dos diretores do Banco da Reserva da África do Sul (SARB). Enquanto três deles foram a favor do corte de 0,25 ponto percentual, outros dois votaram pela estabilidade. Como resultado, a taxa básica baixou para 3,5%.

Para o economista para África do Sul do Barclays, Michael Kafe “esse quadro sugere que, a menos que as coisas mudem drasticamente, o mais provável é que os juros permaneçam inalterados nesse patamar até o final do ano”.

Apesar de ser o emergente com maior inclinação (para baixo) dos juros, não há previsão de redução adicional, além um corte mínimo de 0,25 ponto percentual.

Índia

Apostando numa tendência de estabilidade, o Banco da Reserva da Índia (RBI) decidiu, de forma surpreendente, manter a taxa de juros em 4% nesta semana.

Em que pese a preocupação com relação ao comportamento da inflação, o economista para Índia do Société Générale, Kunal Kundu, acentua que a economia local mostra ‘sinais de fraqueza’, o que talvez explique a resistência da autoridade monetária em baixar mais os juros.

Kundu destaca que o BC indiano preferiu seguir ‘atrelado a dados’, a espera de novas medidas. Ele conta que o Société Générale projeta um cenário de 3,5% de juros até o final de 2020.

Rússia

Diante de um ambiente de grandes incertezas, as autoridades monetárias evitam cravar uma trajetória específica para os juros, mas deixaram ‘a porta aberta’ para novas reduções, condicionadas aos números futuros de crescimento e inflação.

Após o corte de 0,25 ponto percentual, a taxa básica russa passou a 4,25% ao ano, diante da possibilidade de “fatores desinflacionários continuarem a pressionar os preços internos”, embora o mercado tenha precificado uma redução maior da taxa, de meio ponto percentual.

O economista Alberto Ramos, do Goldman Sachs, diz ser preciso “boa dose de realismo” no que toca a novos cortes de juros, pois as economias emergentes têm menos espaço do que as desenvolvidas para “agir na política monetária ou na fiscal”.

Ramos, no entanto, acentua que o estímulo à atividade “não depende apenas do custo do dinheiro, mas do nível de incerteza, ainda presente na crise”.

“Juro real zero (como ocorre em alguns países) já representa incentivo suficiente, mas é hora de verificar os efeitos dessa medida. Não se trata apenas de questão de renda, mas também de incerteza”, acrescentou.

México

Caso peculiar é o mexicano. Tardio em aplicar os cortes, agora o banco central do país (Banxico) tem-se mostrado cauteloso, apesar da crise, uma vez que os números da inflação continuam a frear o ritmo das reduções.

O país centro-americano tem mantido elevados seus juros, na faixa de 5% ao ano, o que tem impedido a redução do custo dos empréstimos e tornado impraticáveis os programas de oferta de liquidez. A previsão de Goldman Sachs é de que o juro mexicano encerre 2020 a 4% ao ano.

Turquia

Sob ataque de mercados financeiros nos últimos dias, com o dólar batendo recorde após recorde (acima de 7 liras), a Turquia precisou adotar o controle de capitais para defender sua moeda.

Para surpresa de muitos, o banco central do país manteve, no fim de junho, a taxa de juros turca em 8,25% ao ano, para uma expectativa menor, pelo mercado. Analistas avaliam que “a política monetária pode estar frouxa demais”.

Para estes, o banco central turco terá de aumentar ‘drasticamente’ as taxas de juros, num quadro crítico, em que as reservas líquidas foram zeradas em abril último; perspectivas de esgotamento de colchões de liquidez ao final do terceiro trimestre e a necessidade de elevação dos juros em setembro próximo.

Efeitos colaterais

Depois do afrouxamento monetário, os efeitos colaterais.

Na visão do Emerging Monetary Mood Indicator (EMMI), do Bank of America (BofA), esta é hoje a maior preocupação das autoridades monetárias dos países emergentes, que vem demonstrando menor ‘flexibilidade monetária’ do que no auge da crise, meses atrás.

Mesmo assim, os analistas do BofA observam que a maior parte dos bancos centrais ainda adotam uma postura favorável à flexibilização.