Gol (GOLL4) e Azul (AZUL4) em alta: vale a pena investir?

Natalia Gómez
Editora, é jornalista especializada no mercado de investimentos há 17 anos. Formada pela PUC-SP, teve experiências em veículos como Agência Estado, Valor Econômico e Revista Você SA; e na área de comunicação corporativa e relações públicas para instituições financeiras.
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Crédito: Foto: Agência Brasil

As empresas aéreas Azul (AZUL4) e Gol (GOLL4) se transformaram nos “patinhos feios” da bolsa de valores durante a pandemia, e não foi para menos. No ápice da crise, as decolagens caíram mais de 90%.

Agora, alguns sinais estão trazendo maior otimismo para esse setor na bolsa. Com isso, a Azul e a Gol já acumulam altas de 43% e 20,5% nos últimos 30 dias. No mesmo período, o Ibovespa cai cerca de 1%.

Segundo o MarketWatch, as ações da Gol e da Azul comeaçaram a receber avaliações mais positivas dos analistas em setembro. Por exemplo, em 4 de setembro, o Raymond James elevou a recomendação dos ADRs das duas empresas para outperform (acima da média do mercad0). Antes, o rating era market perform, ou seja, em linha com o mercado.

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Em seguida, foi a vez do Deutsche Bank elevar o rating, em 9 de setembro. A recomendação, que era de manter (hold), passou para recomendação de compra.

Confira nesta reportagem o que justifica a retomada dos papéis e quais são as expectivas dos analistas para o setor aéreo na B3.

Tempestade perfeita para Gol e Azul

As ações da Gol e da Azul foram submetidas a um conjunto de más notícias neste ano. Não bastasse a queda brusca da demanda, as empresas também foram pressionadas por notícias negativas de outras empresas do setor.

A falência da Avianca e a recuperação judicial da Latam são bons exemplos disso. “Foi uma sequência de sustos neste mercado”, destaca Henrique Esteter, analista da Guide.

A elevada exposição das empresas aéreas ao câmbio ajudou a agravar a situação. Em meio à alta do dólar, as companhias sofreram com alta de custos, justamente num momento de baixa demanda.

Antes da crise, a ação da Gol estava na casa dos R$ 30. No auge da pandemia, chegou a ficar abaixo de R$ 6. O papel da Azul, antes na casa dos R$ 50, caiu para R$ 10 no início da pandemia.

No entanto, finalmente as boas novas começaram a chegar neste mercado, refletindo nas cotações.

Situação financeira não tão ruim

Um dos motivos para a melhora das ações das aéreas foi a percepção do mercado de que a situação financeiras das empresas não era tão ruim quanto a dos seus pares internacionais.

Isso trouxe um grande alívio e começou a ajudar na retomada dos preços. “Percebemos que o cenário é desafiador, mas não tão crítico”, disse Estater.

No final do segundo trimestre, a Azul divulgou que sua liquidez imediata somava R$ 2,3 bilhões. A liquidez total da Azul foi de R$ 6,6 bilhões, incluindo investimentos de longo prazo, ativos disponíveis e reservas de manutenção.

Ao mesmo tempo, a Gol também tranquilizou o mercado com seus dados financeiros. Neste mês, a Gol divulgou que encerrou o mês de agosto com cerca de R$ 2,1 bilhões de liquidez total. Além disso, a empresa conseguiu cumprir com sua principal dívida de curto prazo (Term Loan B).

Segundo comunicado, o prazo médio de vencimento da dívida da empresa é de quatro anos – excluindo arrendamento de aeronaves e notas perpétuas. No documento, a empresa disse que tem liquidez suficiente para financiar suas atividades, pagar despesas e dívidas.

BNDES na jogada

Desde o início da pandemia, as empresas e o governo começaram a negociar uma possível ajuda financeira. Mas o apoio chegou somente neste mês, e os analistas ainda não têm certeza se as empresas vão aceitar a ajuda oferecida.

As propostas feitas pelo BNDES às duas empresas preveem a captação em mercado de R$ 2 bilhões por empresa, com partipação do banco estatal de até 60% do montante. Os bancos privados entrariam com 20% do valor, e o restante seria captado junto ao mercado.

A operação seria feita por meio de uma emissão de debêntures e bônus de subscrição, que dão ao detentor a preferência na compra de novas ações emitidas pela empresa.

De acordo com o analista da Ativa, Ilan Arbetman, a ajuda do BNDES seria bem-vinda, mas o custo imposto pelo banco é considerado alto. “A ajuda do BNDES não é de graça, pois a possibilidade de conversão dilui os acionistas”, destaca.

Por isso, não se descarta a possibilidade de as empresas buscarem apoio em outras frentes – até com sócios de outros países, segundo o sócio da consultoria Performa Partners, André Pimentel.

De qualquer forma, o apoio do governo ajudou a impulsionar a alta das cotações nas últimas semanas.

Além disso, a queda do dólar nos últimos três meses (de R$ 5,96 para R$ 5,24) também foi benéfica para as ações, de acordo com o economista daEQI Investimentos, Pedro Ivo.

Sinais de retomada

Embora a situação financeira e o apoio do BNDES sejam assuntos importantes, o que mais interessa ao mercado é observar a retomada da demanda por voos. De acordo com os especialistas, é a volta das viagens aéreas que fará a alta das ações continuar.

Por isso, a expectativa de uma vacina para o coronavírus é um fator que influencia muito as cotações destas companhias.

Vale destacar que, embora tenham subido nos últimos 30 dias, as ações ainda caem no acumulado do ano. No caso da Azul, o papel cai 50% no ano. Já a Gol recua 43% de janeiro até agora.

Aquecimento da Gol

Até agora, os dados de retomada têm sido animadores. Os números de agosto divulgados pela Gol mostraram que a empresa aumentou a sua oferta para uma média de 190 voos por dia para atender um aumento de 20% na demanda.

Para setembro, a companhia projetou alta para 300 voos por dia. Isso representa 40% do realizado no mesmo mês do ano passado.

Para o terceiro trimestre, a Gol projetou alta de 300% na capacidade ante o trimestre anterior. Já para o quarto trimestre, a alta deve ser de 120%. A meta é terminar o ano usando 80% da sua capacidade doméstica.

Retomada da Azul

Já a Azul prevê terminar o ano com uso de capacidade de 60%. Em agosto, a empresa voou com cerca de 40% da sua capacidade doméstica comparada com o mesmo período no ano passado. Também em agosto, o tráfego de passageiros cresceu 26,4% em relação a julho.
Mesmo assim, nem tudo são flores. Para o segundo semestre de 2020, a Azul espera ma média de queima de caixa diário de aproximadamente R$3 milhões. “Imagina você abrir sua loja todo dia tendo que desembolsar R$ 3 milhões por dia, esta é a situação do setor”, afirma o analista da Ativa.

Perspectivas

Apesar da alta nas ações vista neste mês, as ações das aéreas inspiram cautela devido aos vários riscos envolvidos no setor. De acordo com a Guide, é preciso continuar observando a recuperação da demanda. “Ainda estamos neutros nesses papéis”, afirma Estater.

No caso do setor rodoviário, a recuperação da pandemia já está mais avançada. Mas o caminho para o setor aéreo ainda é incerto. O noticiário positivo de vacinas pode ajudar – e muito – o setor. No entanto, ainda não é possível saber como ficará a demanda por viagens no ano que vem.

Segundo o sócio da consultoria Performa, o segmento de viagens corporativas pode demorar mais para se recuperar do que as viagens de lazer. Outro ponto de dúvida é a retomada das viagens internacionais. Isso porque somente as rotas mais curtas têm mostrado recuperação.

De acordo com a Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata), a demanda global por voos caiu 79% em julho ante o mesmo mês de 2019. No entanto, olhando apenas para os voos domésticos, a queda foi de 57,5%.

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