GFSA3 e TCSA3: fusão pode ser positiva, dizem analistas

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Divulgação/Tecnisa

Até o final de setembro, os investidores devem ter uma definição sobre a fusão das incorporadoras Gafisa (GFSA3) e Tecnisa (TCSA3), que daria origem a uma gigante do setor imobiliário.

Nos dias 10 e 25 do próximo mês, os acionistas da Tecnisa se reúnem em assembleias para analisar a oferta hostil feita pela Gafisa. Chama-se de oferta hostil uma proposta que não foi negociada com os administradores.

Até lá, apontam os analistas, o cenário deve ser de incertezas e volatilidade no preço das ações. No entanto, no longo prazo, a avaliação é de que a fusão tende a ser positiva para as duas empresas.

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A oferta inesperada de fusão ocorreu no dia 18 de agosto. Desde então, as ações da Gafisa caíram 4,7%, indo de R$ 5,52 para R$ 5,26. Já as ações da Tecnisa subiram, no mesmo período, 14,5%, indo de R$ 11,17 para R$ 12,79.

“Como o modelo de fusão ainda não está definido, observamos um movimento especulativo com o preço destas ações”, afirma Pedro Galdi, analista da Mirae Asset.

Entenda a oferta

A notícia da possível fusão pegou o mercado e também a Tecnisa desprevenidos. A oferta foi considerada hostil justamente por não ter sido negociada previamente com o outro lado interessado.

Toda a polêmica teve início com a Tecnisa tornando público o teor de uma “proposta não solicitada” de combinação de negócios feita pela Bergamo Fundo de Investimento. A Bergamo pertence integralmente à Gafisa.

Um detalhe importante da história é que a Gafisa já detém 3,1% das ações da Tecnisa. Ou seja, fez a oferta na condição de acionista.

A Tecnisa, por sua vez, tem seu capital pulverizado, sem controle definido. Mas é controlada desde sempre pelo fundador Meyer Joseph Nigri que, junto à família, detém 24% das ações da empresa.

A grande questão é que, tirando as ações que pertencem à Gafisa (3,1%) e à família Nigri (24%), os outros 72,9% da empresa estão espalhados entre minoritários que podem ou não achar interessante a proposta de fusão. Daí as incertezas que rondam a negociação.

Além de deixar clara a intenção de fusão, a correspondência da Bergamo/Gafisa para a Tecnisa também pedia a alteração de uma cláusula específica do estatuto da Tecnisa: a que determina que um mesmo acionista não pode ter mais do que 20% da empresa. A Gafisa quer aumentar essa porcentagem para 30%.

Solicitava ainda um aumento do capital social no montante de R$ 500 milhões. E, por fim, a eleição de um novo conselho de administração.

Todos esses pontos deverão ser discutidos nas assembleias agendadas para 10 e 25 setembro.

Reação dos acionistas da Tecnisa

Os principais acionistas da Tecnisa reagiram, a princípio, contrários à fusão. E assinaram um novo acordo de votos, divulgado nesta quarta-feira (26). Isso aponta que o grupo tende a votar “em bloco”, combinando antecipadamente a posição que irão assumir na negociação.

Assinaram o acordo de votos Meyer Joseph Nigri, presidente do conselho de administração, o filho Joseph Meyer Nigri, diretor-presidente da companhia, a Cyrela Brazil Realty, o Vokin Evolution Fundo de Investimento Multimercado Investimento no Exterior e o FDI Fundo de Investimento em Ações. Juntos, esses acionistas detêm 33% do capital social.

Por que a Gafisa quer a Tecnisa?

A proposta feita à Tecnisa é a segunda operação de associação da Gafisa em menos de um ano. Em dezembro de 2019, a empresa adquiriu a Upcon.

Nos últimos anos, a Gafisa vem passando por um processo de encolhimento, com suspensão de lançamentos e endividamento elevado. A empresa também enfrentou uma série de mudanças polêmicas em sua gestão.

Em 2018, o investidor sul-coreano Mu Hak You, da GWI, assumiu a Gafisa e chegou a demitir grande parte da diretoria em um mesmo dia. Em 2019, a empresa iniciou uma reestruturação, após a entrada de Nelson Tanure via fundos geridos pela Planner Redwood Asset Management. Tanure é um investidor bastante conhecido por atuar na recuperação da Oi (OIBR3) e da PetroRio (PRIO3).

A fusão com a Tecnisa seria, então, mais um passo em busca de reposicionamento.

De acordo com os cálculos da Gafisa, a fusão entre as duas empresas poderia gerar lançamentos imobiliários que movimentariam de R$ 2 bilhões a R$ 3 bilhões por ano. E formaria uma gigante do setor imobiliário, com um banco de terrenos (landbank) avaliado em R$ 10,3 bilhões.

Seria a “nova AmBev do mercado”, como afirmou Tanure, fazendo alusão à união de Brahma e Antarctica.

Realidade de cada empresa hoje

Em seu balanço do segundo trimestre de 2020, a Gafisa registrou um prejuízo de R$ 23,5 milhões, com piora de 85% na comparação com igual período de 2019. Em 30 de junho de 2020, o saldo de caixa totalizou R$ 570,2 milhões.

Já a Tecnisa registrou prejuízo de R$ 40 milhões no segundo trimestre deste ano, mas com melhora de 72% na comparação com o mesmo período do ano passado. Ela encerrou o trimestre com uma posição consolidada de caixa de R$ 287 milhões.

Quem ganharia com a fusão?

Apesar da polêmica devido ao fato de a oferta ter sido feita de maneira bastante agressiva, os analistas veem a fusão com bons olhos.

“A grande vantagem seria o ganho de sinergia. São duas empresas que ganhariam em escala, porque ambas consomem material de construção. Então, teoricamente, poderiam, conseguir um preço melhor de compra, pagar mais barato os fornecedores. Também teriam vantagem no crédito. Poderiam captar dinheiro de forma mais barata, porque as duas atuam em um mercado em que as empresas normalmente se endividam para construir um prédio. Poderiam ganhar ainda em inovação e em novas frentes de negócios”, enumera Bruno Musa, sócio da Acqua Investimentos.

Entretanto, ele pondera, essa sinergia demandaria um tempo. “A sinergia não acontece de uma hora para outra. Você acaba tendo excessos dentro das duas empresas por um período e isso é natural. Por exemplo, você tem duas pessoas trabalhando na mesma função, dois presidentes ou dois gerentes de projeto”. Ainda assim, ele diz, no longo prazo o resultado deve ser o de uma empresa mais robusta.

Momento positivo para o setor imobiliário

Pedro Galdi, da Mirae, concorda que o processo de fusão acaba sendo muito interessante para as duas empresas. Na sua leitura, haveria uma soma de banco de terrenos, de lançamentos e de estrutura comercial que se complementam.

O momento, ele diz, também é bastante positivo para o setor. “Com a queda da taxa de juros (Selic), temos uma forte evolução na demanda por residências”, afirma.

De fato, o último Índice de Confiança da Construção (ICST), da Fundação Getulio Vargas, apontou que o setor da construção já recuperou, de maio a agosto, 82% da confiança perdida em março e abril, os piores meses da pandemia no Brasil. “A confiança dos empresários da construção está próxima do patamar pré-covid”, diz a pesquisadora Ana Maria Castelo.

Apesar de ver com bons olhos a fusão, Galdi aponta que a recomendação de compra da Mirae é por outra incorporadora, a MRV. Essa, segundo ele, será beneficiada não só pela Selic, mas também pelo programa habitacional Casa Verde Amarela, do governo federal. Tecnisa e Gafisa, por atenderem um público de classe média e alta, ficarão de fora desse movimento.