Fundos de crédito privado: oportunidades e riscos de investir

Natalia Gómez
Editora, é jornalista especializada no mercado de investimentos há 17 anos. Formada pela PUC-SP, teve experiências em veículos como Agência Estado, Valor Econômico e Revista Você SA; e na área de comunicação corporativa e relações públicas para instituições financeiras.

O mercado de crédito privado está oferecendo boas oportunidades para os investidores. Isso ocorre porque a crise política e a pandemia mundial aumentaram os riscos, e levaram o mercado a exigir prêmios maiores pelos papéis.

Em outras palavras, o retorno que os títulos de crédito privado pagam está melhor.

No entanto, o investidor deve escolher com cautela este tipo de investimento, justamente pelo risco elevado.

Existem fundos de crédito mais seguros que outros. Fundos que investem em empresas de primeira linha, conhecidos como high grade, apresentam riscos mais baixos.

Da mesma forma, fundos que têm prazos de resgate mais longos são avaliados de forma mais positiva pelos especialistas.

Mas antes de continuar, entenda melhor como funciona este mercado e quais são os riscos em jogo.

Entenda os fundos de crédito privado

Os fundos de crédito privado são fundos de investimentos que investem em títulos de dívida emitidos por empresas. As debêntures são alguns dos ativos mais comuns nas carteiras destes fundos.

As empresas emitem este tipo de papel para financiar suas operações. Os investidores compram os papéis, e em troca recebem juros.

Os fundos de crédito têm vários títulos de dívida em sua carteira.

Diferenciando os fundos

Existem fundos de crédito que investem somente em empresas de primeira linha. Ou seja, empresas que têm um baixo risco de inadimplência.

Também conhecidas como “triple A”, estas companhias costumam ser líderes em seus mercados e ter uma boa posição de caixa.

Por terem baixo risco de crédito, os fundos high grade são os mais indicados neste momento, já que o risco é menor.

Segundo Fernando Fridman, head de produtos da Ourinvest DTVM, os gestores de fundos de crédito estão em contato constante com as empresas. “Os gestores ficam muito próximos das empresas analisando as situações neste momento”, afirma.

Até o momento, não houve um sinal de que o risco de crédito das empresas de primeira linha tenha aumentado.

No entanto, é preciso avaliar cada empresa em detalhe para avaliar qual é o risco de cada uma. Por exemplo, empresas ligadas a turismo ou aviação já não devem ter o mesmo risco de crédito de antigamente.

“Os gestores têm que ser bem seletivos. Antes qualquer empresa de grande porte tinha um risco baixo, mas hoje o mercado mudou um pouco”, explica Marcos Iório, gestor da Integral Investimentos.

Ele afirma que a gestora vai monitorar de perto o impacto da crise sobre os balanços das empresas.

A vantagem dos fundos de crédito é que eles têm uma carteira diversificada e não estão expostos a apenas uma empresa, mas várias. Isso ajuda a mitigar os riscos.

No entanto, vale destacar que o crédito privado sempre tem riscos. “Ainda mais no cenário atual de pandemia mundial e crise política”, destaca o professor da Universidade Veiga de Almeida, Haroldo Monteiro.

Mercado tomou um tombo

No começo da pandemia, os fundos de crédito privado tomaram um tombo. Isso ocorreu porque muitos cotistas pediram resgates ao mesmo tempo.

Para ter uma ideia, os investidores tiraram R$ 9,6 bilhões desses fundos em março, segundo a JGP Gestão de Recursos. Em fevereiro, antes do agravamento da pandemia, os resgates eram de R$ 1,5 bilhão.

Com isso, os gestores dos fundos foram obrigados a vender os ativos num momento de demanda baixa. Ou seja, precisaram pagar caro para conseguir gerar caixa e honrar os pagamentos aos cotistas.

A debandada dos investidores e a falta de procura por debêntures impactou o valor das cotas dos fundos.

Por isso, os cotistas viram a rentabilidade destes fundos cair bastante.

Em março, o Índice de Debêntures atreladas aos juros DI (IDA-DI) caiu 4,9%. O indicador mede o comportamento de uma carteira de debêntures indexadas ao CDI e é calculado pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Em abril, este movimento foi atenuado. Até o dia 29 de abril, o IDA-DI subiu 0,38%.

O Idex-CDI, índice de debêntures calculado pela JGP, também mostrou recuperação em abril.

High grade sofreram mais

Nesta queda do mercado, os fundos de crédito high grade foram os que mais sofreram.

Segundo Lucas Collazo, analista da Rico Investimentos, isso ocorreu porque estes fundos têm uma liquidez muito maior. Ou seja, seus ativos são negociados com mais facilidade.

Em contrapartida, os fundos de crédito que investem em empresas de menor qualidade sofreram menos.

Para Lucas, isso é uma evidência de que o tombo deste mercado se deve muito mais ao problema de liquidez do que a um problema de risco de crédito.

Isso causou uma distorção no mercado, já que os fundamentos das empresas de primeira linha seguem fortes. Em outras palavras, aí existe uma oportunidade para os inverstidores.

Por isso, os gestores destes fundos já saíram novamente às compras para conseguir taxas melhores. Assim, os fundos estão oferecendo taxas de carrego mais atrativas.

O Banco Central ajudou na retomada do mercado, já que incentivou os bancos a comprarem debêntures. O BC também pretende passar a comprar estes títulos diretamente.

Segundo Eduardo Montalban, Diretor de Estratégia e Alocação da Planner Corretora, a turbulência vista neste mercado está se acalmando.

Ele vê uma janela de oportunidade para os rendimentos nos próximos 12 meses. “Estes fundos sofreram muito e os preços vão voltar”, disse.

Prazos de resgate são importantes

Agora que você entendeu o que ocorreu com os fundos em março, vai ficar mais fácil entender outro critério para avaliar este mercado.

Segundo os especialistas, os fundos de crédito mais seguros são aqueles que têm prazos de resgate condizentes com os ativos da carteira.

Para entender, imagine que os clientes pediram muitos resgates para um fundo. Neste caso, o gestor vai ter que vender títulos no mercado para conseguir fazer caixa e pagar os cotistas.

Quando o prazo de resgate é muito curto, estes gestores têm pouco tempo para fazer esta venda.

Isso é um problema se os títulos que estão sendo vendidos são de longo prazo, porque são títulos que demoram mais para serem negociados.

“Quando o gestor tem um ativo pouco líquido, fica mais fácil fazer essa venda com um preço melhor quando ele tem mais tempo”, explica o especialista da Ourinvest. Um exemplo são fundos que têm 45 dias de prazo.

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Já um fundo com resgate em dois dias ficaria em uma situação bem mais complicada, já que o gestor teria que aceitar propostas piores.

Segundo o analista da Rico, o investidor deve preferir fundos com resgate em prazos longos, como 30, 40 ou até 180 dias.